O Brasil enfrenta uma crise silenciosa de estresse crônico. Dados do Ministério da Saúde revelam que os transtornos relacionados ao estresse crônico estão entre os principais motivos de busca por atendimento no SUS (Sistema Único de Saúde), especialmente em regiões metropolitanas.
A Associação Médica Brasileira de Saúde Corporativa (AMBRAC) classifica o cenário como uma “epidemia silenciosa”: em 2024, foram 471.649 afastamentos por transtornos mentais, sendo 141 mil por ansiedade e 113 mil por depressão.
No Rio de Janeiro, quem acompanha de perto essa realidade é a médica especialista Patrícia Olaya, que atua como dermatologista e psiquiatra. Ela estuda o problema há mais de uma década e atende pacientes em seu consultório em Ipanema. Estudiosa do tema, Olaya alerta que “o estresse deixou de ser apenas um desconforto psicológico e passou a representar risco concreto para a saúde física e emocional”. Tal situação reflete na saúde dermatológica dos pacientes, diz.
“O estresse crônico fragiliza o sistema imunológico e abre caminho para enfermidades cardiovasculares, autoimunes, infecciosas e dermatológicas”, afirma.
“A vida moderna, marcada por metas de trabalho, exigências escolares e o ritmo acelerado das grandes cidades, tem transformado o estresse em um problema contínuo. O risco aparece quando esse estado se prolonga e se torna crônico.”
Ela explica que, em situações pontuais, o estresse pode ser benéfico: “Acelera o coração, aumenta a glicose no sangue e coloca o corpo em alerta”. Mas quando esse estado se mantém por semanas ou meses, “os efeitos são devastadores”.
Segundo Olaya, os impactos hoje atingem todas as faixas etárias. “Crianças e jovens também têm apresentado doenças autoimunes e quadros de ansiedade relacionados ao excesso de informação e à pressão social. Entre os idosos, o problema se agrava ainda mais: o organismo já debilitado pelo envelhecimento responde com menos eficiência às infecções, tornando-os mais vulneráveis.”
Ela reforça que o estresse crônico pode antecipar doenças graves: “Estamos falando de risco aumentado para infarto e AVC. Além disso, há o agravamento de quadros dermatológicos. A pele reflete diretamente o estado emocional. O estresse destrói colágeno, fundamental para a saúde da pele e para a autoestima.”
A médica também chama atenção para os impactos psicológicos. “A busca incessante pela perfeição estética, potencializada pelas redes sociais, tem gerado distúrbios de imagem e sofrimento emocional. O cuidado com a saúde mental é inseparável da saúde física. A alegria sai na pele, e isso é verdade. Quando conseguimos olhar para o ser humano como um todo, promovemos uma melhora global.”
Os números confirmam a gravidade do alerta. O Ministério da Previdência Social aponta que os afastamentos do trabalho por transtornos motivados pelo estresse saltaram de cerca de 203 mil em 2014 para mais de 440 mil em 2024. Em 2025, os índices se mantiveram elevados. São Paulo e Rio de Janeiro lideram os casos, impulsionados por fatores como longos deslocamentos, violência urbana e alta competitividade profissional.
Olaya lembra que o estresse crônico não é apenas um problema individual, mas social. “Há queda de produtividade, sobrecarga no sistema de saúde e prejuízos bilionários para empresas e para a Previdência. É um problema que precisa ser tratado como prioridade de saúde pública.”
Quem é a médica
Formada pela Universidade do Grande Rio (Unigranrio), Patrícia Olaya é pós-graduada em dermatologia e psiquiatria. Em 2023, concluiu aprimoramento em Medicina do Estilo de Vida. Há mais de dez anos ministra cursos de cosmiatria para médicos e mantém consultório próprio em Ipanema, onde defende um atendimento humanizado e voltado para o bem-estar dos pacientes.





