Depois de 53 anos do fim do programa Apollo, a cápsula Orion pousou no Pacífico, superando etapa arriscada da missão da Nasa à Lua. “Estamos bem, com os quatro tripulantes saudáveis”, disse Reid Wiseman, comandante da Artemis 2. (Foto: NASA)


“Que jornada! Estamos bem, com os quatro tripulantes saudáveis”, afirmou ontem Reid Wiseman, comandante da Artemis 2, após o amerissagem da cápsula Orion no oceano Pacífico, próximo à costa da Califórnia. A missão, que durou exatamente 9 dias, 1 hora, 31 minutos e 35 segundos, marca o retorno de seres humanos à órbita lunar 53 anos depois da última viagem do programa Apollo, em dezembro de 1972.

Às 21h07 (horário de Brasília), a nave concluiu o pouso na água com Wiseman, o piloto Victor Glover e os especialistas Christina Koch e Jeremy Hansen a bordo. A tripulação seria levada ao porta-aviões USS John P. Murtha para exames médicos antes de seguir ao Centro Espacial Johnson, em Houston.

A Artemis 2 alcançou 406.778 quilômetros de distância da Terra, superando o recorde anterior de 400.171 quilômetros. Foi também a primeira missão lunar tripulada com uma mulher (Koch), um homem negro (Glover) e um astronauta não nascido nos Estados Unidos (o canadense Hansen).

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Tecnologia óptica e contato histórico

A missão destacou-se pelo uso do Sistema de Comunicações Ópticas Orion Artemis 2 (O2O), baseado em tecnologia a laser e financiado pelo programa SCaN da Nasa. A inovação permite transmissões até 100 vezes mais rápidas que as de rádio, com velocidades de até 260 megabits por segundo. Durante o retorno, a tripulação estabeleceu uma comunicação inédita com colegas da Estação Espacial Internacional, o primeiro contato registrado entre uma missão lunar e a plataforma orbital.

O momento crítico da reentrada

A cápsula Orion separou-se do módulo de serviço e entrou na atmosfera terrestre a 40 mil km/h, enfrentando temperaturas de até 2.760 ºC graças a um escudo térmico reforçado. A Nasa havia priorizado esse sistema após o acidente do ônibus espacial Columbia em 2003, causado por falha na proteção térmica e que matou sete astronautas. O amerissagem no oceano, método tradicional em missões espaciais, garante dissipação mais segura da energia e facilita operações de resgate.

Atrasos e dificuldades

O programa Artemis sofreu vários atrasos nos últimos anos. Em 2022, o primeiro voo de teste sem tripulação foi afetado por vazamentos de hidrogênio e problemas no fluxo de hélio. O foguete Space Launch System (SLS) voltou a apresentar falhas em fevereiro deste ano na plataforma do Centro Espacial Kennedy, o que obrigou a Nasa a adiar o lançamento. Ontem, após o pouso, a tripulação e as equipes de resgate relataram dificuldades com a comunicação via satélite, embora a agência tenha classificado a operação como “amerissagem perfeita”.

A nova corrida espacial

O êxito da Artemis 2 coloca os Estados Unidos na dianteira da nova corrida pela Lua. Se no passado o rival era a União Soviética, agora são China e Índia que disputam o protagonismo. Washington prevê um pouso em 2028, Pequim promete levar seus taikonautas em 2030 e Nova Délhi planeja uma missão tripulada para 2040. Mais do que objetivos científicos, estão em jogo soberania tecnológica e geopolítica, além de interesses econômicos. Enquanto Marte ainda não é um destino viável, a “reconquista” da Lua volta a ser símbolo de poder global.