O presidente venezuelano Nicolás Maduro libertou 88 presos políticos nesta quinta-feira, cedendo à crescente pressão do presidente Donald Trump, que ameaça intervir militarmente contra o regime chavista, classificado por Washington como uma narcoditadura.
A libertação ocorre em meio a uma escalada de tensões entre Caracas e Washington, que acusa Maduro de envolvimento com o narcotráfico e de violar sistematicamente os direitos humanos. A medida é vista como um gesto de apaziguamento diante da intensificação das sanções e da presença militar americana no Caribe.
Segundo o Ministério da Justiça venezuelano, os detidos foram libertados por terem participado de “ações violentas de grupos extremistas” durante os protestos contra a reeleição de Maduro em julho de 2024. A oposição contesta o resultado da votação, alegando fraude generalizada e apresentando dados que, segundo líderes oposicionistas, comprovariam a vitória de seu candidato.
A repressão aos protestos deixou ao menos 28 mortos e resultou na prisão de cerca de 2.400 manifestantes, incluindo menores de idade. Desde então, mais de 2 mil pessoas foram soltas, de acordo com números oficiais. No entanto, organizações de direitos humanos estimam que cerca de 900 presos políticos ainda permanecem detidos, alguns deles encarcerados antes mesmo das eleições.
O Comitê para a Liberdade dos Presos Políticos e o Comitê de Mães em Defesa da Verdade confirmaram a libertação de pelo menos 87 pessoas. Em dezembro, o governo já havia anunciado a soltura de 99 detentos, classificando a ação como um “compromisso com a paz, o diálogo e a justiça”. Caracas insiste que não há presos políticos no país — apenas políticos presos por supostos crimes contra o Estado.
A libertação ocorre dias após os Estados Unidos intensificarem sua campanha de pressão. Desde agosto, a Casa Branca autorizou operações militares contra embarcações suspeitas de tráfico de drogas, apreendeu navios petroleiros e impôs restrições ao espaço aéreo venezuelano. Nesta semana, forças americanas destruíram um porto no litoral venezuelano, alegadamente usado por traficantes — o que seria o primeiro ataque terrestre da campanha militar dos EUA contra o regime chavista.
Maduro evitou comentar diretamente o ataque em entrevista à emissora estatal, mas sinalizou disposição para dialogar com Washington. “Onde eles quiserem e quando eles quiserem”, disse, referindo-se a possíveis conversas sobre narcotráfico, petróleo e migração. Ele afirmou não ter falado com Trump desde uma conversa “cordial” em novembro, mas se disse aberto a retomar o contato.
O presidente colombiano Gustavo Petro, também sob pressão americana, afirmou que o ataque teria ocorrido em Maracaibo, em uma fábrica usada para processar pasta de coca. A declaração gerou especulações nas redes sociais sobre um incêndio recente em depósitos da empresa química Primazol, hipótese negada pela companhia.
Enquanto isso, o governo venezuelano tenta equilibrar sua retórica nacionalista com sinais de abertura diplomática, em um momento em que a ameaça de intervenção militar americana paira sobre Caracas.




