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Em pronunciamento nesta quarta-feira (28), no Fórum Econômico Internacional da América Latina e Caribe, na Cidade do Panamá, o presidente Lula criticou a paralisia de órgãos regionais diante de violações de soberanias e defendeu que “a única guerra legítima no continente deve ser contra a fome”, rejeitando o uso da força e a submissão a interesses de potências estrangeiras.
No discurso de abertura do Fórum, no Panamá, o presidente traçou um “diagnóstico severo” sobre a atual fragmentação do continente.
Lula iniciou sua fala resgatando o legado do Congresso de 1826, destacando que conceitos como a manutenção da paz e a independência política foram insuficientes para evitar o atual estado de desintegração.
Segundo ele, vivemos hoje “um dos momentos de maior retrocesso em matéria de integração”, onde a intolerância ideológica destruiu experiências anteriores. “Voltamos a ser uma região dividida, mais voltada para fora do que para si própria. Permitimos que conflitos e disputas ideológicas alheios se imponham”, afirmou o mandatário, criticando a forma como a região se tornou vulnerável a influências externas.
O presidente Lula elevou o tom ao falar sobre a paralisia das instituições regionais, citando especificamente a CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), um bloco regional intergovernamental que reúne 33 países da América Latina e do Caribe, criado em 2010 para promover integração, cooperação e concertação política sem a presença de países de fora da região.
Lula lamentou que o bloco não consiga reagir a agressões externas ou crises internas de soberania.
“A CELAC não consegue produzir nem mesmo uma única declaração contra intervenções militares ilegais que abalam a nossa região”, disparou.
Para o presidente, essa fragilidade institucional é reflexo da falta de lideranças comprometidas com um projeto autônomo. Ele mencionou a presença constante de grandes potências como um fator que exige cautela e firmeza dos governantes locais.
“A proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo – Estados Unidos – é outra referência inescapável, seja pela sua presença ou pelo seu distanciamento, sobretudo num contexto de recrudescimento de tentações hegemônicas”, pontuou.
O presidente brasileiro defendeu que o uso da força e as tentativas de controle de recursos naturais por terceiros são práticas ultrapassadas que devem ser combatidas com diplomacia e unidade regional.
“A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos e retrocessos históricos”, alertou Lula, lembrando que a América Latina possui ativos como minerais críticos e terras raras que devem servir ao desenvolvimento local, e não apenas à exportação primária.
Ele reforçou que o foco das nações deve ser a estabilidade democrática e social, afirmando categoricamente: “Para o Brasil, a única guerra que precisamos travar nesta parte do mundo é contra a fome e a desigualdade”.
Ao final, Lula fez um apelo à união dos países vizinhos, citando que nenhum deles resolverá seus problemas isoladamente. Ele destacou os avanços econômicos do Brasil, como o crescimento acima de 3% e a redução da pobreza, mas enfatizou que o sucesso brasileiro é limitado se a região continuar pobre. “A história mostra que o uso da força jamais pavimentará o caminho para superar as mazelas que afligem esse hemisfério que é de todos nós”, disse, instando os líderes a colocarem “os pobres no orçamento” e a buscarem parcerias baseadas no comércio justo.
Concluiu advertindo que, sem essa vontade política de integração soberana, “nós vamos terminar esse século tão pobre como começamos o século”.





