Polícia Militar tende ocorrência de homicídio em favela de São Paulo: homicídios caíram, mas índfices ainda são elevados. (Rede Social)


O Brasil alcançou um marco em 2024 ao registrar o menor número de homicídios desde 2011, com 44.127 assassinatos. Apesar dessa melhora expressiva, o novo Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (24) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela um cenário complexo e desafiador.

O relatório destaca a migração do crime para o ambiente digital, o aumento alarmante de feminicídios e de mortes de adolescentes, além da persistência da letalidade policial em alguns estados. A redução dos homicídios, que representa uma taxa de 20,8 casos por 100 mil habitantes, é atribuída, em parte, à diminuição dos conflitos entre facções criminosas e ao deslocamento das atividades para o mundo virtual.

Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do Fórum, alerta que, mesmo com a queda, a taxa brasileira de homicídios ainda é quase quatro vezes superior à média global.

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Crimes que acendem o alerta

Enquanto os homicídios gerais recuaram, outros indicadores de violência acendem sinais de preocupação. As mortes violentas intencionais de crianças e adolescentes (0 a 17 anos) cresceram 3,7%, totalizando 2.356 casos. Preocupantemente, 15,7% das vítimas entre 12 e 17 anos foram mortas em decorrência de intervenção policial.

O ano de 2024 também registrou o maior número de feminicídios da série histórica, com 1.492 mulheres assassinadas. As tentativas de feminicídio aumentaram 19%, totalizando 3.870 ocorrências. A violência sexual segue em patamar chocante: 87.545 vítimas de estupro e estupro de vulnerável, o que equivale a uma pessoa estuprada a cada seis minutos.

Dados sobre stalking (18,2%) e violência psicológica (6,3%) também apresentaram crescimento. A Polícia Militar foi acionada mais de um milhão de vezes para casos de violência doméstica, com média de dois chamados por minuto. O aumento de 4,9% no número de desaparecimentos pode estar relacionado, segundo Lima, à atuação do crime organizado e à existência de cemitérios clandestinos.

Inimigo agora é digital

A mudança no perfil da criminalidade é uma das principais conclusões do Anuário. Modalidades mais arriscadas, como assaltos a banco, diminuíram. Em contrapartida, golpes virtuais e furtos de celular dispararam. O Brasil registrou quase 2,17 milhões de casos de estelionato em 2024 — um aumento de 7,8%, equivalente a quatro ocorrências por minuto.

A popularização do Pix, dos aplicativos bancários e das plataformas de apostas impulsiona esse fenômeno, que vem se sofisticando com o uso de inteligência artificial. “Se a violência física diminuiu, o medo, a insegurança e a força do crime organizado continuam mais altos do que nunca”, ressalta Lima. Essa nova dinâmica exige uma abordagem policial mais voltada para a inteligência investigativa e menos para o patrulhamento ostensivo. O Ministério da Justiça e Segurança Pública, em parceria com bancos, tem investido em ações conjuntas para combater essas fraudes.

Letalidade policial

Apesar da queda nacional nos homicídios, quatro estados registraram aumento: Ceará (10,9%), Maranhão (12,1%), Minas Gerais (5%) e São Paulo (7,5%). Nessas regiões, também houve crescimento nas mortes cometidas por policiais em serviço e de folga. São Paulo é um dos poucos estados onde mais de 20% das mortes violentas intencionais decorrem da ação de agentes do Estado, superando a média nacional de 14,1%. A Bahia registrou o maior número absoluto de mortes cometidas pelas polícias (1.556), e o Amapá teve a maior taxa de letalidade policial por 100 mil habitantes (17,1).

As regiões Norte e Nordeste continuam apresentando as maiores taxas de homicídios. Das dez cidades mais violentas do país, todas estão no Nordeste, com destaque para Ceará e Bahia. Maranguape (CE) lidera o ranking, com 79,9 óbitos por cem mil habitantes, seguida por Jequié (BA).

Roubos de celular

A capital paulista lidera nos roubos e furtos de celular, concentrando 18,5% dos casos registrados no país, com uma taxa de 1.525 ocorrências por 100 mil habitantes. Belém e São Luís também apresentam índices elevados. Em 2024, foram 917 mil registros de furtos ou roubos de celular no país — queda de 13,4% em relação ao ano anterior, mas ainda em patamar preocupante. A taxa de recuperação desses aparelhos é baixa: apenas 35,6 mil foram devolvidos às vítimas.

A maioria dos roubos ocorre em via pública, principalmente às quintas e sextas-feiras, com picos entre 6h e 8h e entre 19h e 20h. As vítimas são, em sua maioria, homens (59,1%), entre 20 e 39 anos (52%) e pessoas negras (63,1%).

O que é o Anuário e quem o faz?

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública é uma publicação anual que reúne dados, análises e estatísticas sobre a violência e a criminalidade no Brasil. É produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), organização independente que conta com apoio institucional de diversas entidades públicas e privadas, além de parcerias com universidades, órgãos governamentais e institutos de pesquisa.

Os dados são compilados a partir de informações oficiais fornecidas por secretarias estaduais de segurança, polícias civis e militares, Ministério da Justiça, Sistema Prisional, e pelo próprio Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que representa o Judiciário. O CNJ participa como fonte essencial para os dados de processos, prisões, audiências de custódia e ações judiciais ligadas à segurança pública.

A elaboração do Anuário exige métodos rigorosos de coleta, checagem e padronização dos dados, garantindo confiabilidade às informações. O conteúdo inclui indicadores como número de homicídios, roubos, violência contra mulheres, atuação policial e análises sobre políticas de segurança.

Sua importância reside na transparência, no apoio à formulação de políticas públicas e no estímulo ao debate qualificado sobre segurança. Para gestores, pesquisadores e cidadãos, o Anuário é uma ferramenta essencial para compreender o panorama da violência no Brasil.

Leia detalhes dos principais pontos do Anuário nestes links:

SP registra a maior alta de mortes por policiais | Brasil Confidencial

 Assassinatos caem no Brasil ao menor número desde 2011 | Brasil Confidencial

Quais são as cidades com mais roubos de celular? | Brasil Confidencial

Brasil tem mais de 2 mi de golpes, em fraudes com Pix e redes sociais | Brasil Confidencial

Cidades mais violentas do Brasil estão no Nordeste | Brasil Confidencial

LEIA AQUI A ÍNTEGRA DO ANUÁRIO BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA: