Sala de aula e de leitura no presídio de Vrsdioua, onde está Bolsonaro. (Reprodução)


A literatura, em sua face mais pragmática, tem servido de moeda de troca e horizonte para os cerca de 3 mil detentos do sistema prisional do Distrito Federal. O mecanismo é conhecido: para cada clássico devorado e resenhado, subtraem-se quatro dias de cárcere, respeitando o limite pedagógico de doze títulos ao ano. Recentemente, a lista de leitores ganhou nomes de peso do cenário político nacional: o ex-presidente Jair Bolsonaro e seu ex-ministro da Justiça, Anderson Torres, ambos condenados no bojo da trama golpista de 2023.

A ironia reside no catálogo. Se a política brasileira recente flertou com a ruptura, o gosto literário das galerias de Brasília permanece fiel à tradição. No topo das preferências, não estão manuais de estratégia ou panfletos ideológicos, mas a densidade moral de Liev Tolstói.

A terra e o limite

O título mais requisitado, De quanta terra precisa o homem? (1886), é uma parábola de Tolstói que parece ecoar com força nas paredes de concreto. A saga do camponês Pakhóm, cuja ambição por latifúndios o leva à ruína física e espiritual, é um lembrete austero sobre os limites da cobiça — um tema que, por linhas tortas, atravessa os processos judiciais que levaram as atuais lideranças da direita ao mesmo sistema ocupado pelos demais leitores.

Ao lado do russo, o regionalismo brasileiro domina o imaginário. Graciliano Ramos e seu Vidas Secas (1938) seguem como leitura incontornável. A desumanização da família de retirantes e o destino trágico da cachorra Baleia oferecem um retrato visceral da miséria que, para muitos ali, não é ficção, mas biografia.

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Censura e resistência

O programa de leitura também resgata obras que sofreram os ventos da intolerância. Capitães da Areia, de Jorge Amado, é um dos favoritos. Publicado em 1937, o livro teve exemplares incinerados pela ditadura do Estado Novo sob a pecha de “comunista” — um eco histórico curioso, dado que, em 2025, a obra voltou a ser alvo de tentativas de censura por parlamentares bolsonaristas em Santa Catarina.

A lista de 2025 reflete um mosaico da nossa formação social e das nossas chagas abertas:

  • A denúncia: As Cores da Escravidão, de Ieda de Oliveira, sobre o trabalho análogo à escravidão contemporâneo.
  • A inocência pisada: A Hora da Estrela, o último sopro de Clarice Lispector, que narra a invisibilidade de Macabéa.

  • A biblioteca do agora

Para os novos inquilinos do sistema, como Bolsonaro, o acervo disponível para remição impõe confrontos intelectuais interessantes.

Estão lá o Pequeno manual antirracista, de Djamila Ribeiro, e 1968: o ano que não terminou, de Zuenir Ventura, obra fundamental para entender os anos de chumbo que o ex-presidente tanto costuma elogiar.

Também figuram no catálogo o premiado Ainda estou aqui, de Marcelo Rubens Paiva, que narra o trauma do desaparecimento político, e a distopia teocrática de Margaret Atwood, O conto da aia.

Entre a Lei de Execução Penal e o rigor das comissões avaliadoras, a leitura no DF deixa de ser apenas um benefício jurídico para se tornar um exercício de alteridade. Resta saber como as resenhas de quem ocupou o Palácio do Planalto dialogarão com a “miséria anônima” descrita por Clarice.