Germano Oliveira


BRASIL EM FOCO

Germano Oliveira*

O líder sul-africano, Nelson Mandela, ficou na prisão, injusta e ditatorialmente, por 27 anos, no mais longo período em que um líder mundial permaneceu numa masmorra por razões meramente políticas, já que ele foi o maior herói da luta pela igualdade racial na África do Sul, tornando-se o principal opositor contra o regime de supremacia branca que implantou o apartheid em seu país.

Ao ser libertado, em 1990 (foi preso em agosto de 1962), Madiba, como era chamado, saiu às ruas nos braços do povo e, ao invés de destilar discursos de ódio, propôs a pacificação nacional, perdoou seus algozes e tornou-se presidente da nação no período de 1994 a 1999. Nesse ínterim, foi homenageado com o Prêmio Nobel da Paz em 1993. Foi endeusado não só pelo seu povo, mas serviu de exemplo para o mundo em matéria de resiliência e sabedoria política.

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Lula com Mandela – Reprodução

Apesar das dores na cadeia, do afastamento da mulher e dos 15 filhos, Mandela jamais proferiu discursos raivosos ou de revanche contra seus algozes. Ele, com sua maturidade de liderança inquestionável, elegeu-se presidente, reergueu a nação, acabou com o nojento apartheid, reintegrou os negros na política do país e levou o país às lágrimas quando faleceu em junho de 2013, aos 95 anos.

Até hoje é lembrado com carinho por seu povo e por toda a humanidade. Foi um exemplo que o próprio presidente Lula já homenageou por sua perseverança. No passado, o atual presidente petista chegou a tecer loas ao presidente sul-africano.

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O presidente petista, no entanto, deveria aproveitar o modelo de sabedoria política que Mandela lhe inspirou para usar a experiência desse líder africano em sua conduta à frente da presidência da República e, também, para pautar sua ação na campanha eleitoral que já está travando pela conquista de seu quarto mandato. Mas não é isso o que está acontecendo.

O líder petista tem destilado ódio e rancor quando se apresenta nos palanques ou eventos públicos nos quais lança projetos do governo para atrair votos. Por mais que esses eventos sejam encarados como claro uso da máquina pública, Lula deveria tecer falas mais moderadas, comedidas e pacificadoras, mas, ao contrário, ele sempre discursa com o mesmo tom desafiador, enraivecido e mal-humorado.

Ele sempre diz a assessores, e também admite em alguns eventos públicos, que vai destruir os responsáveis por tê-lo feito passar 580 dias na cadeia em Curitiba, condenado por corrupção em desvios na Petrobras. Até por isso, basta ver que a maioria dos assessores petistas que ele levou para o ministério neste governo atual são todos amigos que ficaram ao lado dele no período em que esteve encarcerado.

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Lula com Janja – Reprodução

A começar por Rosângela Lula da Silva, que nos tempos de prisão na carceragem da PF em Curitiba era apenas uma militante do PT que ficava do lado de fora da unidade prisional gritando “bom dia presidente Lula” ou “boa noite presidente Lula”. Ao final desse carinho, Janja acabou virando namorada do petista, ainda no período em que ele estava encarcerado.

Ao final de cada um desses 580 dias, um grupo de amigos do presidente se reunia em restaurantes de Curitiba para discutir o movimento do “Lula livre”, à base de alguns goles de cerveja. Não por outra razão, quem puxava a fila era o ex-ministro Fernando Haddad, o fotógrafo oficial Ricardo Stuckert e o atual chefe de gabinete do presidente, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola. Outros que o visitavam na cadeia viraram ministros ou têm postos de destaque no governo. Foi um prêmio aos amigos que nunca o abandonaram.

Não há problema algum nisso, pois, como diz um amigo meu, cargos públicos damos para os amigos ou vocês querem que sejam dados aos inimigos? Mas, o mínimo que Lula poderia fazer, na busca pelo tetracampeonato, seria proferir discursos menos raivosos. O povo não tem nada com isso.

*Germano Oliveira é diretor do BRASIL CONFIDENCIAL.