Laira Vieira


Laira Vieira*

Quando uma casa começa a rachar, ninguém acorda no meio da noite com o estrondo. O que se ouve é um estalo discreto, quase educado, fácil de ignorar. As paredes seguem de pé, o teto não cai, a mesa continua posta. Fingir que está tudo bem vira rotina. Depois vira método. E, por fim, herança.

Valor Sentimental (2025), dirigido por Joachim Trier (A Pior Pessoa do Mundo, Thelma), observa esse tipo específico de colapso: o que não acontece em voz alta. Aqui, o conflito não explode. Ele se acumula. O silêncio não é ausência de ruído, é uma escolha ativa, tão destrutiva quanto qualquer briga. O diretor norueguês filma famílias que aprenderam a sobreviver não resolvendo nada, apenas adiando indefinidamente o inevitável.

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Esse legado pesa no corpo antes de ganhar nome. Ataques de pânico, respiração curta, a sensação constante de falhar em público. É assim que se apresenta Nora Borg, interpretada por Renate Reinsve (A Pior Pessoa do Mundo, Armand), atriz de teatro celebrada e ainda assim paralisada nos bastidores. O trauma que ela carrega não veio de violência explícita, mas do abandono elegante, do afeto prometido e nunca entregue. A ausência paterna foi tão constante que virou paisagem.

A morte da mãe obriga o retorno ao centro dessa paisagem. O reencontro com o pai, Gustav Borg vivido por Stellan Skarsgård (Duna, Mamma Mia!), não é marcado por lágrimas ou confrontos. É um constrangimento frio, quase burocrático. Um homem afastado do cinema há quinze anos e com um relacionamento distante das filhas, reaparece como quem testa o terreno, medindo cada gesto. Ao lado da protagonista está Agnes Borg Peterson, a irmã mais nova, interpretada por Inga Ibsdotter Lilleaas (Uma Linda Vida, Traídos pela Guerra), mais prática, menos blindada, mas moldada pelo mesmo silêncio estrutural. As duas se entreolham como quem compartilha um idioma feito de lacunas.

O retorno vem acompanhado de um projeto. Um roteiro. Um filme a ser rodado justamente na casa da família, propriedade antiga, carregada de história, marcada por uma rachadura visível que cresce há anos sem que ninguém tenha tomado a iniciativa de consertar. A proposta é que a filha mais velha atue. Ela recusa sem ler. Não por capricho, mas por instinto. Mentiras têm textura própria, um gosto metálico difícil de confundir. Oficialmente, a obra não  é autobiográfica. Na prática, é uma tentativa tardia de reorganizar o passado com a linguagem que Gustav domina: o cinema.

Cena do filme “Valor Sentimentsal. (Foto: Divulgação)

O projeto segue sem ela. 

Entra Rachel Kemp, vivida por Elle Fanning (Malévola, Um Completo Desconhecido), estrela estrangeira, profissional, dedicada. Durante semanas de pré-produção, aceita as regras do jogo: falar inglês em um filme norueguês, tingir o cabelo da mesma cor do da filha que recusou o papel, habitar aquela casa carregada de fantasmas. Até que algo não fecha. Ela é a única ali que não cresceu treinada para evitar conflitos. Confronta o cineasta com clareza desconcertante: a obra é familiar demais. Rachel diz não ser a pessoa certa. A reação não é raiva. É alívio. Ele agradece. O projeto para. E só então Gustav decide reformar a casa inteira. Não um cômodo, não a rachadura específica. Tudo. Como se finalmente admitisse que maquiagem nunca foi solução estrutural.

É nesse intervalo que Agnes lê o roteiro. E entende o que ninguém quis nomear. Ela procura Nora e diz o óbvio com delicadeza cirúrgica: isso não é sobre a nossa avó. É sobre você. A leitura de uma passagem leva a outra. Não dá mais para largar. O metacinema deixa de ser artifício e vira confissão. O filme dentro do filme passa a operar como pedido de desculpas tardio, daqueles que só conseguem existir disfarçados de obra.

Trier usa o metacinema não como truque intelectual, mas como ferramenta emocional. O pai só consegue olhar para a filha através da lente. Só consegue dizer “eu falhei” escrevendo diálogos que nunca ousou viver. Como escreveu Simone Weil, “A atenção é a forma mais rara e mais pura de generosidade”. Aqui, filmar é a tentativa desesperada de dar a atenção que sua filha tanto sentiu falta. 

Quando ela aceita o papel, encarna uma figura híbrida entre si mesma e a avó paterna que nunca conheceu. O jovem pai é interpretado pelo próprio neto, filho de Agnes, fechando um circuito de gerações que finalmente se observam sem desviar o olhar. No estúdio, depois da cena final, o que acontece entre o olhar entre Gustav e Nora atravessa décadas sem precisar de diálogo. Ali cabem vergonha, reconhecimento, orgulho contido; um tipo de amor que só aprende a existir quando a cura emocional começa. 

Admitir falhas e tomar atitudes para consertar não é gesto comum ou confortável. É para os corajosos, os que amam o suficiente para sentir vergonha verdadeira e necessidade brutal de se redimir com quem foi magoado. Valor Sentimental não oferece manual, nem redenção fácil. Apenas lembra, com delicadeza cruel, que algumas rachaduras não surgem de apenas um impacto. Surgem da covardia cotidiana de fingir que não se vê. E que, às vezes, o primeiro passo para o reconciliamento exige reformar a casa inteira, e finalmente encarar o que apodreceu dentro dela.

*Laira Vieira é Critica Cultural, Economista e Tradutora. Autora.