O setor brasileiro de armas e munições, historicamente alinhado ao governo Bolsonaro, enfrenta agora uma encruzilhada. As tarifas de 50% impostas pelo presidente americano Donald Trump contra o Brasil ameaçam as exportações, que tiveram os Estados Unidos como principal destino, com 61% em 2024.
O Alerta da Taurus
A Taurus Armas, gigante brasileira do setor, não mede palavras. Salesio Nuhs, presidente-executivo da empresa, avalia a transferência total das operações para os EUA caso as tarifas persistam. Ele afirma que a medida resultaria na perda de até 15 mil empregos no Rio Grande do Sul, sendo 3 mil diretos.
Nuhs é enfático quanto à gravidade da situação: “Se realmente perdurar essa questão da taxação de 50%, várias empresas e vários segmentos no Brasil ficarão inviabilizados. Ela não significa simplesmente diminuir margem. Significa inviabilidade total. Não existe margem que possa cobrir uma taxação de 50%.”
O executivo atribui a responsabilidade pela crise à inabilidade do governo federal: “A nossa maior preocupação é a falta de habilidade do governo brasileiro em negociar essa situação com os Estados Unidos. Essa falta de habilidade está trazendo uma insegurança jurídica muito grande para os empresários do Brasil e uma insegurança para o trabalhador, que pode perder seu emprego simplesmente porque o governo não conseguiu negociar.”
Dependência
Em 2024, o Brasil exportou US$ 528 milhões em armas e munições para 85 países. Os Estados Unidos foram responsáveis por US$ 324 milhões desse total, o equivalente a 61,3% das vendas externas.
A Taurus, principal exportadora do país, vendeu 87 de cada 100 armas para o mercado americano em 2024. Isso representou 83% da receita líquida da companhia.
Mateus Tobias Vieira, pesquisador da Unesp, explica a forte ligação: “A Taurus estabeleceu plantas industriais nos EUA ainda no início dos anos 1980, fortalecendo sua presença direta naquele mercado. Enquanto isso, o mercado brasileiro oscilava entre ciclos de abertura e retração […] o que contrastava com a estabilidade institucional, a previsibilidade normativa e a escala de consumo do mercado norte-americano, que se afirmava, assim, como eixo privilegiado de expansão e rentabilidade para a indústria bélica nacional.”
Risco
Apesar de ter fábricas no Brasil e nos EUA, apenas 24% das armas vendidas pela Taurus nos EUA são produzidas na unidade americana. Fabiano Vaz, sócio-analista da Nord Investimentos, alerta: “Ela tem cerca de 20 a 30% da produção lá nos EUA, mas a Taurus lá é uma montadora. Ela fabrica as partes aqui no Brasil e leva para os EUA, onde faz a montagem final e põe a estampa das marcas dela no mercado americano para vender. Levando esses produtos, mesmo não acabados, para os EUA, eles acabariam sofrendo com as tarifas.” Vaz conclui: “Se essas tarifas vierem realmente a ser impostas a partir de agosto, é uma notícia péssima para a Taurus.”
Marco Saravalle, analista-chefe da MSX Invest, considera “muito difícil” redirecionar as vendas: “Esse é o maior mercado mundial, um mercado de altíssima qualidade, que a companhia demorou muito para conquistar. […] Então, não tem substituição [ao mercado americano].” Ele complementa: “O que pode acontecer — e isso já foi dito pelo presidente global da companhia — é simplesmente a empresa mudar toda sua produção para lá, perdendo centenas ou até milhares de empregos no Brasil.”
O site jornalístico Berlinda destaca os “efeitos catastróficos” para a economia de São Leopoldo (RS), onde a Taurus tem uma fábrica: “Estima-se que R$ 520 milhões em exportações da cidade estejam diretamente ligados ao mercado americano, o que representa 4,7% do PIB municipal. Uma redução ou paralisação dessas atividades pode gerar uma recessão regional com demissões em massa.
Salesio Nuhs, da Taurus, insiste que o plano de transferir a produção para os EUA é uma “medida de sobrevivência”. No entanto, analistas veem a possibilidade com ceticismo.
Fabiano Vaz, da Nord Investimentos, aponta a perda de competitividade: “A Taurus tem um preço super competitivo em relação aos competidores no mesmo segmento, muito por conta de ter essa parte de manufatura aqui no Brasil e levar para os EUA.” Ele explica que, nos EUA, os custos de mão de obra são mais altos, o que comprimiria as margens da empresa.
Mateus Tobias Vieira, da Unesp, também considera o plano “improvável”: “Após quase um século de incentivos estatais, a indústria consolidou um parque produtivo robusto, com elevada capacidade técnica e produção em escala, além de um know-how acumulado e difícil de ser replicado no curto prazo.”
Vendas
As vendas da Taurus já apresentavam declínio antes das tarifas de Trump. Entre 2021 e 2024, as vendas caíram de 2,3 milhões para 1,2 milhão de unidades, impulsionadas pela normalização da demanda nos EUA pós-pandemia e pelas novas regulamentações do governo Lula no mercado brasileiro.
Vieira observa uma “quebra da relativa reserva de mercado que protegia a indústria nacional desde a Era Vargas”. Ele explica: “O governo Bolsonaro facilitou a entrada de armas estrangeiras, tentou zerar as alíquotas de importação de armas (medida suspensa pelo STF) e rompeu com uma longa tradição de protecionismo à indústria armamentista brasileira.”
Para o pesquisador, o setor enfrenta uma “dupla restrição”: “Por um lado, enfrentam o recrudescimento do controle interno promovido pela terceira gestão Lula, historicamente associada a políticas restritivas no tema das armas; por outro, vislumbram crescente dificuldade nas exportações, dadas as taxações propostas pelo governo Trump e, em alguma medida, estimuladas pela própria família Bolsonaro.”
Vieira conclui: “Em alguma medida, se olharmos o quadro como um todo, o governo Bolsonaro, que aparece como um grande aliado do mercado de armas de fogo, é o maior responsável pelas dificuldades enfrentadas agora por essa indústria tanto no âmbito interno, quanto externo.”
(Da Redação e da BBC)


