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O All Star alaranjado (por André Luiz Petraglia)

André Luiz Petraglia* Na minha infância, por volta dos nove anos de idade, fui aprender a jogar basquete na Associação...

O All Star alaranjado (por André Luiz Petraglia)

O All Star alaranjado (por André Luiz Petraglia).

da Redação

31 maio 2026

André Luiz Petraglia*

Na minha infância, por volta dos nove anos de idade, fui aprender a jogar basquete na Associação Luso Brasileira de Bauru, sob a orientação do saudoso professor Caetano, que conhecia tudo do esporte. Naquele tempo, em meados dos anos setenta, o sonho de qualquer menino ou menina era ganhar um par dos adorados tênis All Star, principalmente os de cano alto do tipo “botinha”.

E lá estava eu em meio aos outros garotos da escolinha de basquete, muitos deles já ostentando nos pés um dos meus maiores sonhos de consumo. Aqueles calçados eram muito caros, como são até hoje, porém existia um agravante, o fato de que não eram fabricados no Brasil.

A solução era esperar que algum parente ou amigo muito próximo viajasse aos Estados Unidos para implorarmos que aceitassem nossa encomenda ou então fazer uma viagem ao Paraguai. E foi isso que aconteceu no ano de 1977 quando, perto de completar os meus dez anos de idade, fiz uma viagem com os meus pais a Foz do Iguaçu. Não preciso nem dizer da minha ansiedade em conhecer as cataratas, a Argentina e o próprio Paraguai, todos de uma vez e, principalmente, de poder realizar o desejo de possuir aquele objeto tão precioso.

Eis que, em determinado momento do passeio, finalmente encontrei a loja dos meus sonhos e não demorei a fazer minha escolha. Em poucos minutos um lindo, maravilhoso, reluzente, espetacular, imaculado, adorado, salve, salve par de tênis All Star alaranjados estavam calçados em meus pés e eu, me sentindo a pessoa mais importante, bonita e descolada das terras das três fronteiras.

Que ilusão deliciosa, que sensação de realização me invadiu naqueles momentos de glória sublime! E, assim, retornei para casa orgulhoso e feliz. Com a chegada da maturidade, fiz uma releitura desses acontecimentos e notei alguns detalhes que permeiam toda essa história. Antes de mais nada, tratava-se de um menino deslumbrado com a possibilidade de realizar o sonho de ter algo que todos também desejavam e que, possivelmente, foi-se aumentando e se alimentando por conta da dificuldade, da escassez e do valor do produto, tornando-o um bem ainda mais desejado.

No momento da aquisição veio a escolha da cor, o alaranjado, não apenas por uma questão de gosto pessoal e sim por perceber que aquela cor era a que chamaria a maior atenção possível, como se luzes piscando em torno do calçado fizessem parte do pacote. Sim, uma criança querendo mostrar para o mundo a sua grande conquista. Quantas vezes fazemos isso no nosso dia a dia, crianças que ainda somos, querendo ostentar objetos de uso pessoal, calçados, roupas, bolsas, acessórios, apenas para mostrar à sociedade o quanto temos e podemos. E, o que dizer dos automóveis, fonte de dívidas e preocupações para muitos que, muitas vezes, nem têm um lar confortável ou ao menos uma casa própria, mas têm o orgulho de desfilar com um veículo caríssimo do último ano e do mais completo modelo? Sim, nós somos assim. Vaidosos, inseguros, infantis, como um garoto querendo desfilar com seu All Star alaranjado, pensando em arrancar suspiros por onde passe. No final das contas o lindo e venerado par de tênis, depois de poucos meses de glória, não teve um final assim tão glamoroso.

Acabou com a sola quase arrancada por completo durante um jogo de futebol em um campinho de terra batida perto da minha casa. É. O triste fim do sonho de um menino que, depois de pouco tempo, já não se importava mais com o tão sonhado objeto, que acabou tendo um final triste e melancólico em meio à sujeira de um jogo de futebol infantil. O que precisamos nos lembrar é que esse é o fim de todas as coisas. Carros enferrujam, casas são demolidas, roupas viram trapos para a limpeza doméstica, calçados vão para o lixo e nós, bem, sabemos do destino dos nossos lindos corpinhos. Portanto, cuidemos da nossa essência acima de toda e qualquer coisa e das pessoas que nos cercam e necessitam de nosso carinho e atenção.

O resto vem por acréscimo, nossos sonhos vão se realizando aos poucos e, ainda assim, sem muito alarde, podemos continuar usando um belo par de tênis, seja ele azul, amarelo, vermelho, branco, preto ou um nada discreto All Star alaranjado.

*André Luiz Petraglia é escritor, palestrante e consultor de comunicação e design.

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