Por Camila Srougi e Germano Oliveira
A Associação Médica Brasileira (AMB) celebrou neste mês (dia 26) seus 75 anos de atuação em um momento de profundas transformações na Medicina, com a chegada de novas tecnologias e produtos, mas também com desafios na formação dos novos profissionais.
O presidente da AMB, o médico César Eduardo Fernandes, participou nesta sexta-feira (30) do programa BC TV, do portal Brasil Confidencial, oportunidade em que fez uma reflexão sobre os obstáculos enfrentados na área de saúde em todo o país.
Em vários momentos da entrevista, ele destacou os problemas relativos à formação do profissional de medicina, à distribuição de médicos em regiões remotas do Brasil e à ausência de políticas públicas permanentes em um país que depende fortemente do Sistema Único de Saúde (SUS).
César Fernandes ressaltou que a AMB, apesar de ser uma entidade representativa da classe médica, tem um papel que vai além da defesa corporativa. Segundo ele, a associação atua de forma “técnica e isenta”, propondo “reflexões e alternativas” ao poder público para assegurar uma medicina de excelência e uma melhor assistência à população, “independentemente de posições ideológicas ou partidárias”, como fez questão de frisar.
Ensino médico em xeque
Ao abordar a realidade do ensino médico no Brasil, o presidente da AMB alertou para o “crescimento indiscriminado de escolas de medicina” no país, segundo ele, “muitas sem infraestrutura adequada, o que tem resultado na formação de profissionais sem as competências mínimas necessárias”.
César Fernandes defendeu a criação de uma “política de Estado para o provisionamento de médicos, especialmente em regiões mais carentes, além da valorização da carreira médica e da ampliação responsável das vagas de residência, como caminhos essenciais para o futuro da medicina brasileira”.
A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista do presidente da AMB:
Camila Srougi – Doutor César, ao completar 75 anos, a Associação Médica Brasileira chega mais como uma voz de defesa da classe médica ou como uma entidade chamada a ajudar a repensar o sistema de saúde como um todo?
César Eduardo Fernandes – Nós somos uma associação de médicos, portanto uma entidade da classe médica, mas o nosso propósito vai muito além disso. O nosso papel é repensar, refletir e ajudar com proposições. Nós não legislamos, não temos poder para mudar diretamente as políticas de saúde, mas podemos oferecer uma apreciação crítica que possibilite às autoridades constituídas rever essas políticas.
O Brasil tem muitas questões que precisam melhorar, e nós não podemos nos omitir como classe médica. Representamos todas as sociedades de especialidade reconhecidas por lei no país — são 54 sociedades afiliadas à AMB. Temos representação em todo o território nacional. É nossa obrigação fazer essa apreciação crítica, dialogar com o Legislativo e o Executivo, propor e criticar com absoluta isenção.
Isso se tornou difícil nos dias atuais, diante de um país extremamente polarizado. Muitas vezes, posições técnicas são interpretadas como políticas. A AMB, enquanto eu estiver na presidência, permanecerá absolutamente à margem dessa polarização ideológica e político-partidária. Independentemente de quem esteja no poder, vamos interagir sempre com isenção, propondo alternativas que nos pareçam mais adequadas.
Camila Srougi – Quando olhamos para o dia a dia do médico no Brasil hoje, qual é o maior descompasso entre o que se espera desse profissional e as condições reais que o sistema oferece?
César Eduardo Fernandes – Vivemos uma grande crise na medicina. Isso não é segredo para ninguém. Um exemplo recente foi o exame realizado pelo Ministério da Educação, o Enamed, que avalia médicos recém-formados. Os resultados foram caóticos e constrangedores.
Foram cerca de 39 mil médicos recém-formados avaliados, e aproximadamente um terço, cerca de 13 mil, não atingiram a proficiência mínima necessária para serem considerados aptos, ou seja, não adquiriram competências mínimas para atender a população.
Isso mostra uma degradação do ensino médico nas últimas duas décadas. Houve um aumento dramático no número de escolas médicas, mas não temos vagas de residência para todos os egressos. Hoje, há aproximadamente uma vaga de residência para cada dois médicos formados. Metade dos médicos não consegue se especializar.
Além disso, há uma distribuição extremamente desigual dos profissionais. Grandes centros concentram médicos em excesso, enquanto regiões mais remotas enfrentam verdadeiros vazios assistenciais. Falta uma política pública séria e perene de provisionamento médico. Não adianta formar médicos de maneira irresponsável e deixá-los concentrados nas capitais.
Germano Oliveira – Diante dessa crise, o MEC ameaça reduzir vagas em cursos de medicina. O senhor acha que estamos formando médicos com baixa qualidade? Deveríamos fechar faculdades?
César Eduardo Fernandes – Permita-me fazer uma correção. Não temos 54 escolas de medicina. Dados de 2024 mostram que temos 448 escolas em funcionamento, além de cerca de 300 autorizadas. Se nada for feito, poderemos chegar a 700 escolas médicas em breve.
Já somos campeões mundiais em número de escolas médicas por habitante. Em números absolutos, só perdemos para a Índia, que tem uma população seis vezes maior que a nossa.
Temos hoje cerca de 640 mil médicos e uma capacidade de formar aproximadamente 50 mil por ano. Em 2035, poderemos ultrapassar 1,1 milhão de médicos. O problema não é quantidade, é qualidade.
Abrimos escolas sem infraestrutura, sem campos de prática, sem docentes. Medicina não é apenas teoria. É preciso ensino prático, contato com pacientes, hospitais, ambulatórios. Isso não existe em muitas cidades onde se instalaram escolas médicas de forma equivocada. O médico se forma e vai embora para os grandes centros.
Germano Oliveira – Apesar de termos muitos médicos, ainda há regiões sem nenhum atendimento. Como resolver isso?
César Eduardo Fernandes – Confunde-se no Brasil política de formação de médicos com política de provisionamento. São coisas diferentes. A Lei dos Mais Médicos pode ter tido boas intenções, mas esqueceu de estruturar uma política perene de provimento.
Dou sempre o exemplo da magistratura. O juiz começa em cidades pequenas e progride na carreira. Nunca faltou juiz nem promotor nessas regiões. Já médico, sempre faltou. Precisamos de uma carreira de Estado para o médico, com dedicação exclusiva e remuneração adequada.
Hoje, a remuneração do médico é vil e vergonhosa, considerando que é o curso de graduação mais longo do país e que ainda exige residência para especialização. Faltam especialistas, e o médico jovem não se sente estimulado a seguir essa formação.
Vivemos uma crise grave, que exige soluções estruturais e políticas de Estado, não medidas eleitorais. A medicina brasileira precisa ser tratada com seriedade para garantir qualidade, equidade e dignidade tanto para os profissionais quanto para a população.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:
Conheça o médico César Eduardo Fernandes

César Eduardo Fernandes construiu uma carreira sólida e reconhecida na medicina, com destaque na ginecologia e obstetrícia, especialmente na área de ginecologia endócrina.
Graduou-se em medicina pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo em 1975 e realizou residência médica no Hospital Pérola Byington, concluída em 1979, ano em que obteve o título de especialista em ginecologia e obstetrícia pela Febrasgo.
Desde o início da formação, demonstrou vocação acadêmica e forte interesse pela pesquisa científica, que se tornaria um dos eixos centrais de sua atuação profissional.
Na Santa Casa de São Paulo, onde atuou por 22 anos, exerceu o cargo de professor assistente e teve participação intensa no ensino de graduação, residência médica e pós-graduação.
Nessa instituição, obteve os títulos de mestre e doutor, orientou alunos, coordenou disciplinas e contribuiu de forma decisiva para a formação de especialistas, mestres e doutores.
Sua atuação acadêmica foi marcada pela integração constante entre assistência, ensino e pesquisa, com foco na ginecologia endócrina.
A partir dos anos 2000, ampliou sua atuação docente em importantes instituições do país. Foi docente e chefe de setores na Faculdade de Medicina do ABC, onde assumiu a chefia da Clínica Ginecológica e, posteriormente, foi aprovado como professor titular de ginecologia, cargo que exerce até hoje.
Atuou também como docente livre na Universidade Federal da Bahia e como professor colaborador e orientador de pós-graduação na Unesp de Botucatu, orientando dissertações de mestrado e teses de doutorado, além de coordenar disciplinas especializadas.
Paralelamente à carreira acadêmica, teve participação destacada nas sociedades médicas, exercendo funções administrativas e científicas de grande relevância. Presidiu entidades como a Associação de Ginecologia e Obstetrícia do Estado de São Paulo, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia e a Associação Médica Brasileira. Sua produção científica é extensa, com livros, capítulos e artigos publicados em periódicos nacionais e internacionais, além de participação em numerosas bancas examinadoras, consolidando seu reconhecimento como referência nacional na ginecologia brasileira.





