Wagner Moura voltou a falar sobre a política americana em nova entrevista à Variety, publicada após a indicação histórica do ator ao Oscar por O Agente Secreto. Refletindo sobre a trama do filme, ambientado durante a ditadura militar, Moura comparou os contextos políticos do Brasil, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, e dos Estados Unidos de Donald Trump.

“Quando eu estava fazendo Guerra Civil, eu pensava constantemente em como o Brasil reagiu de forma diferente à nossa insurreição – de uma forma melhor do que vocês, porque o Brasil foi rápido em fazer a coisa certa e mandar a mensagem de que não se pode mexer com a democracia. Nós prendemos pessoas. Bolsonaro está preso”, disse o ator.

“Nos Estados Unidos, é como se eles estivessem testando os limites, como uma criança – eles pensam: ‘Vou fazer isso’, e se não houver reação, o que acontece? Sinto que os EUA e suas instituições não estão respondendo com a firmeza necessária – estabelecer limites, fazer com que as pessoas enfrentem as consequências”, acrescentou Moura.

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Ele afirmou à revista que os americanos não estão levando a democracia a sério. “Vocês nunca tiveram a experiência de viver sob uma ditadura. Vocês não sabem o que é isso, como se sente ou o quão ruim é. Acontece aos poucos. E se você não reage às pequenas coisas, é aí que elas tomam conta”, disse.

Questionado sobre o que mais o preocupa no mundo atualmente, Moura diz ser a forma como os fatos são encarados. “Os fatos não importam mais. Antes brigávamos, esquerda e direita, costumávamos discutir, mas brigávamos pela mesma coisa. Hoje em dia, não se trata de fatos. Trata-se de versões da verdade”, afirmou.

O ator ilustrou sua visão com o caso de Renee Good, americana morta no início do mês na cidade de Minneapolis por um agente da Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês). “Quando o próprio presidente [Trump] cria um universo onde Renee Good é culpada, isso não é apenas moralmente horrível, mas também não é verdade. É uma loucura”, disse Moura.

Para Moura, que vive há cerca de sete anos nos EUA com a esposa e os três filhos, o assassinato de Renee Good foi um momento que deveria despertar as pessoas. “Mas, ao mesmo tempo, vi reações dizendo: ‘Uma pessoa branca foi morta, então agora temos que fazer alguma coisa’, como se fosse de alguma forma aceitável quando imigrantes são mortos”, apontou.

Por isso, o ator defende a importância da arte nesse momento. “Quando a arte e o cinema se elevam e criam uma ‘ficção’, isso pode ser algo mais importante do que a realidade. Porque você assiste a um filme, volta para casa e isso te faz pensar sobre ele. Estou cada vez mais interessado em me expressar através de personagens – em dizer o que preciso dizer através deles”.

Moura finalizou a entrevista à Variety dizendo que, para os próximos dez anos, espera que pontes sejam reconstruídas entre as pessoas. “A polarização é a maior ameaça à democracia. Muitas pessoas não são más; estão mal informadas. A tecnologia ajuda a ciência, mas destrói a vida cívica. A capacidade de atenção desapareceu. Os jovens estão deprimidos. A verdade parece ter acabado. Espero que encontremos um caminho de volta”.

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