O senador Flávio Bolsonaro, que está acuado e incomodado com as revelações do caso Vorcaro. (Foto: Reprodução)


A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enfrenta turbulência sem cessar após a divulgação de áudios em que o senador cobra repasses milionários de dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

A revelação atingiu diretamente as pontes que vinham sendo construídas com setores estratégicos do bolsonarismo, como mercado financeiro, agronegócio e lideranças evangélicas.

O episódio já produziu efeito imediato: o marqueteiro Marcello Lopes, conhecido como “Marcellão”, amigo pessoal de Flávio, deixou a equipe.

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Ele estava nos Estados Unidos na semana considerada mais crítica para a comunicação da campanha, o que irritou os aliados de Flávio.

Para substituí-lo, foi chamado o publicitário Eduardo Fischer, responsável pela campanha presidencial de Álvaro Dias (Podemos) em 2018 e com trajetória marcada por trabalhos fora da política.

Reação de líderes evangélicos

Pastores influentes reagiram com cautela à crise na pré-candidatura. No grupo de WhatsApp “Aliança”, que reúne nomes como Silas Malafaia, Robson Rodovalho, Renê Terra Nova e Estevam Hernandes, o caso passou a dominar as conversas.

Rodovalho, da Sara Nossa Terra, afirmou: “Foi um balde de água fria. O problema não é só a aproximação com Vorcaro, mas também a forma como Flávio explicou. Estamos em modo de espera para ver o que é crime e o que é narrativa”.

Malafaia também sinalizou prudência: “Se ficar comprovado que houve dinheiro para além do filme, será difícil apoiar. Mas, se não tiver mais nada, seguimos com Flávio”.

Nos bastidores, Michelle Bolsonaro voltou a ser mencionada como alternativa caso a crise inviabilize o senador. “Ela não perderia nada do que já foi conquistado com a transferência de votos do Bolsonaro pai”, disse Rodovalho.

As próximas pesquisas de intenção de voto já terão o nome de Michelle em avaliação do potencial eleitoral. Michelle tenta evitar exposição sobre o caso. Ela tem recusado comentar a crise envolvendo o enteado Flávio Bolsonaro, com quem mantém uma relação um tanto hostil.

Produção do filme “Dark Horse”

A produtora recebeu R$ 61 milhões dos R$ 134 milhões prometidos por Vorcaro. Os repasses foram interrompidos após a prisão do banqueiro, levando Flávio a cobrar novos pagamentos. Flávio foi ao encontro de Vorcaro um dia depois de o banqueiro ter sido liberado do cárcere, mas mantido em prisão domiciliar, usando tornozeleira. Bolsonaro foi até a casa dele, em São Paulo.

Karina Gama, responsável pela produtora Go Up Entertainment, declarou à GloboNews que 90% do filme sobre Jair Bolsonaro foi financiado e que cerca de US$ 13 milhões (R$ 65,7 milhões) foram gastos. A empresa, contudo, não possui histórico no setor audiovisual nem experiência anterior em produções cinematográficas.

A Polícia Federal já investiga se parte dos recursos enviados ao fundo Havengate Development Fund LP, registrado no Texas, pode ter sido usada também para custear a permanência de Eduardo Bolsonaro no exterior. O fundo tem como agente legal o advogado Paulo Calixto, ligado ao ex-deputado, que já está enrolado na Justiça brasileira e responde a processo por interferir no julgamento de Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal no caso da tentativa de golpe de Estado, ao apelar para o governo Trump ameaçar e adotar represálias contra o Brasil.

Por outro lado, o ministro do STF Flávio Dino abriu inquérito para apurar R$ 2,6 milhões em emendas destinadas a uma ONG presidida por Karina, mas ainda não há clareza se essa verba foi aplicada no filme.

Mercado e agronegócio em alerta

Na Brazil Week, realizada em Nova York, o caso dominou conversas entre investidores e empresários. A expectativa de que Flávio pudesse se consolidar como alternativa competitiva da direita contra Lula foi substituída por dúvidas. O mercado não leva em conta as falas de Flávio, que promete anistiar todos os golpistas e levar Jair Bolsonaro para sua posse no dia 1º de janeiro de 2027, horas depois de mandar soltar os condenados, numa clara ofensa às decisões do Poder Judiciário do Brasil.

No agronegócio, a resistência ao nome do senador já existia antes da crise. Com a desistência de Tarcísio de Freitas, parte do setor vinha se aproximando de Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo). O episódio com Vorcaro reforçou esse movimento.

Deputados da Frente Parlamentar Agropecuária tentam minimizar a crise porque envolve o filho de Jair. “O Vorcaro é tóxico, mas nosso entendimento é que isso é uma marola que passa”, disse Lafayette de Andrada (PL-MG).

PL aguarda próximos passos

Dirigentes do PL admitem que os próximos dias serão decisivos. O presidente do partido, Valdemar Costa Neto, afirmou que foi dado prazo de 15 dias para medir o impacto da crise. Ontem, porém, buscou reforçar a confiança: “Flávio tem sua força política mais sólida do que nunca”.
Enquanto isso, o senador intensifica agendas em São Paulo com executivos da Faria Lima e empresários de turismo e serviços, numa tentativa de conter a deterioração da imagem.