Após uma maratona de 21 horas de negociações presenciais destinadas a encerrar as hostilidades, as delegações dos Estados Unidos e do Irã deixaram a capital paquistanesa neste domingo (22) sem um consenso. O desfecho evidenciou um abismo de desconfiança: enquanto Teerã acusou Washington de apresentar “demandas irracionais”, o governo americano afirmou que a intransigência iraniana sobre o programa nuclear impediu a assinatura de um tratado.
Mohammad Baqer Qalibaf, presidente do Parlamento do Irã e integrante da comitiva em Islamabad, declarou que os negociadores americanos falharam em conquistar a credibilidade necessária para um avanço. Em uma publicação na rede social X, Ghalibaf afirmou que, embora o Irã tenha apresentado iniciativas “propositivas” e “em movimento”, a memória de conflitos anteriores ainda dita a postura de seu país.
“Os Estados Unidos compreenderam a lógica e os princípios do Irã”, escreveu Ghalibaf. “Agora é o momento de decidirem se podem ou não conquistar a nossa confiança.” O líder parlamentar reiterou que o país não recuará na consolidação do que chamou de “conquistas de quarenta dias da defesa nacional”.
Impasse nuclear
O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, encerrou as conversas de forma abrupta nas primeiras horas de domingo, horário local. Em um pronunciamento de apenas três minutos antes de embarcar de volta a Washington, Vance descreveu as discussões como “substantivas”, mas admitiu o fracasso.
“A má notícia é que não chegamos a um acordo”, disse Vance à repórter Jennifer Jacobs, da CBS News. Segundo o vice-presidente, o entrave principal foi a recusa de Teerã em aceitar termos definitivos que impedissem o desenvolvimento de armas nucleares. “Fomos bastante flexíveis e complacentes, mas eles optaram por não aceitar nossos termos.”
A delegação americana contou com figuras centrais do círculo íntimo do presidente Donald Trump, incluindo o enviado especial Steve Witkoff e o genro do presidente, Jared Kushner. Durante os intervalos da sessão, Vance manteve consultas constantes com Trump, além de coordenar posições com o secretário de Estado, Marco Rubio, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, e o almirante Brad Cooper, comandante do Comando Central dos EUA (Centcom).
Reações discrepantes
A narrativa do colapso variou drasticamente entre as capitais. A mídia estatal iraniana, por meio da emissora IRIB, classificou as exigências americanas como “excessivas” e “irracionais”, alegando que o esforço intenso da delegação iraniana visava apenas proteger os interesses nacionais.
Em Washington, o presidente Trump demonstrou indiferença quanto ao resultado negativo. Falando a jornalistas na Casa Branca, ele minimizou a importância de um aperto de mãos em Islamabad, afirmando que “não faz diferença” se um consenso for alcançado agora. Trump reiterou que os Estados Unidos mantêm uma vantagem militar estratégica e que seu foco primordial permanece na segurança e abertura do Estreito de Ormuz.
Com a partida da equipe de Vance e a ausência de uma segunda rodada de conversas programada, o diálogo direto entre as duas nações volta ao estágio de paralisia, deixando a região em um estado de incerteza diplomática.


