Por Germano Oliveira e Camila Srougi
A escalada militar no Oriente Médio tem provocado forte repercussão nos mercados internacionais, com elevada volatilidade nos preços do petróleo e receios de um choque energético de grandes proporções, em paralelo ao ocorrido em 1973, quando países produtores impuseram embargo após a Guerra do Yom Kippur.
Carlos Primo Braga, ex-diretor do Banco Mundial e agora professor associado da Fundação Dom Cabral, participou nesta segunda-feira (9) do programa BC TV, do portal Brasil Confidencial, para analisar os desdobramentos da guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã.
Segundo ele, os impactos não se limitam à esfera geopolítica, mas se estendem ao campo humanitário e econômico, com reflexos diretos sobre o abastecimento global de petróleo.
Braga destacou que o bloqueio parcial do Estreito de Ormuz — rota estratégica por onde transitam cerca de 20% do petróleo e gás natural comercializados mundialmente — ameaça comprometer cadeias globais de energia, pressionar o crescimento econômico e alimentar a inflação.
Os preços já refletem a instabilidade. O barril do tipo Brent chegou a se aproximar de US$ 120 pela manhã, mas recuou para cerca de US$ 84 após declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a possibilidade de cessar-fogo, além do anúncio de que países do G7 avaliam liberar estoques estratégicos para conter a escalada.
Apesar do alívio momentâneo, Braga advertiu que gargalos logísticos persistem. Kuwait e Iraque enfrentam paralisações por falta de capacidade de armazenamento, situação que pode levar semanas ou meses para ser normalizada.
Esse quadro, afirmou, manterá a pressão sobre os preços da energia e ampliará os riscos à estabilidade financeira mundial.
A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:
Camila Srougi – Professor, o senhor conhece como poucos as engrenagens que movimentam o dinheiro no mundo. Diante dos ataques de hoje às instalações petrolíferas iranianas e do salto no preço do gás, o senhor acredita que estamos diante de um novo choque energético capaz de levar as grandes potências a uma recessão ainda neste ano?
Carlos Primo Braga – Bem, não resta dúvida de que o potencial existe. Mas é interessante observar que hoje, à tarde, o preço do petróleo desabou. E por que isso aconteceu? O presidente Trump anunciou que o conflito está próximo do seu final.
Além disso, os ministros da Fazenda do G7 — os países industrializados — anunciaram que estão dispostos a liberar os seus estoques de reserva de petróleo. Isso apenas para mostrar que estamos vivendo um momento em que tudo é possível — e o oposto também.
O preço do Brent, o petróleo de referência internacional, chegou em alguns momentos na manhã de hoje a cerca de 120 dólares e fechou o mercado por volta de 84 dólares. Houve, portanto, um sinal de alívio.
Agora, como explicar isso? Porque há muita especulação e não há certeza alguma de que a afirmação do senhor Trump vá se transformar em realidade no sentido de que a guerra acabou.
Ele obviamente está preocupado com as implicações políticas nos Estados Unidos do aumento do preço da gasolina. O galão de gasolina nos Estados Unidos já está por volta de 3,4 dólares. A média nacional, em alguns estados como a Califórnia — por causa de impostos — já chega a cerca de 5 dólares o galão.
Isso naturalmente pode ter um impacto muito significativo nas eleições de novembro para o Congresso americano. Portanto, é um momento de grande volatilidade.
Observamos também a bolsa de valores nos Estados Unidos, que inicialmente apresentava quedas dramáticas, mas acabou encerrando o dia em alta. O índice S&P 500 fechou com alta de 0,83%. A Dow Jones subiu 0,5%. A Nasdaq avançou 1,38%, revertendo declínios que, no caso da Nasdaq, tinham chegado a cerca de 1,5% no início do dia.
Isso apenas reforça que estamos em um período de enorme volatilidade. Enquanto a situação no Estreito de Hormuz não for solucionada, continuaremos a ter pressões significativas sobre o preço do petróleo e do gás natural.
Germano Oliveira – Falando em Estreito de Hormuz, ele continua sob ameaça constante de interrupção da passagem de navios petroleiros pela área. O senhor acha que isso pode levar países que não estão diretamente envolvidos na guerra — como na Europa — a se envolverem mais diretamente no conflito, caso se sintam prejudicados pela paralisação dessa rota estratégica?
Carlos Primo Braga – Sem dúvida essa é parte da estratégia do Irã. Se olharmos para outros momentos de crise energética — como o embargo de 1973, liderado pela Arábia Saudita dentro da OPEP contra países que apoiaram Israel durante a Guerra do Yom Kippur — vimos o preço do petróleo aumentar quatro vezes em poucos meses.
Mas o Estreito de Hormuz continuou aberto ao trânsito.
Da mesma forma, em situações mais recentes — inclusive em junho de 2025, quando Estados Unidos e Israel atacaram instalações de processamento nuclear do Irã — o tráfego no Estreito de Hormuz não foi afetado.
Hoje, no entanto, estamos vendo essa ameaça se materializar. Sempre se considerou essa possibilidade como uma carta na manga do Irã. Mas é também um tiro no próprio pé, porque afeta a capacidade do próprio Irã de exportar petróleo, que vai principalmente para a China.
Quanto à possibilidade de países como a França ou outros entrarem diretamente no conflito, eu diria que é baixa.
Observamos nos últimos dias dois episódios de mísseis chegando à Turquia, ambos abatidos. Isso é relevante porque a Turquia é membro da OTAN.
Em tese, o país poderia invocar o chamado artigo 4, que permite consultas entre os membros da OTAN para discutir a necessidade eventual de apoio militar.
No limite, existe o artigo 5, que é quando um país se declara atacado e os demais concordam em oferecer apoio militar coletivo. Foi o que ocorreu após os ataques de 11 de setembro, quando os Estados Unidos invocaram o artigo 5 e vários países da OTAN colaboraram nas guerras no Afeganistão e no Iraque.
Mas acredito que ainda estamos longe dessa situação.
Agora, a declaração do presidente Trump sugere que ele pode estar pensando em uma saída para o conflito: declarar vitória.
Ele poderia afirmar que os Estados Unidos destruíram grande parte da marinha iraniana — algo que parece próximo da realidade — e enfraqueceram drasticamente a Guarda Revolucionária.
Israel, no entanto, tem objetivos mais amplos. Além de reduzir a capacidade militar do Irã e enfraquecer sua influência sobre grupos como Hezbollah, Hamas e os Houthis no Iêmen, Israel também deseja uma mudança de regime em Teerã. Já os Estados Unidos provavelmente ficariam satisfeitos com três objetivos principais: enfraquecer drasticamente as forças armadas iranianas, impedir definitivamente que o Irã desenvolva uma arma nuclear e reduzir sua capacidade de projeção regional.
A mudança de regime é algo extremamente complexo. As experiências dos Estados Unidos com esse tipo de estratégia — no Afeganistão, no Iraque e na Líbia — foram desastrosas no médio prazo.
Portanto, não está claro exatamente o que o presidente Trump quis dizer com suas declarações.
Germano Oliveira – Há risco de o petróleo chegar a US$ 150 o barril? Hoje já chegou perto de US$ 120. Existe essa pressão ou o G7 deve liberar rapidamente seus estoques estratégicos para conter os preços?
Carlos Primo Braga – No curto prazo, eu não acredito que cheguemos a US$ 150. Chegar a US$ 120 é possível — como vimos hoje.
Mas, como mencionei, o preço recuou rapidamente e agora está por volta de US$ 85 no caso do Brent.
As declarações de Trump e o comunicado do G7 indicando disposição para liberar reservas estratégicas provavelmente influenciaram essa queda.
Porém, se o Estreito de Hormuz continuar parcialmente fechado — como ocorre neste momento — teremos pressões persistentes sobre os preços.
Hoje o tráfego de navios está praticamente paralisado. Em dias normais, dezenas de navios atravessam diariamente o estreito. Na última semana, passaram apenas dois ou três, e todos iranianos.
Cerca de 20% do fluxo mundial de petróleo e gás natural passa por essa rota.
É verdade que países como Emirados Árabes Unidos e principalmente a Arábia Saudita possuem oleodutos que permitem redirecionar parte do fluxo para o Mar Vermelho.
Mas isso não resolve completamente o problema.
Existe ainda o risco de os Houthis — aliados do Irã no Iêmen — voltarem a atacar navios no Mar Vermelho, o que complicaria ainda mais a situação. Outro fator importante é que países como Kuwait e Iraque estão fechando temporariamente suas operações porque não têm como armazenar o petróleo produzido, já que ele não está fluindo.
Isso cria gargalos relevantes. Uma vez que uma refinaria é fechada, pode levar semanas ou até meses para que ela volte a operar plenamente.
Portanto, continuaremos vivendo um período marcado por gargalos energéticos, volatilidade nos preços e consequências geopolíticas e econômicas significativas para a economia global.
📺 A entrevista completa está disponível no canal BC TV:
Memória: O Choque do Yom Kippur de 1973

A Guerra do Yom Kippur, travada entre 6 e 26 de outubro de 1973, foi um choque militar e político que alterou o equilíbrio no Oriente Médio e desencadeou uma crise energética global.
Egito e Síria atacaram Israel em busca da recuperação dos territórios perdidos na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Embora Israel tenha resistido e contra-atacado, o conflito abriu caminho para negociações posteriores, como os Acordos de Camp David.
Para os historiadores, o episódio teve significância excepcional: redefiniu não apenas o equilíbrio militar na região, mas também a economia mundial ao provocar a crise do petróleo.
Henry Kissinger, então secretário de Estado dos Estados Unidos, declarou que seu “pesadelo era uma vitória de qualquer dos lados”, sinalizando que Washington buscava evitar um triunfo absoluto de Israel ou dos países árabes, a fim de preservar o equilíbrio e abrir espaço para negociações diplomáticas.
O desfecho militar foi seguido por uma ofensiva econômica. Em outubro de 1973, a Organização dos Países Árabes Exportadores de Petróleo (OPEP), liderada por Arábia Saudita, Kuwait e Líbia, decretou um embargo contra Estados Unidos, Holanda, Japão e outros aliados de Israel.
O bloqueio durou até março de 1974 e provocou uma escalada inédita: o preço do barril saltou de US$ 3 para US$ 12, um aumento de aproximadamente 300%. Daniel Yergin, autor de The Prize: The Epic Quest for Oil, Money, and Power, afirmou que “a crise do petróleo de 1973 foi o ponto de virada que mostrou ao mundo que o petróleo não era apenas uma mercadoria, mas uma arma política capaz de redefinir a economia global”.
O impacto no Brasil

O choque atingiu o Brasil em cheio e marcou o fim do chamado “milagre econômico”. Até então, o país registrava taxas de crescimento superiores a 10% ao ano, sustentadas por crédito externo e pela importação de energia barata. Com o embargo, o preço do barril disparou e a balança comercial brasileira se deteriorou rapidamente.
A inflação avançou, pressionada pelo aumento dos custos de energia e combustíveis, e o governo militar recorreu a empréstimos internacionais para financiar tanto as importações quanto grandes projetos de infraestrutura.
Segundo dados do IBGE, a taxa de inflação em 1973 foi de aproximadamente 15,7%. Já em 1974, após o impacto do embargo, saltou para cerca de 34,5%, inaugurando uma longa fase de desequilíbrios macroeconômicos que se estenderia por quase duas décadas. O então ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen, reconheceu que o choque havia desorganizado as contas externas e exigia uma mudança de rumo.
A resposta política
Politicamente, o regime militar buscou responder com centralização e obras de grande porte. O governo Ernesto Geisel lançou o III Plano Nacional de Desenvolvimento (1974–1979), que priorizou a indústria pesada e a expansão da matriz energética, incluindo hidrelétricas como Itaipu e o programa do álcool, o Proálcool, criado em 1975. A estratégia pretendia reduzir a dependência do petróleo e manter o ritmo de crescimento, mas ao custo de maior endividamento e novos desequilíbrios.
O cientista político Thomas Skidmore resumiu o impacto: “A crise do petróleo de 1973 expôs a fragilidade do modelo brasileiro de crescimento baseado em endividamento externo, levando a inflação e desequilíbrios que marcaram o fim do milagre econômico”.
nternacional, política econômica, cenários macroeconômicos e relações com organismos multilaterais, como Banco Mundial, FMI, OMC, OCDE e ONU. Sua atuação combina experiência prática em instituições globais e reflexão acadêmica, o que lhe confere destaque entre especialistas brasileiros na análise da economia mundial.





