A Polícia Federal tem uma estrutura de especialistas que pode confirmar as informações vazadas. (Foto: EBC)


O programa usado pela Polícia Federal para organizar dados extraídos de celulares contradiz a versão apresentada pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, sobre supostas mensagens enviadas por Vorcaro.

O sistema segue uma lógica padrão de indexação de arquivos, descrita em seu código-fonte público desde 2019. Procurado novamente, o STF não comentou.

O IPED (Indexador e Processador de Evidência Digital) foi criado em 2012 por peritos da PF. Ele organiza os arquivos coletados em pastas a partir de uma sequência chamada “hash”, espécie de impressão digital de cada documento. Essa forma de armazenamento não indica relação entre os conteúdos, ao contrário do que sugeriu Moraes.

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Na prática, os policiais analisam os dados pela interface do programa, e não acessando manualmente cada pasta, como afirmou o ministro. A reportagem consultou o código-fonte e a documentação do IPED com especialistas.

Como funciona o sistema

  • O hash gera uma sequência alfanumérica única para cada arquivo.
  • Os primeiros dígitos dessa sequência definem em qual pasta o documento será guardado.
  • Arquivos diferentes podem acabar na mesma pasta apenas por coincidência numérica, sem relação de conteúdo.

Exemplo: três arquivos — um print em PNG, um contato em VCF e um texto com anotações — foram guardados juntos porque seus hashes começam com os dígitos “6” e “2”. Isso não significa que tenham conexão entre si.

PNG é um formato de imagem digital chamado Portable Network Graphics, criado para substituir o GIF. Ele usa compressão sem perdas, ou seja, reduz o tamanho do arquivo sem comprometer a qualidade da imagem.

Um arquivo VCF (VCard) é um formato usado para guardar informações de contato, como nome, telefone e e-mail.
Ele serve para exportar, importar ou compartilhar contatos entre celulares e aplicativos de e-mail.

Caso Vorcaro

Os 206 arquivos compartilhados pela PF com a CPI do INSS estão distribuídos em 157 pastas. O material é parcial e não contém todas as informações coletadas no celular do banqueiro.

Em uma das pastas, há dois arquivos: uma imagem e um contato de Viviane Barci, mulher de Moraes. Ambos foram indexados juntos porque seus hashes começam com “6” e “3”. Isso não comprova que tenham sido enviados ao ministro. Barci e Antonio Rueda, presidente do União Brasil, negaram ter recebido mensagens de Vorcaro.

Quatro dos sete prints datados de 17 de novembro aparecem sozinhos em pastas. Isso ocorre porque seus hashes não coincidem com os de outros arquivos.