A Casa Bola, símbolo de projeto futurista de São Paulo. (Divulgação)


Entre os prédios altos do Itaim-Bibi, na zona sul paulistana, uma construção arredondada sempre chamou atenção de quem passava pela calçada. A Casa Bola, projeto ousado do arquiteto Eduardo Longo, permaneceu por quase cinco décadas como objeto de curiosidade apenas pelo olhar externo. Agora, pela primeira vez, o público poderá atravessar suas portas: de quarta a domingo, na Avenida Brigadeiro Faria Lima, 2.889.

A abertura integra a quinta edição da mostra Aberto, criada em 2022 para investigar as relações entre arquitetura, arte e design. Conhecida por ocupar edifícios históricos e transformá-los em cenários de experimentação, a iniciativa retorna a São Paulo após uma edição internacional em Paris. Até 31 de maio, o projeto se desdobra em duas frentes: uma exposição de grande escala dentro da Casa Bola e intervenções artísticas ao longo da Avenida Faria Lima.

“É a primeira vez que abrimos uma casa de um arquiteto ainda em atividade e também a primeira vez que não se trata de uma obra modernista. A Casa Bola é única, utópica, contracultural”, afirma o curador Filipe Assis, que divide a direção com Claudia Moreira Salles e Kiki Mazzucchelli.

Continua depois da publicidade

Uma moradia que desafiou o Modernismo

Construída manualmente entre 1974 e 1979, a residência surgiu como protótipo de moradia compacta e experimental. Longo imaginava um apartamento de luxo, porém reduzido, em resposta ao crescimento acelerado da cidade. “Achava que os ricos iriam querer diminuir seus domínios porque a cidade já fornece tudo que a gente precisa”, disse em entrevista ao Arch Daily em 2013.

Com forma esférica, planta contínua e soluções inesperadas — como o tobogã interno que funciona como saída rápida —, a Casa Bola permanece como ícone de inovação. O imóvel tem três suítes, sala, lavabo, cozinha e lavanderia, todos integrados. Cada detalhe foi moldado manualmente em argamassa: da geladeira ao fogão, passando por luminárias e armários.

A Casa Bola, símbolo de projeto futurista de São Paulo. (Divulgação)

Arte em diálogo com a arquitetura

Antes de entrar, o visitante encontra cerca de 60 obras de arte e design, criadas por mais de 50 artistas brasileiros e internacionais. São três pavimentos de percurso livre, sem caminho fixo. “Quase 90% das obras foram feitas especialmente para esta exposição, em diálogo com a arquitetura da Casa Bola”, explica Assis. No último andar, um núcleo curado por Fernando Serapião revisita a trajetória de Longo, hoje com 83 anos, por meio de projetos, desenhos, fotos e maquetes.

Ingressos estão disponíveis a partir de R$ 35,50.

Cama no interior da Casa Bola.

A arte desce para a rua

Além da casa, a mostra estreia a Aberto Rua, que leva esculturas e instalações para o espaço público. Mais de 25 obras se espalham pela Avenida Faria Lima, entre a Rua Amauri e a Alameda Gabriel Monteiro da Silva. “É a primeira vez que ocupamos o espaço urbano. Queremos atingir quem não necessariamente procura arte no dia a dia — pedestres, ciclistas, passageiros de ônibus. Que essas obras funcionem como um respiro no caos urbano de São Paulo”, resume Assis.