Dr. Marcon Censoni*
O Brasil possui diretrizes claras para o cuidado oncológico. Existem leis que garantem prazo para diagnóstico e início do tratamento. Programas foram criados para acompanhar pacientes.
Mesmo assim, muitos ainda chegam tarde.
E a explicação não é simples.
Existe o comportamento individual:
• Sintomas ignorados
• Medo do diagnóstico
• Baixa adesão à prevenção
Existe o contexto epidemiológico:
• Tabagismo ainda relevante
• Obesidade crescente
• HPV ainda com cobertura vacinal insuficiente
Mas existe um terceiro elemento, mais determinante.
O sistema.
O problema não é apenas tempo.
É fluxo.
O paciente percorre um caminho fragmentado:
• Consulta inicial sem direcionamento claro
• Solicitação de exames com atraso
• Dificuldade para realização de biópsia
• Demora em laudos anatomopatológicos
• Encaminhamento tardio ao especialista
Em países como Canadá e Reino Unido, modelos de navegação de pacientes reduziram esse intervalo ao integrar atenção primária, diagnóstico e especialista.
No Brasil, iniciativas semelhantes começam a surgir, mas ainda de forma desigual.
Além disso, há um fator estrutural relevante:
O país tem dimensões continentais.
Isso significa:
• Desigualdade regional de acesso
• Concentração de centros de excelência
• Dificuldade logística para pacientes
O resultado é claro.
O estágio da doença no diagnóstico define o tratamento.
Estudos brasileiros mostram que pacientes diagnosticados precocemente são mais frequentemente tratados com cirurgia. Aqueles que chegam em estágios avançados dependem de quimioterapia.
Isso muda completamente o prognóstico.
E cria um contraste evidente.
Nos grandes centros:
• Diagnóstico rápido
• Decisão multidisciplinar
• Acesso à cirurgia robótica
• Tratamento integrado
Fora deles:
• Atraso no diagnóstico
• Fragmentação do cuidado
• Menor acesso à tecnologia

Como costumo dizer:
“O Brasil não tem um único problema no câncer. Tem uma desigualdade de percurso. Em alguns lugares, discutimos medicina de precisão e cirurgia robótica. Em outros, ainda lutamos para garantir biópsia e laudo em tempo adequado.”
Reduzir essa diferença é um dos maiores desafios da oncologia atual.
Porque, no fim, o desfecho não depende apenas da medicina disponível.
Depende da medicina que chega ao paciente no momento certo.
*Dr. Marcon Censoni A. Lima é médico e cirurgião aparelho digestivo/robótica, membro corpo clínico do Hospital Albert Einstein e Hospital Sírio Libanês, especialista em Transformação Digital na Saúde pela Harvard Medical School e Head Depto. Medicina Hospitalar AC Camargo Cancer Center.





