Onze senadores dos EUA acusam o presidente Donald Trump de abuso de poder por ameaçar tarifas de 50% sobre produtos brasileiros.
Segundo eles, a medida visa proteger Jair Bolsonaro, investigado no Brasil por tentar minar a democracia e dar um golpe de estado.
Os senadores afirmam que a ameaça tarifária não tem relação com comércio.
Para eles, é uma tentativa de pressionar o Judiciário brasileiro e favorecer um aliado político de Trump.
A carta enviada em 24 de julho ao presidente americano diz que o governo está usando o peso econômico dos EUA para interferir em um processo judicial no Brasil.
Consequências
Os parlamentares apontam riscos sérios:
- Precedente perigoso: Pressionar a justiça de outro país pode abrir espaço para que outros façam o mesmo.
- Retaliação comercial: Produtos americanos podem ser taxados. Famílias e empresas dos dois lados sofrem com a alta nos preços.
- Brasil mais próximo da China: O conflito pode afastar o Brasil dos EUA e fortalecer sua relação com os chineses.
Relação ameaçada
O Brasil exporta mais de US$ 40 bilhões por ano para os EUA. Só o café brasileiro movimenta quase US$ 2 bilhões. Essa parceria comercial sustenta 130 mil empregos nos Estados Unidos.
Trump afirma que as tarifas visam pressionar o Brasil a abandonar a acusação contra Bolsonaro. Mas os senadores alertam que isso enfraquece a posição americana na América Latina e fortalece a influência da China.
Chamado ao diálogo
Os senadores pedem que Trump repense sua postura. Defendem a negociação como caminho para resolver conflitos. Afirmam que interesses pessoais não podem se sobrepor à democracia e à estabilidade econômica.
Carta dos senadores democratas a Trump
Prezado Presidente Trump,
Escrevemos para expressar sérias preocupações sobre o claro abuso de poder presente em sua recente ameaça de iniciar uma guerra comercial com o Brasil. Os Estados Unidos e o Brasil têm questões comerciais legítimas que devem ser discutidas e negociadas. No entanto, a ameaça de tarifas feita por sua administração claramente não se refere a isso. Tampouco se trata de um déficit comercial bilateral, já que os EUA tiveram um superávit de US$ 7,4 bilhões em bens com o Brasil em 2024 e não registram déficit comercial com o país desde 2007.
Na verdade — como o senhor afirma explicitamente em sua carta ao presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva — a ameaça de impor tarifas de 50% sobre todas as importações do Brasil e a ordem para que o Representante de Comércio dos EUA inicie uma investigação sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 têm como principal objetivo forçar o sistema judiciário independente do Brasil a interromper a acusação contra o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro.
Interferir no sistema legal de uma nação soberana estabelece um precedente perigoso, provoca uma guerra comercial desnecessária e coloca cidadãos e empresas americanas em risco de retaliação. O Sr. Bolsonaro é um cidadão brasileiro sendo processado nos tribunais brasileiros por ações alegadamente cometidas sob jurisdição nacional. Ele é acusado de tentar minar os resultados de uma eleição democrática no Brasil e de planejar um golpe de Estado.
Usar todo o peso da economia americana para interferir nesses processos em favor de um amigo é um grave abuso de poder, enfraquece a influência dos EUA no Brasil e pode prejudicar nossos interesses mais amplos na região. O anúncio de sua administração em 18 de julho de 2025, de sanções de visto contra autoridades judiciais brasileiras envolvidas no caso do Sr. Bolsonaro, indica — mais uma vez — a disposição de sua administração em priorizar sua agenda pessoal em detrimento dos interesses do povo americano.
Suas ações aumentariam os custos para famílias e empresas americanas. Os americanos importam mais de US$ 40 bilhões por ano do Brasil, incluindo quase US$ 2 bilhões em café. O comércio entre EUA e Brasil sustenta cerca de 130 mil empregos nos Estados Unidos, que estão em risco diante da ameaça de tarifas elevadas. O Brasil também prometeu retaliar, e o senhor prometeu retaliar em resposta — o que significa que os exportadores americanos sofrerão e os impostos sobre importações para os americanos aumentarão além do nível de 50% que o senhor ameaçou.
Uma guerra comercial com o Brasil também aproximaria o país da República Popular da China (RPC) em um momento em que os EUA precisam combater agressivamente a influência chinesa na América Latina. Empresas estatais e ligadas ao Estado chinês estão investindo fortemente no Brasil, incluindo vários projetos portuários em andamento. Recentemente, o China State Railway Group assinou um Memorando de Entendimento para estudar um projeto ferroviário transcontinental.
Essas considerações não são exclusivas do Brasil. Em toda a América Latina, a RPC está trabalhando para ampliar sua influência por meio da Iniciativa do Cinturão e Rota. Estamos preocupados que suas ações para minar um sistema judicial independente apenas aumentem o ceticismo em relação à influência americana na região e deem mais credibilidade à agenda de autoridades e empresas estatais chinesas. A mesma tendência também está ocorrendo no Leste e Sudeste Asiático.
Os objetivos principais dos EUA na América Latina devem ser o fortalecimento de relações econômicas mutuamente benéficas, a promoção de eleições democráticas livres e justas e o combate à influência da RPC. Instamos o senhor a reconsiderar suas ações e a priorizar os interesses econômicos dos americanos, que desejam previsibilidade — não outra guerra comercial.
Atenciosamente,
- Tim Kaine, Senador dos Estados Unidos
- Jeanne Shaheen, Senadora dos Estados Unidos
- Adam B. Schiff, Senador dos Estados Unidos
- Richard J. Durbin, Senador dos Estados Unidos
- Peter Welch, Senador dos Estados Unidos
- Kirsten Gillibrand, Senadora dos Estados Unidos
- Mark R. Warner, Senador dos Estados Unidos
- Catherine Cortez Masto, Senadora dos Estados Unidos
- Michael F. Bennet, Senador dos Estados Unidos
- Jacky Rosen, Senadora dos Estados Unidos
- Raphael Warnock, Senador dos Estados Unidos


