O crise na candidatura de Bolsonaro impulsiona as de Caiado e de Zema. (Reprodução)


O impacto eleitoral das mensagens trocadas entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master — reveladas pelo portal The Intercept Brasil —, ainda deve ser aferido pelas urnas, mas já projeta um saldo de danos no terreno digital. Enquanto a imagem do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro se desgasta, outros aspirantes do espectro conservador, como Romeu Zema e Ronaldo Caiado, ganham tração como alternativas para as presidenciais de 2026.

Segundo o monitoramento da AP Exata, uma consultoria de ciência de dados que analisa o clima emocional nas redes sociais, as menções negativas a Flávio Bolsonaro dispararam após o conteúdo das mensagens vir a público. O índice de “confiança digital” do senador caiu para 13,7%, o nível mais baixo entre os pré-candidatos monitorados.

A controvérsia eclodiu na última quarta-feira, quando o senador admitiu ter negociado investimentos com Vorcaro para financiar um filme sobre a trajetória de seu pai. Segundo a investigação jornalística, o acordo previa um repasse de 24 milhões de dólares (cerca de 134 milhões de reais à época). As autoridades brasileiras investigam se os atrasos nos pagamentos motivaram as cobranças de Flávio, que nas mensagens tratava o banqueiro pelo termo “irmão”.

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Uma fratura na direita

O escândalo serviu de plataforma para figuras que competem pelo mesmo eleitorado. Romeu Zema (Novo), ex-governador de Minas Gerais, classificou as mensagens como “um tapa na cara dos brasileiros de bem” e tachou a conduta do senador como “imperdoável”. Zema, que antes do episódio concentrava apenas 10% das menções, viu sua visibilidade dobrar nas redes, embora ao custo de ataques de setores mais radicais do bolsonarismo, que o acusam de oportunismo.

Por sua vez, Ronaldo Caiado (União Brasil), ex-governador de Goiás, também registrou um crescimento de 9,6% em sua presença digital, adotando um tom mais moderado que o de Zema, mas posicionando-se claramente diante da crise. “O eleitor começa a olhar para os lados. Zema e Caiado aparecem agora como alternativas reais”, afirma Sergio Denicoli, CEO da AP Exata.

A defesa dos Bolsonaro

Em entrevista concedida à rede GloboNews, Flávio Bolsonaro tentou conter os danos alegando que a relação com o banqueiro era estritamente “contratual” e que o silêncio inicial deveu-se a cláusulas de confidencialidade do projeto cinematográfico. O senador também negou que os fundos tivessem servido para financiar a estadia nos Estados Unidos de seu irmão, Eduardo Bolsonaro, que responde a processos na Justiça brasileira.

Para analistas políticos, o episódio impõe um freio à estratégia de Flávio de se apresentar como um “Bolsonaro moderado” e com capacidade de gestão. “Este caso cai como um balde de água fria no processo de reconstrução de sua imagem”, afirma Yuri Sanches, diretor de risco político da AtlasIntel.

O fator Lula

Apesar do naufrágio digital da direita, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não conseguiu capitalizar de forma direta o desgaste de seu principal rival. Embora a fragmentação da oposição costume favorecer o Governo, os índices de confiança de Lula variaram apenas 0,4%.

A grande incógnita para os especialistas é se este episódio terá o “efeito conta-gotas” que marcou, no passado, outras vazamentos de mensagens de figuras públicas. “Se surgirem novas revelações nos próximos dias, o comprometimento para a candidatura de Flávio será muito maior”, adverte Claudio Couto, cientista político da Fundação Getulio Vargas.