Laira Vieira


Por Laira Vieira 

Calor que gruda na pele, suor que escorre pelas têmporas, ruas abarrotadas, escadas que rangem como dentes. O Recife de 1977 pulsa como organismo vivo, respirando medo e vigilância, e cada sombra parece carregar um passado pronto para cobrar atenção. O Agente Secreto (2025), de Kleber Mendonça Filho (Bacurau, Aquarius), mergulha nesse corpo aberto, transformando memória em tensão, lembrança em armadilha e sombra em identidade. Desde sua estreia nos principais festivais internacionais, a obra foi saudada como um dos filmes mais impactantes do ano, reverberando além de seus limites geográficos e provando que o cinema brasileiro ainda sabe ferir com elegância e precisão.

Surge Armando, vivido por Wagner Moura (Tropa de Elite, Narcos), um homem que carrega múltiplas identidades, porque, no Brasil da ditadura militar (1964–1985), ser demais ou ser de menos podia custar caro demais. Moura domina o personagem com intensidade silenciosa, cada gesto calibrado, cada olhar carregado de tensão; um desempenho que escalou sua presença no cenário crítico mundial como uma das atuações mais afiadas da temporada. Não é apenas a técnica: é a forma como ele respira medo e esperança ao mesmo tempo, fazendo do espectador um cúmplice involuntário da memória viva que o longa-metragem insiste em não deixar adormecer.

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Ele se move com cautela, medindo gestos e silêncio, tentando respirar em um ar carregado de olhos invisíveis e julgamentos suspensos. Enquanto percorre ruas, becos e lembranças, percebe-se que a memória não se limita ao passado: ela atravessa o presente, ecoando na sociedade que ainda hoje relativiza a repressão, romantiza o poder desmedido ou celebra a violência autoritária como se fosse folclore. Carnaval e festa, tambores e aplausos distraem e confundem, mas não escondem a continuidade da negligência histórica. Alguns setores exaltam torturadores, defendem medidas autoritárias que lembram o AI‑5, enquanto outros seguem ignorando o preço real do silêncio, da violência e da memória viva.

Como lembrava o filósofo George Santayana, “Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”: ignorância histórica não é neutra; é terreno fértil para repetir horrores. Nesse contraste, a película encontra suas fissuras mais humanas no riso inesperado que emerge de Dona Sebastiana, personagem de presença magnética interpretada por Tânia Maria (atriz não profissional, que recebeu aclamação internacional. A matriarca de aparências simples: cabelo já branco, olhar perspicaz e o eterno cigarro entre os dedos; acolhe Armando e outros deslocados com um humor que desarma o espectador. O alívio cômico que ela proporciona não desvia da gravidade, mas a intensifica: suas falas secas e suas observações ácidas fazem rir no meio do caos, como se o riso fosse um espelho quebrado refletindo a ironia brutal de uma era.

O diretor Kleber Mendonça Filho estava sendo entrevistado no tapete vermelho e falava sobre Wagner Moura, quando foi surpreendido com o anúncio de que seu filme havia ganhado o prêmio de melhor filme estrangeiro. (Reprodução)

As memórias se insinuam em flashes. O passado não se apresenta como explicação; surge como ameaça, atravessando corpos e gestos. Cada ação do protagonista é calculada, cada palavra medida, cada pausa, sobrevivência. Há ecos do que não foi dito, rostos que passam rápidos, lembranças que chegam incompletas, porque lembrar é pagar um preço, e o país insiste em cobrar juros altos. A narrativa não organiza o tempo; ela reproduz a sensação de viver nele, em que passado e presente se misturam como tinta em aquarela molhada.

Entre esses ecos, surgem rastros do que a ditadura produziu: medo, vigilância, formas distintas de sobreviver. O protagonista não é herói nem mártir; é sombra e vigilante de si mesmo, reflexo do país inteiro que aprendeu a medir volumes e silêncios. Alguns rostos surgem de passagem, lembrando que intimidade não garante confiança e que a vigilância se perpetua nas gerações seguintes. O filme não explicita figuras históricas, mas insinua, provoca e sugere o custo do esquecimento e o peso da memória viva.

A câmera se torna pele e respiração. Cada plano comprime o espaço, cada enquadramento exala tensão; o suor não é figurativo, é físico, a música não embala, ela alerta. A cidade canta, dança, finge festa enquanto o perigo se reorganiza nos bastidores. É nesse contraste que a obra injeta seu humor ácido: rir do absurdo da normalidade e da estupidez da complacência é sobreviver por alguns segundos a mais, e os lampejos de Sebastiana atravessam o medo como faísca, lembrando que até em uma ditadura a vida insiste em rir de si mesma.

E enquanto a memória atravessa o presente, o espectador percebe que o país de hoje ainda ecoa 1977: setores que relativizam o autoritarismo, que exaltam o poder desmedido, que compram narrativas sem experimentar o preço real do silêncio ou da tortura. Esquecer nunca é neutro; esquecer é terreno fértil para repetir horrores. O longa sugere que consciência não é gesto heróico, mas ato de defesa. Rir, nesse contexto, é ácido, involuntário e necessário: rir da repetição do passado, do descompasso entre festa e tragédia, entre discurso e realidade.

O Agente Secreto não oferece laços bonitos nem finais consoladores. Ele exige que se perceba a sombra que nos acompanha, que se sinta a vigilância embutida nas ruas, nos passos apressados, no calor e no suor. Sua ousadia talvez seja esta: lembrar que o país inteiro é caixa de ecos e que cada memória não cultivada é semente de desastre. O espectador sai do cinema com o corpo tenso, os sentidos atentos, a consciência latejando: estar vivo aqui é, antes de tudo, ouvir o que não queríamos escutar, sentir o que não queríamos suportar, reconhecer que a história não espera e que esquecer é escolher repetir. E rir, por mais ácido que seja, é a maneira de perceber que a vida continua, entre o absurdo e a memória, entre a festa e o alerta, entre o Brasil que fomos, o Brasil que insistimos em ser e o Brasil que ainda podemos, ou deveríamos,nos tornar.

*Laira Vieira é Critica Cultural, Economista e Tradutora. Autora.