Num momento em que a criminalidade ocupa espaço central no debate público e promete ser tema dominante da campanha presidencial de 2026, os programas de “true crime” – um gênero que narra crimes reais, reconstituindo casos violentos com base em fatos comprovados – se consolidam como fenômeno de audiência nos serviços de streaming e podcasts.
Documentários, séries, filmes e programas de entrevistas vêm ocupando cada vez mais espaço no cardápio dos serviços de áudio e vídeo das novas mídias e plataformas digitais. São produtos de grande sucesso de público, atraindo milhões de espectadores. O fascínio não é apenas entretenimento: reflete medos coletivos, desejo de prevenção e até a busca por justiça.
Em entrevista à BC TV, nesta quinta-feira (4), a psicóloga Priscila Martins, do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, explica os motivos psicológicos por trás dessa febre.
Ela analisa desde a “adrenalina controlada” que esses conteúdos despertam até os riscos de banalização da violência e o impacto emocional sobre famílias de vítimas.
Especialista em terapia cognitiva e comportamental, com clínica consolidada há mais de 20 anos, Priscila é graduada em Psicologia pela Universidade Mackenzie. Seu trabalho se concentra em identificar e modificar padrões de pensamento e comportamento disfuncionais. Atua em casos de ansiedade, depressão e estresse, além de ser mentora e palestrante sobre saúde mental e questões sociais.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista:
Germano Oliveira – O que é true crime, afinal?
Priscila Martins – É um termo em inglês para falar dos crimes que ocorreram, os delitos famosos que estão acontecendo e que estão sendo transmitidos e televisionados pelos streamings, causando muito alvoroço. Isso tem repercussão, mas o que afeta? O que pode afetar todos nós que assistimos e consumimos esse conteúdo?
Quer dizer, o true crime hoje são séries, podcasts, livros, filmes, uma série de produtos transmitidos em TV ou streaming em que se aborda a violência. Muitas vezes, parece que as pessoas têm essa necessidade, esse fascínio para discutir ou acompanhar esse tipo de assunto, seja em produções nacionais ou internacionais.
Germano Oliveira – De onde surgiu isso?
Priscila Martins – Começou nos Estados Unidos, com relatos jornalísticos e livros provocados por grandes casos policiais, como o de O.J. Simpson e também o de JonBenét Ramsey, que se tornaram marcos nesse gênero de produção artística. No Brasil, a febre é mais recente. Estourou com séries sobre o assassinato da atriz Daniela Perez, o filme Tremembé, lançado recentemente na Prime Video, e o caso de Suzane von Richthofen, que ficou muito conhecida por ter matado os pais.
Germano Oliveira – Por que você acha que isso atrai tanta gente?
Priscila Martins – Isso acontece por alguns motivos. Primeiro, pela curiosidade: o que acontece na mente de um criminoso? Como isso é possível? As pessoas querem entender como ele pensa, como age, como aborda e trata as pessoas. Muitas também assistem pela adrenalina, pela emoção controlada, e também pela prevenção: entender como funciona a mente do criminoso pode ajudar a se proteger.
Germano Oliveira – Eu me lembro do caso do maníaco do parque, que matou dezenas de mulheres atraídas para um parque em São Paulo. E ainda assim muitas mulheres enviavam cartas se oferecendo para casar com ele quando saísse da prisão. Como você explica isso?
Priscila Martins – Esse é o caso da fama. Esse criminoso buscava notoriedade. Não é qualquer pessoa que age assim, não é qualquer mulher que se atrai por alguém com esse perfil. Existem alguns transtornos, crenças e marcas que essas pessoas carregam, que despertam esse tipo de atração. Não se trata do criminoso, mas da própria pessoa que se atrai dessa forma.
Gostar de assistir documentários ou séries não leva a idolatrar o criminoso. Mas quando alguém segue, manda cartas ou quer se relacionar, isso indica problemas psicológicos que precisam ser investigados.
Germano Oliveira – Então, o fascínio pelo crime real envolve adrenalina, curiosidade e prevenção?
Priscila Martins – Exatamente. A população se interessa em entender o que levou alguém a cometer um crime tão bárbaro. Por exemplo, o caso da mulher que matou o marido, esquartejou o corpo e o espalhou pelas ruas de São Paulo (em 2012, Marcos Kitano Matsunaga, 42 anos, CEO da indústria Yoki, foi assassinado e esquartejado pela mulher, Elize Araújo Kitano Matsunaga, após uma briga do casal). Ela era estudante de Direito, o marido um empresário. Fascina as pessoas compreender como alguém pode agir assim. Mas não podemos conhecer todo o contexto. Essas ações indicam transtornos, não são comportamentos de uma pessoa com sanidade mental totalmente preservada.
Germano Oliveira – E quanto à necessidade de justiça, de ver os responsáveis pagando pelos crimes?
Priscila Martins – Sim, isso também atrai. Existe um desejo interno de justiça, de ver resultados em crimes bárbaros. Esse sentimento aumenta as visualizações e o interesse do público.
Germano Oliveira – E quanto a casos mais antigos, como a socialite Ângela Diniz (assassinada na década de 1970 pelo companheiro Doca Street) ou a “mulher da casa abandonada”?
Priscila Martins – As pessoas têm necessidade de revisitar essas tragédias, mesmo sem terem vivido a época. Histórias reais atraem, pois queremos compreender como a mente humana funciona. Mas, novamente, isso não significa que qualquer pessoa cometeria tais crimes. Existem transtornos psicológicos e questões complexas que levam a tais atos.
Germano Oliveira – Hoje o Brasil é o terceiro país que mais consome esse tipo de conteúdo, entre séries, filmes e podcasts de true crime. Por que isso atrai tanto?
Priscila Martins – Porque estamos tentando entender algo que consideramos impossível, que jamais faríamos. Além disso, há o fator da prevenção: entender como identificar pessoas com comportamentos perigosos. A curiosidade, a adrenalina e a necessidade de se proteger explicam essa atração.
Germano Oliveira – E o excesso de consumo pode banalizar ou prejudicar nossa saúde mental?
Priscila Martins – Sim, se consumimos muita violência, podemos nos desensibilizar, e a situação deixa de ter a importância que deveria. Isso se agrava quando atores ou produções dramatizam os crimes, tornando-os mais atraentes.
Germano Oliveira – E quanto à questão ética de explorar a vida das vítimas?
Priscila Martins – É um problema sério. Muitas famílias revivem o trauma, e isso afeta emocionalmente. Psicólogos discutem essa ética: vale a pena reconstituir crimes para entretenimento, considerando o impacto nas vítimas e na sociedade?
Germano Oliveira – E há risco de incentivar comportamentos criminosos?
Priscila Martins – Sim, existe risco. Pessoas podem romantizar criminosos ou achar possível imitar atos que viram na mídia. A fama e o glamour percebidos por alguns criminosos aumentam esse perigo.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:
Saiba onde assistir os “true crimes” mais famosos

Hoje, no Brasil, há diversos títulos de true crime disponíveis em plataformas como Prime Video, Netflix, Globoplay e HBO Max. O destaque atual é a série “Tremembé” no Prime Video, mas há outros documentários e séries nacionais e internacionais em cartaz.
Veja aqui a relação dos principais títulos disponíveis e onde assistir:
Prime Video
Tremembé – Série sobre Suzane von Richthofen, Anna Carolina Jatobá e Alexandre Nardoni, mostrando suas rotinas no presídio de Tremembé.
Elize Matsunaga: Era uma Vez um Crime – Documentário sobre o caso da empresária que matou o marido.
Maníaco do Parque – Produção estrelada por Silvero Pereira, retratando Francisco de Assis Pereira.
Netflix
A Menina que Matou os Pais / O Menino que Matou Meus Pais – Filmes sobre Suzane von Richthofen e Daniel Cravinhos.
Caso Evandro – Série documental sobre o desaparecimento do menino Evandro Ramos Caetano.
Elize Matsunaga: Era uma Vez um Crime.
Globoplay
Richthofen: O Assassinato dos Pais – Série documental sobre o caso Richthofen.
Investigação Criminal – Série que revisita crimes famosos no Brasil.
HBO Max
Pacto Brutal: O Assassinato de Daniella Perez – Documentário sobre o assassinato da atriz Daniella Perez.
Observações Importantes
O gênero true crime está em alta no Brasil, com novas produções sendo lançadas regularmente.
Muitas dessas obras exploram casos emblemáticos nacionais, como Richthofen, Elize Matsunaga, Daniella Perez e o Maníaco do Parque.
Além dos títulos brasileiros, há também produções internacionais disponíveis nas mesmas plataformas (como Making a Murderer na Netflix).
Pontos de Atenção
Sensibilidade do tema: True crime pode ser pesado, já que trata de crimes reais e vítimas.
Exclusividade de catálogo: Alguns títulos podem estar disponíveis em mais de uma plataforma, mas geralmente há exclusividade temporária.
Atualizações constantes: Plataformas como Prime Video e Netflix frequentemente adicionam novos documentários e séries do gênero.


