Moisés Rabinovici


Moisés Rabinovici*

Ao confirmar onde se encontrava o filósofo que estava dando as ordens no Irã, Ali Larijani, alguns caças israelenses voaram 1.600 km e dispararam uma bomba à entrada de um túnel, outra à saída e mais uma, antitrincheira, ao centro.

Ali Larijani ,67, morreu sob os escombros. Ele foi o todo-poderoso secretário de Segurança Nacional do Irã; o responsável por reprimir os protestos contra a teocracia iraniana em que morreram mais de três mil manifestantes; e o confidente do líder supremo aiatolá Ali Khamenei, morto no primeiro dia da guerra, em 28 de fevereiro.

Continua depois da publicidade
Aiatolá Khamenei e Larijani, no ano passado (Government Press Office)

Era chamado de “o filósofo”. Larijani se doutorou pela Universidade de Teerã, com uma tese sobre o filósofo alemão Immanuel Kant, sobre o qual escreveu três livros. Ele também publicou trabalhos sobre Descartes, Saul Kripke e David Lewis, interessado em epistemologia, metafísica e filosofia da matemática e analítica. Mas sua vocação foi mesmo a política. Por 12 anos ele presidiu o Parlamento e negociou o acordo nuclear assinado em 2015, do qual o presidente Trump se afastou em 2018.

De família clerical influente, a formação secular de Larijani o impediu de ser cotado para suceder Aiatolá Khamenei, que lhe pediu, caso morresse, que divisasse um plano para assegurar a sobrevivência da República Islâmica. Sua ascensão deixou de lado o presidente Masoud Pezeshkian, um médico considerado moderado pela liderança iraniana. É possível que o Irã seja dirigido agora pelo comando da Guarda Revolucionária, de que aiatolá Mojtaba Khamenei é o líder supremo.

“Vamos fazer com que os criminosos sionistas e os desavergonhados americanos se arrependam dos seus atos. Vamos queimar o coração deles” – prometia Larijani.

Os aviões israelenses também mataram Gholan Reza Soleimani, há seis anos o comandante da Basij, a polícia da repressão atacada por drones nas ruas de Teerã. “Agora que parece que tudo está nas mãos da elite militar, é muito difícil imaginar como e se eles conseguirão apresentar algumas ideias, ou se conseguirão demonstrar flexibilidade suficiente para aceitar as ideias do outro lado e pôr fim à guerra”, comentou Hamidreza Azizi, um especialista em Irã do Instituto Alemão de Assuntos de Segurança, entrevistado pelo jornal New York Times. Ele criticou a estratégia israelense de assassinar políticos: “Nesse processo de redução da elite, a cada camada removida, a próxima camada será ainda mais intransigente”.

Benjamin Netanyahu recebendo a informação de que Larijani estava morto (Government Press Office)

A nova “camada” traz à cena o general Ahmad Vahidi Shahcheraghi, comandante do Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC) e ministro da Defesa do Irã sob Mahmoud Ahmadinejad, ocupando o cargo de 2009 a 2013. Ele é um veterano da guerra Irã-Iraque.

O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu declarou, depois dos assassinatos de Ali Larijani e Gholan Reza Soleimani: “Estamos minando o regime na esperança de dar ao povo a chance de derrubá-lo. Não acontecerá de uma vez, não será fácil. Mas se persistirmos nisso, daremos a eles a chance de tomar o próprio destino em suas mãos”.

Na Casa Branca, o presidente Donald Trump foi questionado por um repórter qual era seu plano para o dia seguinte no Irã. Ele não respondeu diretamente, mas afirmou que, “se os EUA encerrarem a guerra, o Irã vai precisar de dez anos para reconstruir o país”.

O aiatolá Mojtaba Khamenei também se pronunciou hoje, segundo o jornal israelense Times of Israel, que ouviu, de um “alto funcionário do governo iraniano”, que ele rejeitou duas propostas de cessar-fogo transmitidas a Teerã por dois países: “Não é o momento certo para a paz até que os Estados Unidos e Israel se ajoelhem, aceitem a derrota e paguem indenizações”.

*Moisés Rabinovici é jornalista brasileiro com carreira marcada por atuação internacional e inovação digital. Como correspondente de imprensa, atuou em Israel, Europa e Estados Unidos.