Viktor Orbán e Péter Magyar: líder nas pesquisas, oposicionista é séria ameaça a premiê húngaro. (Reprodução)


Por quase duas décadas, o primeiro-ministro Viktor Orbán tem sido o arquiteto inabalável da “democracia iliberal” na Hungria, projetando uma longa sombra que ultrapassa as fronteiras da Europa Central. Mas, enquanto os húngaros vão às urnas neste domingo, 12 de abril, o líder nacionalista enfrenta um fantasma político criado por ele mesmo: Péter Magyar, um ex-aliado cuja ascensão meteórica transformou uma disputa antes previsível em uma luta pela alma da nação.

Orbán, um pilar da direita radical global, cultivou laços ideológicos profundos com líderes de mentalidade semelhante no exterior, especialmente no Hemisfério Ocidental. Ele continua sendo um aliado fiel e apoiador vocal do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro e de seus filhos. Os líderes compartilham um populismo de extrema direita que frequentemente tensiona as normas democráticas; notavelmente, durante o processo contra Bolsonaro por liderar uma tentativa de golpe de Estado, o ex-líder brasileiro refugiou-se na Embaixada da Hungria em Brasília — um símbolo contundente de seu pacto de proteção mútua.

O desafiante que veio de dentro

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Péter Magyar, um advogado de 45 anos, já foi uma peça importante na engrenagem do partido Fidesz, de Orbán. Ele foi casado com Judit Varga, a ex-ministra da Justiça cuja carreira ruiu após um escândalo envolvendo o indulto ao cúmplice de um diretor de orfanato condenado por pedofilia. Desde que rompeu com o sistema em fevereiro de 2024, o partido de Magyar, o “Tisza” (Respeito e Liberdade), disparou nas pesquisas.

Sua campanha tem sido uma maratona exaustiva, trocando os salões dourados de Budapeste por uma caminhonete velha, atravessando vilarejos remotos onde moradores afirmam não ver um político de alto escalão há anos. Pesquisas independentes agora colocam o Tisza à frente do Fidesz, uma mudança que “eletrizou as massas”, segundo observadores.

Um sistema construído para durar

Apesar da liderança nas pesquisas, a derrota de Orbán está longe de ser uma certeza matemática. Ao longo de 16 anos, Orbán usou uma “supermaioria” para redesenhar o mapa da democracia húngara.

Analistas descrevem um sistema eleitoral “distorcido”, onde o Fidesz manipulou os distritos eleitorais para favorecer seus redutos rurais. De acordo com a ONG de jornalismo investigativo Atlatszo, Orbán poderia perder no voto popular por mais de 5 pontos percentuais e ainda assim manter o controle do Parlamento.

“É concebível que o Tisza receba mais votos que o Fidesz — e ainda assim o Fidesz mantenha a maioria das cadeiras parlamentares”, afirmou Robert Laszlo, pesquisador eleitoral do think tank Political Capital. Para garantir uma maioria simples, Magyar provavelmente precisaria de pelo menos 55% do total de votos.

Alegações de um “Estado sequestrado”

A campanha foi marcada pelo que observadores internacionais chamam de “competição desleal”. A Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) citou anteriormente a parcialidade da mídia e a “sobreposição de mensagens do governo e do partido”.

No final de março, uma delegação do Conselho da Europa levantou uma questão sombria: a Hungria ainda é uma democracia funcional ou se tornou um “Estado sequestrado” a serviço de um único partido?

O controle de Orbán se estende aos alicerces do Estado. Ele nomeou aliados para o Tribunal Constitucional, a Procuradoria-Geral e a autoridade reguladora da mídia — funcionários que só podem ser destituídos por uma maioria parlamentar de dois terços, um obstáculo que Magyar dificilmente superará, mesmo que vença.

Apostas globais

Os reflexos da eleição serão sentidos em Washington e Bruxelas. Orbán tem sido um espinho para a União Europeia, mantendo laços estreitos com Vladimir Putin e obstruindo a ajuda à Ucrânia.
Em um esforço final de campanha, Orbán buscou apoio em seus aliados nos Estados Unidos. O vice-presidente dos EUA, JD Vance, chegou a

Budapeste na terça-feira para uma visita de dois dias, descrevendo a viagem como um sinal aos “burocratas em Bruxelas”, a quem acusou de interferir na eleição.

Para a UE, uma vitória de Magyar significaria provavelmente uma “relação mais construtiva”, segundo Peter Kreko, da Political Capital. No entanto, mesmo que a “era Orbán” termine nas urnas este domingo, as estruturas legais e institucionais que ele levou 16 anos para construir podem se mostrar muito mais difíceis de desmantelar.