Ricardo Alban, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI). (Foto: Divulgacão)


A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de manter a taxa Selic em 15% ao ano, o maior nível desde 2006, reiterada pela quinta vez consecutiva, foi criticada por entidades empresariais e sindicais, que apontam impactos sobre crédito, atividade econômica e emprego ao longo de 2026.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) avaliou que os juros elevados desconsideram a trajetória recente de desaceleração da inflação. Para o presidente da entidade, Ricardo Alban, o Banco Central deveria ter iniciado o ciclo de cortes.

“Ao manter a Selic em nível insustentável, o Copom prejudica a economia e aprofunda a desaceleração do crescimento. É indispensável iniciar a redução dos juros já na próxima reunião”, afirmou em nota.

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Segundo a CNI, a inflação corrente e as expectativas caminham para o centro da meta. O IPCA fechou 2025 em 4,26%, abaixo do teto de 4,5%. Projeções do Boletim Focus indicam inflação de 4% em 2026 e convergência gradual para 3% nos anos seguintes. Ainda assim, a taxa real de juros permanece em torno de 10,5% ao ano, cerca de 5,5 pontos percentuais acima da taxa neutra estimada pelo próprio Banco Central.

O setor da construção civil também manifestou preocupação. Para o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Renato Correia, os juros elevados restringem o crédito imobiliário e reduzem a demanda por novos empreendimentos.

“Uma política monetária contracionista desacelera a atividade e afeta toda a cadeia produtiva, com reflexos prolongados sobre emprego e renda”, disse.

Em tom mais cauteloso, a Associação Comercial de São Paulo (ACSP) avaliou que a decisão reflete prudência diante de incertezas fiscais e externas. O economista Ulisses Ruiz de Gamboa destacou que, apesar da desaceleração da atividade, inflação e expectativas ainda se mantêm acima da meta. Para ele, o comunicado do Copom será decisivo para indicar se há sinalização de início do ciclo de cortes.

Reação sindical

As centrais sindicais reagiram de forma mais dura. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) afirmou que a manutenção da Selic mantém o Brasil no topo do ranking mundial de juros reais e penaliza a população.

“Juros altos encarecem o crédito, reduzem o consumo e resultam em menos empregos”, disse Juvandia Moreira, presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT).

Segundo a entidade, cada ponto percentual da Selic acrescenta cerca de R$ 50 bilhões aos gastos públicos com juros da dívida. A Força Sindical classificou a decisão como “irresponsabilidade social” e acusou o Banco Central de favorecer a especulação financeira em detrimento do setor produtivo.

“A política monetária atual restringe o crédito, eleva o endividamento das famílias e trava o desenvolvimento econômico”, afirmou o presidente da entidade, Miguel Torres.

Apesar das críticas, a decisão veio em linha com a expectativa da maioria dos analistas de mercado, em um cenário de inflação ainda acima da meta, incertezas fiscais e riscos externos.