Sob o asfalto frenético da Whitechapel Road, na zona leste de Londres, o tráfego de pedestres e veículos flui sem imaginar que, nas profundezas vitorianas, uma fera em putrefação ganhava vida. Durante uma inspeção de rotina, trabalhadores colidiram com uma barreira intransponível: um monstro subterrâneo de 130 toneladas — o equivalente ao peso de 11 icônicos ônibus vermelhos de dois andares. Exalando gases tóxicos, essa massa petrificada cresceu silenciosamente na escuridão até ser descoberta. Agora, uma força-tarefa vestida com trajes de proteção biológica de corpo inteiro, armada com picaretas e jatos d’água de alta pressão, prepara-se para o combate.
O inimigo atende pelo nome de fatberg (um infame “iceberg de gordura”), uma amálgama repulsiva de óleo, graxa, lenços umedecidos, absorventes higiênicos e preservativos. “É uma composição mágica que endurece como concreto”, define Richard Martin, chefe de melhoria de tratamento da Southern Water, concessionária responsável pelo saneamento do sudeste da Inglaterra.
Essa praga subterrânea não é exclusividade britânica; ela ronda cidades do mundo inteiro de forma rápida e imprevisível. Alimentados pelo descarte incorreto de residências e comércios, esses blocos medonhos entopem as tubulações, geram inundações e vertem poluição em rios próximos. Se não contidos, o resultado é catastrófico: o esgoto retrocede, invadindo propriedades ou jorrando diretamente nas ruas.
A escala do desafio é monumental. Em 2017, a Thames Water precisou de longas nove semanas para extirpar a massa coagulada de Whitechapel. O alarme acendeu novamente no final de 2025, quando os inspetores descobriram que o monstro havia retornado, acumulando mais de 100 toneladas de pura imundície. No Reino Unido, as empresas de saneamento enfrentam anualmente cerca de 300 mil desses bloqueios solidificados. Do outro lado do Atlântico, em Nova York, a graxa responde por 40% das obstruções na rede, custando aos cofres públicos americanos cerca de US$ 18,8 milhões (aproximadamente R$ 92 milhões) por ano em operações de desobstrução e limpeza.
Esses mastodontes subterrâneos surgem com uma frequência assustadora. Gigantes de gordura já foram mapeados sob os subúrbios de Detroit e Baltimore, nos Estados Unidos; Oxford e Liverpool, no Reino Unido; além de Melbourne e Sydney, na Austrália. O grande dilema da engenharia moderna é localizá-los antes que atinjam proporções bíblicas, já que se formam longe dos olhos humanos, alimentados por detritos que a sociedade escolhe esquecer ao dar a descarga.
Para virar o jogo, a indústria do saneamento está convocando a inteligência artificial. No Reino Unido, a Southern Water lidera essa vanguarda tecnológica com a instalação de 34 mil sensores fixados em tampas de bueiros. O sistema emite sinais de radar que rebatem na água para monitorar os níveis de vazão. Esses dados alimentam um algoritmo de aprendizado de máquina que, cruzado com previsões climáticas e índices de precipitação, calcula milimetricamente o nível esperado do esgoto para aquele dia específico.
“Se a leitura estiver fora daquela faixa, precisamos entrar em ação”, afirma Richard Martin. O avanço é disruptivo. Antigamente, as companhias dependiam de inspeções visuais aleatórias ou de reclamações de clientes inundados. A IA antecipa o problema, garantindo tempo hábil para quebrar os bloqueios antes da solidificação, reduzindo o impacto ambiental e resguardando a integridade dos trabalhadores.
O subsolo é um território hostil. “Não é um ambiente muito agradável”, pondera Martin. Para descer aos túneis, os operários enfrentam o risco de contaminação por vírus, bactérias e parasitas, além de dependerem de equipamentos de respiração artificial para tolerar níveis letais de metano, dióxido de carbono e sulfeto de hidrogênio — o gás tóxico com odor de ovo estragado.
Graças aos algoritmos, a Southern Water conseguiu eliminar 700 bloqueios logo nos primeiros meses de 2026. No ano anterior, a tecnologia evitou entre 3,5 mil e 4 mil obstruções que poderiam resultar em graves inundações urbanas e contaminação biológica. O impacto do monitoramento inteligente já é mensurável: embora a companhia tenha registrado mais de 15,5 mil vazamentos por redes obstruídas ou sobrecarregadas em 2025, o número representa uma expressiva queda de 47% em comparação com o ano anterior.
As anatomias desses monstros variam. Em 2021, Birmingham testemunhou a extração de uma criatura de 300 toneladas; tinha meros 90 centímetros de altura, mas estendia sua imundície por 1 quilômetro de extensão. Já o espécime de Londres de 2017 erguia-se a 1,80 metro de altura ao longo de 250 metros, exalando um odor descrito como uma mistura de carne podre e banheiro público malcheiroso.
Recentemente, em Sydney, um fatberg colossal passou a expelir “bolas de fezes” de cheiro pestilento que empastaram as praias do estado de Nova Gales do Sul. Curiosamente, a repulsa gera fascínio: fragmentos do monstro londrino de 2017 foram parar em um museu local, quebrando recordes de público e despertando o interesse febril da comunidade científica.
Nos laboratórios da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, a chefe da Escola de Engenharia, Raffaella Villa, exibe uma recordação incomum: um pedaço seco e esbranquiçado do fatberg de Londres, guardado em um grande tubo de ensaio atrás de sua escrivaninha. Ela esmigalha o fragmento entre os dedos para demonstrar a rigidez da amostra. “É muito duro. A textura é similar ao sabão; é bastante gorduroso”, detalha, antes de recorrer imediatamente ao higienizador de mãos.
Villa defende que a química por trás desses fenômenos ainda guarda mistérios que demandam estudos profundos. A cientista suspeita que o descarte de leite possa ser um catalisador crucial na coagulação. “Enquanto eu esperava meu cappuccino em uma cafeteria, vi baristas despejando muito leite na pia. Ao lado dela, fica uma lavadora de pratos que lança água quente com pH muito alto, formando as condições necessárias para a produção de queijo. Se isso acontecer no esgoto, pode gerar o fatberg”, alerta. Assim como o queijo, que nasce maleável e endurece com o tempo, as montanhas de gordura sofrem um processo de maturação similar. Áreas com alta concentração de lanchonetes de kebab — onde panelas de óleo fervente são rotineiramente despejadas na pia — já são focos conhecidos de obstrução. O enigma atual é descobrir o papel das cafeterias nesse caldo nocivo.
A resposta pode vir da própria IA. Villa pleiteia financiamento para um projeto que usará aprendizado de máquina para analisar amostras físicas dos esgotos, permitindo mapear onde estão os fatbergs mais maduros e endurecidos, priorizando sua destruição.
A cartada final contra essas massas pode vir de exércitos de robôs autônomos. Se hoje cidades americanas e britânicas operam robôs simples e controlados remotamente para filmar as tubulações, o futuro prevê independência total. O objetivo é equipar essas máquinas com novos sensores e ferramentas de intervenção direta, eliminando a necessidade de enviar humanos ao subsolo.
Um consórcio de universidades europeias lidera um projeto de US$ 9 milhões (cerca de R$ 44 milhões) focado nessa tecnologia. O protótipo, desenvolvido na Universidade de Tallinn, na Estônia, ganhou o apelido de “tardígrado” — uma menção ao indestrutível micro-organismo de oito patas. “Com suas capacidades sensoras, o robô pode encontrar sua localização dentro da rede de esgoto. Ele pode inspecionar e deter os bloqueios”, detalha a professora Lyudmila Mihaylova, especialista em controle e processamento de sinais da Universidade de Sheffield, parceira no projeto. O design prevê, inclusive, um braço mecânico para agarrar e extrair os resíduos.
Para navegar nesse ecossistema dinâmico e complexo, o robô carrega um arsenal tecnológico: câmeras ópticas, sensores acústicos, tecnologia LiDAR (mapeamento a laser) e unidades de medição inercial. “Estamos desenvolvendo algoritmos de aprendizado de máquina que oferecem aos robôs as ferramentas necessárias para trabalhar nesses ambientes complexos”, revela Mihaylova.
O volume massivo de dados visuais gerados por essa nova frota exige triagem algorítmica. “Passei provavelmente grande parte da minha carreira assistindo a vídeos de dentro dos esgotos”, relata Eric Sullivan, diretor de desenvolvimento estratégico da empresa americana SewerAI. “Na maior parte das filmagens, quase não acontece nada. Este é exatamente o problema que estamos enfrentando.” A SewerAI conseguiu automatizar a análise dessas horas de gravação maçante, acelerando o diagnóstico de falhas. “O que fazemos, provavelmente, está mais perto da radiologia que dos encanamentos… interpretamos essas imagens para encontrar sinais de problemas, de defeitos”, compara Sullivan.
Os desafios de engenharia para consolidar essa tecnologia são severos. Os robôs precisam ser blindados contra a água, suportar pressões extremas e resistir a compostos químicos altamente corrosivos. Além disso, as redes de Wi-Fi e Bluetooth falham sob a terra. Contudo, Mihaylova garante que os obstáculos empalidecem diante dos benefícios econômicos e humanos: “Os robôs trarão economias significativas e protegerão os trabalhadores contra a exposição ao ambiente nocivo dos esgotos.”
A era medieval em que homens vestindo macacões de borracha rastejavam por túneis escuros, cortando blocos de gordura com jatos d’água e picaretas, caminha a passos largos para a extinção. A inteligência artificial assumiu o controle do subsolo.





