Daniel Vorcaro e seu Sicário; trabalhos clandestinos combinados entre ambos. (Fotos: Reproduções)


Relatórios da Polícia Federal (PF), que balizaram os mandados de prisão preventiva expedidos pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), revelam como o banqueiro Daniel Vorcaro teria estruturado uma sofisticada organização criminosa. O grupo, dividido simetricamente entre o ambiente virtual e o físico, operava por meio de ataques cibernéticos, monitoramento ilegal e intimidações armadas contra opositores e desafetos. Os bastidores desse ecossistema de coação, que unia inteligência artificial, falsificação de documentos e o aliciamento de agentes públicos, foram detalhados neste domingo em reportagem do programa Fantástico, da Rede Globo.

A anatomia da organização expõe uma divisão de tarefas que a PF segmentou em duas frentes: “Os Meninos”, responsáveis pelas incursões no universo digital, e “A Turma”, braço encarregado das ações de violência e coerção física. No núcleo tecnológico, as ramificações alcançaram o cenário internacional. O hacker Victor Lima Sedlmaier foi capturado em Dubai em uma operação coordenada entre a Interpol e as polícias local e brasileira, menos de 48 horas após desembarcar nos Emirados Árabes Unidos.

Em depoimento após ser extraditado para o Aeroporto de Guarulhos, Sedlmaier admitiu prestar serviços tecnológicos ao grupo desde 2024 sob o pagamento de R$ 2 mil mensais, além de bônus. Os investigadores suspeitam, contudo, que os repasses financeiros eram camuflados por meio de participações societárias minoritárias em duas drogarias. A liderança do setor hacker ficava a cargo de David Henrique Alves, de 23 anos, que recebia vencimentos de R$ 35 mil. Alves foi interceptado pela Polícia Rodoviária Federal em Minas Gerais com fardos de equipamentos de informática no interior de um veículo de Felipe Mourão, conhecido como “Sicário” — que cometeu suicídio após ser preso. Alves permanece foragido.

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Entre as artimanhas cibernéticas do grupo, destaca-se a manipulação de instituições do Estado. Para derrubar um perfil falso que utilizava o nome da então noiva de Vorcaro, a rede de hackers fraudou um ofício do Ministério Público do Ceará (MP-CE) direcionado a uma plataforma digital. O documento utilizava indevidamente as credenciais e o e-mail institucional de uma servidora pública, Nayara Maria.

Enganada pela falsificação, a rede social cumpriu a ordem fraudulenta em 24 horas. A investigação ainda tenta determinar se houve conivência ou facilitação por parte da funcionária.

Alvo: jornalista

A violência da organização não se limitava aos códigos de computador. Conforme o inquérito, Henrique Vorcaro, pai do banqueiro, atuava diretamente no financiamento e na gestão do braço físico, que agregava bicheiros, milicianos e policiais federais da ativa e aposentados.

O estopim para a decretação da prisão de Daniel Vorcaro em março deste ano foi a perseguição coordenada ao jornalista Lauro Jardim, colunista do jornal O Globo. Mensagens interceptadas expõem a ordem expressa do banqueiro para “hackear” o profissional, seguida de planos da milícia privada para simular um assalto e “quebrar os dentes” do jornalista.

O rastro de intimidações estendeu-se a antigos funcionários do próprio empresário. Luis Felipe Woyceichoski, ex-capitão do iate de Vorcaro, relatou ter sido procurado em uma marina em Angra dos Reis por um grupo armado após a existência de vídeos que denunciavam irregularidades operacionais na embarcação. Os relatos de coação são reiterados por Leandro Garcia, ex-chef de cozinha da residência de veraneio do banqueiro, que confirmou ter sofrido pressões psicológicas diretas de Felipe Mourão e do bicheiro Manoel Mendes Rodrigues.

O Outro Lado

Em nota, a defesa de Henrique Vorcaro rechaçou as acusações, argumentando que o empresário jamais operou ou financiou atividades ilícitas. Os advogados sustentam que a Polícia Federal omitiu intencionalmente contratos imobiliários legítimos no Rio de Janeiro e que os valores auditados referem-se estritamente a serviços de vigilância e negociação de terrenos, induzindo o STF ao erro.

A representação jurídica de Victor Lima Sedlmaier declarou que os fatos serão devidamente esclarecidos no foro adequado e que aguarda o acesso integral aos autos, tendo solicitado a transferência do réu para o sistema penitenciário de Minas Gerais.

A defesa de Daniel Vorcaro manifestou que não irá se pronunciar sobre o caso. A reportagem do Fantástico ressaltou que não obteve sucesso na tentativa de contato com a servidora Nayara Maria.