O produtor de cinema e TV, Raul Doria, durante entrevista ao BC TV


“Cinema forte no Brasil só existe com incentivo do Estado.” A frase, dita sem titubear por Raul Doria, não soa como mera opinião: é o diagnóstico de quem atravessou quase cinco décadas de batalhas no audiovisual brasileiro.

Produtor de cinema e televisão, ex-jornalista, publicitário e veterano de campanhas políticas, Doria fala com a autoridade de quem conhece os bastidores da criação artística e os mecanismos de financiamento que sustentam a indústria cultural.

Em um país marcado hoje pela polarização política e às vésperas de eleições cruciais que vão redesenhar o mapa institucional, sua trajetória se transforma em alerta sobre o futuro da cultura nacional.

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Para ele, sem políticas públicas de fomento — da Lei Rouanet a editais estaduais e municipais — o cinema brasileiro corre o risco de definhar diante da força avassaladora do mercado global.

Doria acumula experiências que vão das campanhas publicitárias icônicas à produção independente para televisão e longas-metragens que alcançaram públicos diversos.

Nesta segunda-feira (2), ele participou do programa BC TV, do portal Brasil Confidencial, em uma entrevista marcada por reflexões que ultrapassam o campo da arte.

Ao analisar o impacto da radicalização política sobre o audiovisual, lembrou sua própria passagem por campanhas eleitorais e episódios que o afastaram da vida pública, apontando o “desgaste humano e familiar imposto pela política”.

“O ambiente se tornou hostil, radicalizado e prejudicial não apenas ao debate democrático, mas também à produção cultural e ao convívio social”, afirmou.

Raul Doria fala do cruzamento entre cultura e política em um momento decisivo para a democracia brasileira — e sua voz ecoa como testemunho de quem viveu, por dentro, os embates que moldaram o audiovisual no país.

A seguir, leia os principais trechos da entrevista:

Camila Srougi – Raul, quando a gente olha para o cenário atual do audiovisual brasileiro, qual é o maior desafio hoje?

Raul Doria – Antes de responder diretamente, acho importante me posicionar para que as pessoas entendam de onde eu falo. Dentro do audiovisual, eu estou partindo para meio século de produção. São 46 anos de trabalho em quatro vertentes diferentes, representando quatro tipos de produtor.

Na produção de TV independente, durante muitos anos, tive programação em praticamente todos os canais de televisão, com exceção da Globo, que antigamente não trabalhava com produção independente.

A segunda vertente é a publicidade. Sou um dos produtores mais antigos do país e tive a felicidade, nesses 45 anos, de construir marcas importantes como Havaianas, Skol, Antártica, Brahma, Cacau Show, Bauducco, sempre em parceria com as agências de publicidade.

A terceira vertente é o cinema. Meu último filme foi Divaldo Franco – O Mensageiro da Paz, lançado pouco antes da pandemia. Antes disso, produzi Ninguém Ama Ninguém por Mais de Dois Anos, sobre Nelson Rodrigues. O filme do Divaldo foi o último antes da pandemia e já tinha feito mais de 500 mil tíquetes, o que é bastante.

Como a mensagem do filme conforta muito em momentos de perda, conseguimos algo raro: liberar o sinal no YouTube, com autorização da Disney, que produziu o filme. Eu sou espírita, minha mulher também é apaixonada pelo Divaldo, e esse projeto teve um significado pessoal muito forte.

A quarta vertente é a comunicação política. Em 1986, por afinidade familiar, fiz minha primeira campanha política para Fernando Henrique Cardoso, quando ele era senador. Sempre trabalhei em dupla, agregando um criador. Naquele caso, foi com Eduardo Fischer.

Depois disso, fiz campanhas importantes: para Orestes Quércia, para o governo de São Paulo; criei a TVT, uma produtora dedicada exclusivamente à política; participei da campanha de Fernando Collor no segundo turno — e ali eu decidi que nunca mais faria isso.

Germano Oliveira – Por que essa decisão tão definitiva de se afastar da política naquele momento?

Raul Doria – Porque ali eu vivi uma experiência que me indignou profundamente. Houve a edição daquele material envolvendo a Miriam Cordeiro. Eu não editei aquilo com a intenção de colocar no ar. Era apenas uma troca de informações entre comitês, algo comum em campanhas.

Quando o Collor entrou na sala, acompanhado de jornalistas, ele decidiu editar e colocou aquilo no ar. Aquilo foi 100% decisão dele. Meu sócio, Chico Santa Rita, nem estava em Brasília naquela semana.

Ninguém sabia se aquilo era verdade ou mentira. Depois se comprovou que era verdade, mas o estrago já estava feito. Foi um fator decisivo na eleição. E ali eu jurei que nunca mais faria campanha política.

Germano Oliveira – Mas anos depois você voltou a se envolver, especialmente com João Doria, não?

Raul Doria – Sim. Em 2016, o João Doria, que é meu irmão, decidiu se candidatar a prefeito de São Paulo. Primeiro fui contra, depois acabei entrando. A campanha ganhou no primeiro turno.

Depois veio a campanha para governador, novamente saindo de 4% e vencendo no segundo turno contra Márcio França. Eu estava próximo, coordenando, embora não fosse o homem da linha de frente.

Já na tentativa de candidatura à Presidência, eu consegui realizar um sonho profissional: montar um comitê completo, tudo no mesmo lugar — produção audiovisual, imprensa, redes sociais, monitoramento, auditório. Alugamos uma casa enorme e a pré-campanha estava indo muito bem.

Mas houve um movimento interno no partido. O então presidente do PSDB, Bruno Araújo, articulou a retirada do João da disputa, com base em uma pesquisa que ninguém viu — nem o candidato, nem dirigentes do partido, nem a própria Simone Tebet, que supostamente estaria melhor posicionada.

Na minha opinião, essa pesquisa não existiu. Foi um conluio político e econômico. E o Brasil acabou pagando o preço.

Germano Oliveira – Esse episódio ajuda a explicar o nível de desgaste da política hoje?

Raul Doria – Sem dúvida. A política hoje destrói famílias. A polarização é um caos. Durante a pandemia, o João enfrentou o Bolsonaro e isso gerou um nível de hostilidade absurdo. Tinha gente xingando na porta da casa dele, foi preciso colocar viatura da polícia.

Isso não é razoável. Se ele voltasse para a política, não ficaria ninguém da família ao redor. Não fico eu, não ficam meus filhos, não fica ninguém. A família apanha demais.

Camila Srougi – Voltando ao audiovisual: o produtor muitas vezes é o elo entre criação, mercado e política pública. Como equilibrar isso?

Raul Doria – É uma alquimia. Cada projeto exige uma equipe diferente. Nunca monto uma equipe igual. Publicidade é uma coisa, cinema é outra, TV é outra, redes sociais são outra tribo completamente diferente.

Hoje se confunde muito isso, principalmente com redes sociais e inteligência artificial. O post é perecível, você vê uma vez. Um filme é feito para durar.

A inteligência artificial é um tema delicadíssimo, ético, com fronteiras perigosas.

Coisas que antes eram bobagens viraram símbolos políticos. Eu fiz o filme da Havaianas com o Romário, do “pé direito”, anos atrás, sem qualquer intenção política. Hoje tudo é interpretado ideologicamente.

Germano Oliveira – O cinema brasileiro vive um bom momento?

Raul Doria – Sem dúvida. Estamos vivendo uma fase áurea. Filmes premiados, reconhecimento internacional. Isso é espetacular.

E é importante dizer: não existe cinema forte sem incentivo público. Em nenhum lugar do mundo. Nem nos Estados Unidos. Hollywood nasceu com incentivo estatal para vender o way of life americano.

A Lei Rouanet é fundamental. Sem ela, não se faz nada. É impossível.

Germano Oliveira – E quais são os próximos projetos?

Raul Doria – Estamos desenvolvendo vários projetos ao mesmo tempo, porque cinema leva anos. Um deles é mais um filme ligado ao universo espírita, a partir de um roteiro do Clóvis, muito forte.

Também temos um projeto de ação, algo como um “James Bond brasileiro”, um gênero que os players estão buscando mais. E uma comédia brasileira com argentinos, que pode ser muito interessante.

Tudo isso está em fase de captação. Sem incentivo, nada disso sai do papel.

📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV: