Ricardo Guedes*
São três os principais problemas de Trump para a sua gestão. Primeiro, fazer a América “Great Again”, através de políticas protecionistas, que vão na contramão da eficiência do mercado, que construiu a grande nação. Segundo, aumentar a renda do americano, como foi vendido nas eleições, dentro de um modelo que é concentrador de renda, do Big Capital, que ele representa. Terceiro, lidar com a competição internacional, em um cenário de declínio da participação americana no PIB do mundo, e crescimento de outras economias, principalmente da China e das Asiáticas, na busca da hegemonia mundial.
A primeira pesquisa CBS News pós-posse de Trump, traz indicadores positivos a Trump. O Governo Trump é aprovado por 53% e desaprovado por 47% da população americana, acima dos 49,9% a 48,5% no voto popular em sua eleição; Trump é considerado como enérgico, focado e efeticaz por cerca de 68%. 64% aprovam o envio de tropas à fronteira do México; 59% aprovam a deportação de imigrantes ilegais; 70% acham que Trump vem cumprindo as promessas de campanha. Com relação às tarifas, 56% apoiam a imposição de tarifas à China, México 44%, Europa 40%, Canadá 38%. Com relação à política internacional, 54% aprovam a maneira que Trump vem conduzindo a questão do conflito armado entre Israel e o Hamas.
Entretanto, 66% da população americana acham que o foco de Trump em diminuir os preços não tem sido suficiente, e aí reside o problema, que fará a sua popularidade cair à frente, certamente.
O grande sucesso dos governantes está na economia. Quando a renda aumenta, o governante é reeleito, ou faz o seu sucessor. Quando a renda cai, ou permanece a mesma, o governante perde as eleições.
O World Inequality Report mostra que de 1980 para cá as classes médias e trabalhadora têm diminuído sua participação no PIB mundial. Isto tem levado à maior radicalização das classes médias e trabalhadora, pavimentando a eleição de líderes radicais à direita, como ocorreu na Alemanha e na Itália nos anos 30 e 40. A inflação de 8,3% nos EUA em 2022 com Guerra da Ucrânia, com a diminuição da renda do americano, foi um dos fatores preponderantes para a vitória de Trump.
Mas Trump terá problemas para resolver a questão da renda dos americanos.
De 1960 para cá, a economia dos EUA passou de 40% para 26% do PIB mundial, com a diminuição de sua hegemonia política. Certamente, parte dos países que representam hoje os outros 74% da economia mundial, além dos EUA, vão tentar se reagrupar, com possibilidades de conflitos entre as partes.
Nos EUA, Trump, com medidas protecionistas, vai no sentido contrário do mercado eficiente, que deverão gerar maior inflação no país. Suas medidas não afetam os interesses do Big Capital, sempre lucrativo, mas sim da população.
O eleitor, hoje, se manifesta com o discurso do “ódio” nas sociedades. Mas a deseducação, por si só, não “põe mesa”.
O eleitor americano, das classes médias e trabalhadora comprimidas, e parte da classe empresarial que votou em Trump, assim como o contingente de pessoas atingido pelas demissões em massa dentro do Governo, se decepcionarão com Trump à frente, face à falta da distribuição de renda.
Trump terá dificuldades internas e externas no final de seu governo.
Esperamos que não resulte em guerra, como ocorreu no declínio da Inglaterra após a perda de suas colônias na segunda metade do século XIX e início do século XX, com a guerra de tarifas e dumping no cenário europeu introduzidas pela Inglaterra contra as emergentes economias da Alemanha e do Império Austro-Húngaro, resultando na Primeira Guerra Mundial.
Possíveis tempos tenebrosos à frente.
*Ricardo Guedes é Ph.D. em Ciências Políticas pela Universidade de Chicago, CEO da Sensus, e do Conselho Editorial do Brasil Confidencial. Autor.




