A violência e o crime organizado no Brasil atingiram um ponto de inflexão, consolidando-se como a questão central que dominará o debate político nas eleições do próximo ano.
Essa realidade obrigará os candidatos à Presidência da República, à Câmara dos Deputados e ao Senado a incluírem, em seus programas e nos debates com o eleitorado, propostas efetivas de combate à criminalidade.
Com a ascensão e o domínio territorial de facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), o país enfrenta uma verdadeira “epidemia de insegurança pública”, marcada pela expansão do tráfico, altos índices de homicídios e pelo brutal aumento da violência contra mulheres e crianças.
Nesta quinta-feira (4), o programa BC TV, do portal Brasil Confidencial, recebeu o veterano e experiente jornalista Valmir Salaro, especialista com mais de 50 anos na cobertura jornalística de segurança pública e temas policiais.
Em entrevista a Germano Oliveira, Salaro analisou a escalada da criminalidade no país, a gênese das facções, a partir de episódios históricos como o Massacre do Carandiru, e a ineficácia do sistema penal brasileiro, onde a impunidade atua como o principal motor do crime.
O Congresso Nacional debate a questão da criminalidade há meses, sem sair do ponto inicial. Propostas enviadas pelo governo Lula aos parlamentares têm encontrado forte resistência não só no Legislativo, mas também entre governadores alinhados a grupos de direita e de ideais bolsonaristas.
Dois projetos cruciais para o estabelecimento de políticas de combate à criminalidade vêm sendo o epicentro de discussões e divergências: o PL Antifacção e a PEC da Segurança Pública, que repousa na Câmara dos Deputados desde abril passado.
A seguir, confira os principais trechos da entrevista de Valmir Salaro:
Germano Oliveira – Muita gente diz que o PCC começou a ganhar força depois do massacre do Carandiru, em 1992. Você concorda com essa versão?
Valmir Salaro – É um fato, Germano. Houve a rebelião e o massacre, em 1992, na Casa de Detenção, onde 111 presos morreram. A partir daí, os criminosos, os presos, começaram a se organizar no Estado todo e criaram, na região do Vale do Ribeira, em um presídio bastante conhecido, o Primeiro Comando da Capital, com estatuto próprio.
Foi divulgado pela imprensa. Naquela época, teve muita repercussão, mas as autoridades não acreditavam que o PCC tomaria esse tamanho que tomou. Hoje, há ligações no país todo, com criminosos também internacionais, e que comandam não só o tráfico de drogas e de armas, mas outros crimes. Esse tipo de facção cresceu a partir de uma rebelião, com 111 mortos, lá na Detenção.
As autoridades, na época, não acreditaram. Achavam que seria uma gangue de bairros, pequenos traficantes nos morros, mas não. Tomou um tamanho, uma facção que assusta todos nós. E, para combater esse tipo de crime hoje, é muito difícil.
Germano Oliveira – Você é uma das testemunhas oculares dessa história. Quando ocorreu o massacre do Carandiru, você era assessor de imprensa do secretário de Segurança de São Paulo, Pedro Franco Campos, que acabou sendo criticado publicamente pela invasão. Mas sabemos que as ordens para a invasão vinham também de juízes e promotores. Você acha que Pedro Campos foi o grande injustiçado dessa história?
Valmir Salaro – Olha, essa questão do massacre, como ficou conhecida, a invasão da Casa de Detenção, com 111 mortos, tem vários pontos. Os presos estavam ali rebelados, tinham brigado entre si, e já havia informações de que havia mortos em um confronto direto entre presos de celas e de outros pavilhões. A Secretaria da Segurança começou a acompanhar o caso, a Polícia Militar foi para lá, promotores e juízes também foram para negociar.
Só que a polícia, com base em informações que tinha, avaliou que, para combater, terminar a rebelião e conter, os policiais militares teriam que invadir o presídio e conter. Houve esse confronto, 111 pessoas morreram, a maioria inclusive depois. No dia seguinte, a gente teve a oportunidade de entrar lá para ver o clima que estava, o que foi aquela noite de terror. Não tinha luz no pavilhão, chovia bastante, a água estava na altura do joelho das pessoas, e os presos passavam um tipo de óleo no corpo para ficarem mais impossíveis de serem comandados, de serem dominados, com aqueles estiletes, tentando enfrentar os policiais.
Foi uma verdadeira batalha, uma guerra que se travou ali dentro. Tinham juízes e promotores ali na porta que autorizaram a entrada da Polícia Militar.
Essa história gerou muita repercussão no mundo todo, até hoje se fala nisso. Depois foi considerado um dos maiores massacres da história do país e também na história mundial em relação a essa violência. Todos ali têm uma responsabilidade, não só os promotores e juízes, como todos que trabalharam ali.
Germano Oliveira – Era possível conter a rebelião sem tantas mortes?
Valmir Salaro – Realmente só quem estava lá dentro podia saber. Houve exagero? Parece que sim. Eu acompanhei os julgamentos depois e cobri não só o trabalho dos policiais e dos peritos. Tive a oportunidade de mostrar o laudo que foi feito por um perito, o doutor Oswaldo Negrini, sobre o que aconteceu lá dentro. Ele tentou reconstituir através de imagens, fotografias, informações, o que foi aquele verdadeiro inferno naquela noite de sexta-feira. Então, é um caso bastante emblemático que se discute até hoje.
Os policiais foram condenados, mas é muito difícil provar que um policial deu um tiro em um determinado preso, estabelecer essa ligação, e até hoje não se conseguiu provar quem atirou em quem. O julgamento foi longo.
O coronel Ubiratã, que comandava a tropa, uma figura controversa, conhecida, que trabalhava como comandante da ROTA, era um policial extremamente duro na função dele. Acabou sendo condenado a mais de 600 anos por ter dado um tiro. Na hora em que os policiais invadem o presídio, um tubo de uma televisão – acho que as pessoas vão lembrar, não são as televisões modernas – um tubo explodiu, o coronel se feriu, foi tirado de lá e os policiais invadiram. Houve aquele confronto e 111 criminosos acabaram morrendo.
Germano Oliveira – Depois disso, você saiu da Secretaria, o secretário Pedro Campos também saiu. Aí você voltou para a TV Globo, ganhou vários prêmios, mas logo depois do Carandiru houve também aquele episódio das Serpentes Negras (outro grupo organizado de presos). Você acha que as Serpentes Negras, o Carandiru, tudo isso junto fomentou o nascimento do PCC?
Valmir Salaro – Os presos começaram a se juntar e viram que tinham força dentro das cadeias. Se uniram, começaram a criar uma certa hierarquia. As Serpentes Negras, que as autoridades e os governantes da época, principalmente o secretário de Justiça e os juízes, não acreditavam, eram vistas (por eles) como um conjunto pequeno de presos. Mas eles já tentavam dominar as cadeias e mandar de dentro para fora, o que poderia ser o começo, o início, o que começaria a germinar, a facção criminosa do Primeiro Comando da Capital.
E hoje é assustador ver o resultado daquele começo lá do massacre, da Detenção. E a gente, mais de 30 anos depois, vê onde chegou o PCC, o poder absoluto que tem não só aqui em São Paulo, mas com ramificações em todo o país. E além das outras facções. No Rio de Janeiro, nós temos o Comando Vermelho, e um levantamento feito por juízes e também especialistas nessa área de segurança diz que há quase 80 facções espalhadas pelo país.
Hoje o Brasil vive praticamente sob o comando de facções, e não das leis e das ordens, e também dos políticos que, de alguma forma, se elegeram como deputados, senadores, governadores e prefeitos. É muito assustador. Eu tento, às vezes, dar alguma palavra de esperança quando se fala nessa questão de segurança pública, mas eu não encontro isso.
Germano Oliveira – E quanto à violência contra o cidadão comum, como os roubos de celulares e a violência contra mulheres?
Valmir Salaro – O que nos preocupa, o cidadão comum, é o roubo de celular todo dia, toda hora, como você disse, a violência contra a mulher. Um levantamento que foi feito recentemente aponta que, no mínimo, cinco mulheres são assassinadas por dia no Brasil.
Não tem código, não tem lei, não tem polícia que impeça a violência brutal que as mulheres estão sofrendo nas mãos de homens covardes, brasileiros, que atacam suas mulheres, suas namoradas.
Germano Oliveira – E quanto à legislação, com propostas de penas mais rigorosas: isso ajudaria a frear as facções?
Valmir Salaro – Olha, Germano, você também é da velha guarda do jornalismo, já acompanhou muitos casos policiais de repercussão. Eu vejo a violência só crescer de 45 anos para cá. As leis, embora a gente tenha a segunda maior população carcerária do mundo, perdendo só para a Rússia, não sei se é a segunda ou terceira, com quase 700 mil presos, as leis não intimidam esses criminosos. A polícia prende muito. Todo dia tem operações com prisões, etc.
A gente tem 40 mil assassinatos por ano no Brasil. 40 mil. Não se mata pessoas assim, não dá para comparar com as guerras que acontecem pelo mundo. E nem 10%, 15% desses crimes são esclarecidos.
Quem comete esse crime e fica impune, ele sabe, ele coloca numa balança, numa balança imaginária. Vale a pena eu cometer o crime, roubar, matar, assassinar, sequestrar? Ou eu posso ser preso a qualquer momento? Ele vê que, na balança, vale mais o risco de ele ficar impune para sempre e continuar cometendo o crime do que ir para a cadeia. Por exemplo, hoje, de acordo com as leis de execuções penais, uma pessoa pode ser condenada a até 40 anos de cadeia.
Se a gente fizer um cálculo aqui matemático, um autor de um feminicídio será condenado a 40 anos, mas ele não vai passar nem 10 anos na cadeia. Como a gente vê nesses casos famosos: Suzane von Richthofen, o caso do casal Nardoni, o Maníaco do Parque e outros criminosos que estão na cadeia. O Maníaco ainda está preso e deve ficar por um bom tempo ainda. Não acredito que ele saia, como estão dizendo, daqui a dois, três anos. Mas os outros já estão soltos.
O casal Nardoni foi solto. O Lindenberg Alves, que foi aquele que se envolveu no assassinato, no sequestro da namorada, a Eloá, que tem um documentário contando não só os erros da polícia, como também os erros nossos, dos jornalistas, que a gente parece que fica num pedestal, parece que a gente é corregedor da humanidade, fiscalizando, dando opinião e vento. Mas eu vejo isso.
Eu me lembro de um livro escrito por Zuenir Ventura (jornalista e escritor do Rio), na década de 1980, onde ele sobe o morro, naquela época não tinha facção, eram grupos, eram gangues criminosas, e ele vai conversar com o chefe do tráfico. E ele começa a conversar, ele cita isso no livro dele, “A Cidade Partida”, contando a história do Rio de Janeiro, e ele conversa com o chefe do tráfico. E ele falou que, se matar um desses garotos daqui, eu tenho mais uns 50 para substituir. E nada mudou. A polícia, recentemente, em um confronto com criminosos lá na Baixada do Rio de Janeiro, na Vila Cruzeiro, naquela região, matou 120 criminosos.
Eu acredito que 120 criminosos já foram substituídos por outros, esperando uma vaga para entrar no tráfico. Esses garotos são muito jovens, eles sabem que compensa muito mais ir para o tráfico do que procurar um emprego, estudar e seguir uma carreira. Então, essa questão da impunidade no país atinge todo mundo. E coloca na balança: vale a pena continuar no crime?
Vale a pena. Eu posso ser preso? Não. Com 40 mil homicídios, 15% são esclarecidos, e não sei quantos desses chegam à efetiva condenação do assassino, para esses criminosos vale a pena continuar no crime, é muito mais rentável. As penas, para mim, não intimidam no Brasil.
Germano Oliveira – Nós temos hoje no Congresso dois projetos: uma PEC da Segurança Pública e um PL Antifacção. Você acredita que as medidas para asfixiar financeiramente as facções seriam efetivas?
Valmir Salaro – Eu acredito que sim, seguir o dinheiro e tentar asfixiar e impedir que essas facções cresçam. Mas, trazendo aqui para a realidade, para o nosso dia a dia, conversando recentemente com um policial, um delegado experiente da região do Mato Grosso, faz fronteira com a Bolívia, naquela região bastante perigosa, ele falou: “Valmir, a hora que vocês noticiam a apreensão de um caminhão com uma tonelada de cocaína, você pode ficar ciente que pelo menos mais cinco ou seis caminhões com uma tonelada de cocaína passaram naquele momento.”
Ou seja, você não consegue impedir a entrada da droga. E a droga, que entra em um valor pequeno, quando chega ao destino final, nos Estados Unidos e na Europa, custa milhões de dólares, de euros. É um mercado extremamente rentável. Além disso, você tem uma fronteira seca, que faz divisa com o Paraguai, com a Bolívia, de 17 mil quilômetros.
Há muito tempo atrás eu fiz uma reportagem para o Jornal do Brasil e para a Rádio Jovem Pan procurando carros roubados que saíam do Brasil e eram levados para a Bolívia. E você entra e sai em qualquer ponto, ninguém te fiscaliza. Tem aquelas chamadas cabriteiras, que são estradas de terra que parecem que vão pulando, por isso chamam cabriteiras, que por ali entram carros roubados, entra cocaína, sai arma, chega arma, cigarro, tudo. E não tem como fiscalizar. 17 mil quilômetros.
O Brasil, além de tudo, tem um clima e um território propício para o crime. Para você conter, eu não sei se só com leis. Tudo bem, é importante asfixiar, a gente tem informações de que o PCC tem agora negócios em todos os lugares, inclusive na (avenida) Faria Lima, teve uma operação grande que mostrou a lavagem de dinheiro.
Como impedir isso com leis? Você precisa ter policiais especializados e muito especializados para fazer esse tipo de investigação. Eu não sei como fazer, é muito fácil aqui eu ficar criticando, ser engenheiro da obra pronta, mas é um trabalho que tem que começar. Esse aspecto dessas questões agora no Congresso é importante para alertar que, se não tomarmos cuidado, o crime vai avançar cada vez mais. Algumas pesquisas dizem que 25 milhões ou até 30 milhões de brasileiros vivem sob o comando das facções e não do Estado.
Quem manda nessas regiões são os criminosos, e quem não se submeter a eles, morre, é sequestrado. Para quem mora nessas regiões, deve ser terrível viver lá. Não tem absolutamente nada. Você vai dar um passo para sair de casa, você tem que pagar propina, é extorquido e ameaçado por esses traficantes, por essas facções.
O país vive hoje um momento muito difícil. Eu não quero aqui ser desesperançoso, mas eu quero ter fé nos políticos, essa discussão de esquerda e direita (deve ser deixada de lado) e focar no combate realmente ao crime. E combater o quê? Além do crime organizado, impedir também que esses jovens, garotos, em vez de seguir uma vida normal, uma carreira, outros projetos, vão para o crime, para ganhar dinheiro. Isso já acontecia lá na década de 70, 80, e continua agora. Nada mudou.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:
Conheça a trajetória de Valmir Salaro

Valmir Salaro construiu uma carreira marcada pelo jornalismo investigativo, com atuação relevante tanto na imprensa escrita quanto na televisão. Formado pela Faculdade Cásper Líbero em 1978, iniciou a trajetória profissional em veículos como o Diário do Grande ABC e a Folha de S.Paulo, onde se destacou na cobertura policial e recebeu o Prêmio Vladimir Herzog. Trabalhou também no Jornal do Brasil e na Rádio Jovem Pan, consolidando experiência em apuração rigorosa e reportagem de segurança pública.
Em 1992 ingressou na Rede Globo, tornando-se repórter especial do Jornal Nacional e do Fantástico. Durante mais de três décadas, produziu matérias de grande repercussão nacional, sobretudo na área policial, como o caso da Favela Naval, em Diadema.
Em 2023 deixou a Globo e, no ano seguinte, passou a integrar o UOL News como colunista e comentarista. Hoje, está afastado da rotina das redações, após se aposentar.


