Nos últimos dias, Donald Trump voltou a tensionar as relações com a Europa e a levantar polêmicas sobre a Groenlândia.
Nos bastidores, um tema discreto, mas estratégico, irrita o presidente dos Estados Unidos: o futuro dos títulos do Tesouro americano, em grande parte nas mãos de investidores europeus.
Na quinta-feira (22), em Davos, na Suíça, Trump afirmou que lançaria uma “grande retaliação” caso países europeus começassem a vender títulos da dívida dos EUA como forma de pressionar Washington. “Temos todas as ferramentas necessárias à nossa disposição”, disse em entrevista à Fox Business.
Fundos nórdicos se desfazem de papéis
A tensão cresceu após anúncios de fundos de pensão da Escandinávia. O sueco Alecta informou que vendeu a maior parte de seus títulos do Tesouro americano, alegando fragilidade das finanças públicas dos EUA. Antes dele, o dinamarquês AkademikerPension já havia anunciado a venda de todos os seus papéis. Outro fundo, o Pædagogernes Pensionskasse (PBU), também confirmou que vai se desfazer dos títulos.
Países europeus da Otan detêm mais de US$ 2 trilhões em dívida americana. Com o Canadá, o valor chega a US$ 3 trilhões.
O que são os títulos do Tesouro
Os títulos do Tesouro são instrumentos de dívida. Ao comprá-los, investidores emprestam dinheiro ao governo dos EUA, que se compromete a devolver o valor na data de vencimento e pagar juros.
Há papéis de curto, médio e longo prazo. Os mais conhecidos são os de 10 e 30 anos, considerados os mais seguros do mundo. Essa confiança se deve ao fato de os EUA nunca terem deixado de honrar suas dívidas.
O Tesouro americano depende desses empréstimos para rolar dívidas antigas e financiar novas despesas. Hoje, cerca de 30% da dívida dos EUA está nas mãos de estrangeiros. Ao contrário do senso comum, a China não é o maior credor internacional. A Europa ocupa esse posto.
Impacto de uma venda em massa
Se os europeus vendessem grandes volumes de títulos, os preços cairiam e os juros subiriam. Isso obrigaria os EUA a contrair novos empréstimos mais caros, aumentando o custo da dívida e pressionando a economia.
Na prática, porém, não é simples implementar essa estratégia. Boa parte dos títulos está nas mãos de fundos privados, que decidem de forma autônoma como gerir seus portfólios. Governos não podem obrigá-los a vender.
Além disso, uma venda em larga escala poderia gerar instabilidade nos mercados, aumentar a volatilidade e colocar o dólar sob pressão. Por isso, especialistas recomendam cautela.
Finanças como arma geopolítica
O simples fato de essa hipótese estar em discussão mostra uma mudança de cenário. As finanças, antes vistas como tema técnico, passam a ser usadas como instrumento de poder político e geopolítico.


