da Redação
22 maio 2026
O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, aceitou elevar de R$ 40 bilhões para R$ 60 bilhões o valor a ser devolvido à União em uma eventual delação premiada com a Procuradoria-Geral da República, segundo informações divulgadas nesta sexta-feira (22) por fontes da Polícia Federal e da PGR. Logo após a notícia circular entre jornalistas, foi informado que o advogado criminalista José Luís de Oliveira Lima decidiu abandonar a defesa de Vorcaro, “em comum acordo” com o cliente.
Segundo assessores da PGR, Paulo Gonet afirmou que, do jeito que foi construída, a proposta de delação premiada não pode ser aceita, porque as informações apresentadas pelo banqueiro já são de conhecimento da PF e foram divulgadas pela imprensa.
“Não é possível fechar qualquer acordo desse jeito que Vorcaro apresentou”, disse um integrante da PGR. A procuradoria informou aos advogados que, além de elevar o montante, será necessário refazer o roteiro da delação.
Vorcaro está preso na Superintendência da PF em Brasília desde a deflagração da Operação Compliance Zero, que apura desvios que podem chegar a R$ 12 bilhões na compra do Banco Master. O Banco Central liquidou a instituição em novembro de 2025 após identificar títulos sem lastro. O Fundo Garantidor de Créditos desembolsou R$ 49 bilhões para ressarcir clientes, o maior rombo já registrado no Sistema Financeiro Nacional. A Justiça já bloqueou R$ 27,7 bilhões em bens do grupo.
Resistência da PF e janela na PGR
A PF rejeitou formalmente a colaboração. Investigadores apontam que Vorcaro tentou proteger “figuras poderosas da República” e não trouxe fatos novos além dos extraídos de celulares apreendidos. “A proposta foi insuficiente, omitiu várias informações importantes e não serve para fechar um acordo”, afirmou um delegado envolvido no caso.
Apesar da recusa, a PGR manteve as conversas. A defesa considera a procuradoria uma “derradeira janela de oportunidade”. As primeiras tratativas ocorreram com a equipe de Gonet. A PF entrou depois da segunda prisão do banqueiro. Por isso, advogados acreditam haver mais espaço com o Ministério Público.
Assessores de Gonet, porém, fazem ressalvas. “Vorcaro vai receber uma ‘bela chamada’ se realmente decidir trabalhar, de fato, por um acordo”, disse um auxiliar. O ministro André Mendonça, relator no STF, já sinalizou que deve recusar a homologação e rompeu o canal direto com a defesa, aceitando apenas manifestações nos autos.
Para onde iriam os R$ 60 bilhões
Em acordos, PGR e PF definem com o relator como aplicar os valores ressarcidos. Decisão do Supremo de 2024 resguarda o ressarcimento à União, preservado o direito das vítimas. O FGC, entidade privada que cobriu R$ 49 bilhões, é o principal interessado. O Banco de Brasília, que negociou com o Master antes da crise, também busca reaver recursos. A divisão final caberá ao Ministério Público e a Mendonça, caso a delação avance.
Pai preso em Minas
O empresário Henrique Vorcaro, 67, pai de Daniel e fundador do Grupo Multipar, teve um surto nesta quinta-feira (21) no Presídio Nelson Hungria, em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. Ele está custodiado desde 14 de maio, alvo da 6ª fase da Compliance Zero.
Diagnosticado com depressão, Henrique apresenta “lapsos de memória, choros e surtos intercalados por momentos de tristeza e desespero”, segundo relatos de familiares.
A situação se agravou após a notícia da rejeição da delação do filho. Ele teria passado os últimos dias alternando crises de choro, episódios de desespero e sinais de arrependimento pela estratégia adotada, disse um familiar.
Nos bastidores, Henrique passou a responsabilizar advogados ligados ao filho pela condução do caso. A PF aponta que pai e filho ocultaram de credores pelo menos R$ 2,2 bilhões após o início das apurações.
Ambos são suspeitos de usar a milícia “A Turma” e o núcleo digital “Os Meninos” para intimidar adversários, obter dados sigilosos e monitorar investigações.
Presídio superlotado e interditado
O Nelson Hungria é o maior de Minas e foi parcialmente interditado em 2024 por superlotação e baixo efetivo. Em dezembro, o juiz Wagner de Oliveira Cavalieri determinou a exoneração de 142 agentes, com “prejuízos às operações”. A unidade operava com 61,3% mais presos que a capacidade. Foi desinterditada em maio de 2025. Entre 2010 e 2015, abrigou o goleiro Bruno Fernandes. Em 2013, houve rebelião com reféns.
Tirreno, a empresa criada para os golpes
Relatório da PF tendo como base o conteúdo do celular de André Felipe de Oliveira Seixas Maia, diretor da Tirreno, indica que a firma foi constituída em abril de 2025, não em dezembro de 2024, como consta em documentos.
A primeira menção aparece em 9 de abril, quando uma secretária enviou o arquivo “A Tirreno.docx”. A ata de assembleia só surge nas mensagens em 17 de abril, dois dias após o registro na Junta Comercial de São Paulo.
A PF conclui que a empresa recebeu data retroativa “com o aparente propósito de conferir lastro a transações previamente realizadas entre o BRB e o Banco Master”. A criação ocorreu após o Banco Central pedir, em 17 de março, explicações sobre vendas de carteiras ao BRB. Antes, o Master dizia que a origem eram associações de servidores da Bahia, sem citar a Tirreno.
Em 5 de maio, André passou o dia no Banco Master assinando contratos da Tirreno. À noite, escreveu à namorada: “Dando até frio na espinha”. Ela respondeu: “Cuidado, amor. Tem coisa que não compensa”. Ele: “Sim”.
Comprovantes
André é sócio da Cartos, fintech que, segundo a investigação, deu “infraestrutura operacional” para legitimar a emissão das carteiras vendidas ao BRB. Um funcionário, Diego Alves, admitiu em áudio que os comprovantes “são dos valores liberados da CCB Cartos, não vai bater com a CCB do Master”. “Os valores, nem a averbação vai bater, nem comprovantes de liquidação”, disse, conforme transcrição da PF.
Risco para Vorcaro
Sem acordo, Daniel Vorcaro pode voltar ao presídio comum e enfrentar regime mais duro, avaliam investigadores. A rejeição da delação aumenta a expectativa em Brasília sobre políticos e autoridades que poderiam ser citados. A defesa tenta robustecer anexos. A PF mantém que “não há utilidade para a investigação” na proposta atual.
O FGC ainda busca reaver mais de R$ 2 bilhões não resgatados. O Governo do Distrito Federal pediu ao Ministério da Fazenda garantia para empréstimo de R$ 6,6 bilhões do fundo ao BRB, afetado pela crise do Master.
Vorcaro firmou termo de confidencialidade com PGR e PF, abrindo caminho formal para negociar. Mas, para Gonet, só um roteiro novo, com nomes, valores e provas, destrava o acordo. Até lá, a oferta de R$ 60 bilhões segue no papel.
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