Dr. Marcon Censoni*
Outro dia, no consultório, um paciente me mostrou um pequeno frasco.
Não tinha nome comercial conhecido. Não tinha bula. Não tinha história clínica por trás. Tinha apenas uma promessa.
“Doutor, isso aqui está funcionando para muita gente.”
Essa frase aparece cada vez mais.
E ela merece atenção.
Não porque esteja necessariamente errada.
Mas porque, na medicina, ela raramente significa o que parece.
Nos últimos meses, o interesse por peptídeos explodiu. Parte disso vem da curiosidade legítima. Parte vem da ciência. Mas uma parte relevante vem de algo mais simples e mais perigoso: a necessidade humana de resolver rápido o que é complexo.
Uma reportagem recente da The New Yorker , descreveu esse movimento com clareza. Pessoas comprando substâncias pela internet, guiadas por relatos, fóruns e influenciadores, muitas vezes sem saber exatamente o que estão usando.
Isso não é um fenômeno distante. Ele já chegou ao Brasil inunda redes sociais e mercado da “ longevidade” já fatura alto vendendo sonhos e promessas.

O erro mais comum: confundir “funcionou para alguém” com “funciona de verdade”
Na medicina, existe uma diferença fundamental.
Algo pode parecer funcionar.
E ainda assim não funcionar de forma confiável.
Quando alguém diz:
“Deu certo para mim.”
Essa frase, isoladamente, não responde quase nada.
Por quê?
Porque o resultado de qualquer intervenção é quase sempre multifatorial.
O que pode ter influenciado o resultado:
• mudança de rotina
• melhora do sono
• redução do estresse
• alimentação
• exercício físico
• efeito placebo
• evolução natural da doença
• regressão à média
Ou seja, não dá para atribuir o resultado a uma única variável.
Se João melhorou, não significa que foi o peptídeo.
Se Maria sentiu mais energia, não significa que foi a substância.
Pode ter sido.
Mas pode não ter sido.
E nem me referi ainda a risco q existe , além de gastar sem função.
O que é “dar certo” na medicina
Aqui entra um ponto que quase nunca é explicado ao público.
Para algo “dar certo” de verdade, ele precisa cumprir três critérios:
1. Ser melhor do que não fazer nada
2. Ser melhor do que placebo
3. Ser reproduzível em diferentes pessoas
E mais importante:
precisa manter esse efeito ao longo do tempo, não apenas em dias ou semanas
Na prática, isso significa estudos clínicos bem conduzidos, com número adequado de pacientes, acompanhamento e análise estatística.
Sem isso, estamos diante de percepção, não de evidência.
-Peptídeos: o que sabemos e o que não sabemos-
Hoje, convivemos com três realidades distintas:
• Peptídeos consolidados, como insulina e GLP-1
• Peptídeos em pesquisa, com potencial real
• Peptídeos vendidos com promessas amplas e pouca validação
O problema é quando tudo isso é misturado como se fosse a mesma coisa.
Entre os mais comentados atualmente:
Peptídeo- Promessa- Situação atual :
Viver maus e viver bem
Ou
Rejuvenescer são tenyatiderss
Ai a armadilha desse assunto
Ser mais magro mais forte mais belo é o gancho das promessas e da busca do ser humano na face da terra
Dentre inúmeras promessas q temos :
BPC-157 Cicatrização Sem evidência robusta em humanos
TB-500 Regeneração Dados limitados
CJC-1295 Hormônio do crescimento Uso controverso
Ipamorelina estimula GH Evidência parcial
MOTS-c promete Energia Pesquisa inicial
KPV reduz Inflamação Pouco estudado
GHK-Cu meihura Pele Uso cosmético experimental
Melanotan II atua estética e Bronzeamento Risco conhecido
PT-141 melhura Libido Uso restrito
Lembrando : estar “ publicado “ arma preferida de venda dos influencer médicos e neo médicos , não significa ter relevância estatísticas nem estar correto na conclusão. ( este tópico será um assunto para outro dia !)
-O risco que quase ninguém discute: qualidade do produto-

Antes de discutir eficácia, existe uma pergunta mais básica:
o que exatamente está sendo injetado?
No mercado paralelo, já foram identificados:
• substâncias com dose menor que a informada
• degradação química
• endotoxinas
• metais pesados
• compostos desconhecidos
Ou seja, o risco não é apenas teórico.
Ele é concreto.
-O paralelo com oncologia-
Esse é um ponto delicado, mas necessário.
Muitos desses peptídeos atuam em vias como:
• crescimento celular
• angiogênese
• regeneração
Essas mesmas vias estão envolvidas em tumores.
Estimular essas rotas sem controle pode ter efeitos imprevisíveis.
Não é alarmismo.
É prudência.
Por que isso continua acontecendo ?
Porque é humano.
Quando algo custa caro, dói para aplicar e vem com promessa forte, o cérebro quer acreditar.
Isso tem nome: efeito placebo ampliado pelo investimento emocional e financeiro.
-O custo invisível-
O problema não é apenas gastar dinheiro.
É:
• atrasar tratamentos eficazes
• assumir riscos desconhecidos
• criar falsa segurança
• tomar decisões sem base sólida
-A resposta final ao paciente-
Volto à pergunta inicial.
“Doutor, isso funciona?”
Minha resposta hoje é simples.
“Pode parecer que funciona.
Mas ainda não sabemos se funciona de verdade.”
E, na medicina, essa diferença importa.
Muito.
Inovação é bem-vinda e executo-a em minha prática clínica
Mas sem evidência, sem controle de qualidade e sem segurança, não é inovação.
É tentativa.
E o paciente não pode ser o experimento.
*Dr. Marcon Censoni A. Lima é médico e cirurgião aparelho digestivo/robótica, membro corpo clínico do Hospital Albert Einstein e Hospital Sírio Libanês, especialista em Transformação Digital na Saúde pela Harvard Medical School e Head Depto. Medicina Hospitalar AC Camargo Cancer Center.





