Um novo olhar sobre política, justiça e economia

Artigos

Depois do drone a cabo, surge o drone celular

Por Moisés Rabinovici

da Redação

04 junho 2026

Depois do drone a cabo, surge o drone celular

Depois do drone a cabo, surge o drone celular.

Os drones letais guiados por cabo de fibra ótica já têm um sucessor ucraniano: o drone equipado com chip SIM de celular, que utiliza as redes móveis de dados, como 4G e 5G, para manter contato com seu piloto remoto até o momento do ataque.

Contra ele, a defesa mais eficaz, por enquanto, é rudimentar: desligar as redes de telefonia celular da região ameaçada. Sem sinal de celular ou internet sem fio, o drone perde a comunicação com o operador e se torna inofensivo.

Enquanto isso, o drone a cabo continua evoluindo. Equipado agora com câmeras de visão noturna, ele passou a atacar também durante a noite. O exército israelense foi pego de surpresa por essa nova geração de armamento e já perdeu dez soldados e um civil desde o cessar-fogo de 16 de abril, violado diariamente.

O Hezbollah divulgou recentemente um vídeo em que um drone a cabo noturno sobrevoa o Castelo de Beaufort, retomado por Israel. Como as imagens não mostram soldados no topo da colina, onde deveriam estar posicionados, há suspeitas de que parte da gravação tenha sido produzida com Inteligência Artificial para fins de propaganda de guerra.

O drone a cabo funciona como uma pipa moderna, com um carretel de fibra ótica no lugar da linha. Israel possui sistemas sofisticados de defesa aérea contra mísseis e drones guiados por rádio, mas encontra dificuldades diante desses aparelhos artesanais, que não emitem sinais eletrônicos detectáveis e passam despercebidos pelos radares.

As soluções adotadas até agora lembram improvisações de outra época.

Redes, telas metálicas e cercas de arame farpado são usadas para tentar capturar os drones em voo. Na Ucrânia, está sendo testado o sistema “Barrier UF”, formado por hastes giratórias destinadas a fisgar o cabo de fibra ótica.

Sem ele, o drone perde imediatamente o controle.

Durante uma visita recente ao front, o chefe do Estado-Maior israelense apareceu protegido por uma tela semelhante às usadas em janelas de apartamentos para evitar quedas. Jipes cobertos por grades metálicas, apelidados de “gaiolas”, também se tornaram comuns. Em algumas áreas de combate, árvores e vegetação já começam a ficar cobertas pelos fios deixados por drones abatidos ou perdidos.



Diante do problema, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu pediu às indústrias de defesa que apresentem contramedidas para os drones a cabo, sem limite de orçamento. O jornal The New York Times revelou nesta quinta-feira que oficiais israelenses alertavam desde 2024 para a possibilidade de o Hezbollah empregar drones imunes à guerra eletrônica.

“Há dois anos discutimos como o Hezbollah implantaria esses drones”, afirmou Guy Hazut, general da reserva que liderou um programa de análise de lições operacionais entre 2024 e 2025. “Mas o aparato de segurança precisa de um tapa na cara para acordar.”

Segundo oficiais da reserva ouvidos pelo Times, as Forças Armadas concentraram seus esforços na ameaça dos mísseis balísticos iranianos. O general Shachar Shochat, ex-comandante da defesa aérea israelense, resumiu o dilema:

“No fim das contas, esses drones podem matar e causar danos, mas são uma ameaça tática, não estratégica. Eles não vão nos derrotar, mas podem prejudicar nosso moral.”

Enquanto Israel busca uma resposta tecnológica, a guerra continua produzindo soluções improvisadas. Telas de proteção, jipes cobertos por grades e sistemas mecânicos para capturar cabos de fibra ótica passaram a fazer parte da paisagem do campo de batalha. Para um país acostumado a enfrentar ameaças com alguns dos sistemas eletrônicos mais sofisticados do mundo, trata-se de uma inversão incomum: pela segunda vez em poucos meses, a inovação parece estar do lado do atacante.

*Moisés Rabinovici é jornalista brasileiro com carreira marcada por atuação internacional e inovação digital. Como correspondente de imprensa, atuou em Israel, Europa e Estados Unidos.

Recomendados