Por Adriana Blak (RJ)
A sétima edição do Festival 3i 2026 será realizada entre os dias 29 e 31 de maio, no Porto Maravalley, reunindo especialistas brasileiros e internacionais para discutir os impactos da inteligência artificial, da desinformação e das plataformas digitais no futuro do jornalismo e da democracia. O evento também marca os cinco anos da Associação de Jornalismo Digital (AJOR), organizadora do festival.
Em um cenário de avanço das tecnologias de inteligência artificial e às vésperas das eleições de 2026, os debates do festival terão como foco os desafios da circulação de informações, o fortalecimento do jornalismo independente e os impactos da desinformação sobre os processos democráticos.
Entre os destaques da programação estão painéis sobre inteligência artificial nas redações, cobertura eleitoral, sustentabilidade financeira do jornalismo e os efeitos das plataformas digitais na distribuição de conteúdo. O evento também contará com workshops, apresentação de cases e a estreia do formato “3i Talks”, com entrevistas ao vivo durante toda a programação.
A jornalista Vitória Régia da Silva, diretora executiva da Gênero e Número e vice-presidente do conselho da AJOR, destacou a preocupação do setor com o crescimento da desinformação e o uso da inteligência artificial para manipular o debate público. Segundo ela, o contexto eleitoral torna o debate ainda mais urgente.
“Quando pensamos na produção de conteúdo sintético e na integridade da informação, entendemos que esse é um desafio central para a democracia”, afirmou.
Durante entrevista concedida à jornalista Adriana Blak, Vitória defendeu o avanço da discussão sobre regulação e responsabilização das plataformas digitais, especialmente diante da redução dos mecanismos de moderação adotados por grandes empresas de tecnologia.
A jornalista ressaltou que o debate não se limita à liberdade de expressão, mas envolve também o combate a campanhas organizadas de desinformação, ataques coordenados e discursos de ódio disseminados por meio de algoritmos e ferramentas automatizadas.
“Nenhum direito é absoluto. Estamos falando sobre operações profissionais de desinformação que utilizam impulsionamento, automação e inteligência artificial para ampliar discursos de ódio e ataques à democracia”, declarou.
Vitória também destacou a necessidade de atuação conjunta entre poder público, sociedade civil, pesquisadores e organizações jornalísticas na fiscalização das plataformas digitais. Segundo ela, iniciativas legislativas e debates promovidos por entidades como a AJOR buscam construir mecanismos de responsabilização das empresas de tecnologia sem comprometer direitos fundamentais.
Outro ponto abordado pela jornalista foi o crescimento da violência digital direcionada a mulheres, pessoas negras, jornalistas e população LGBTQIA+. Ela alertou para a importância da documentação de casos de ataques virtuais e da formalização de denúncias.
“A internet não é uma terra sem lei. Crimes como racismo e LGBTfobia continuam sendo crimes também no ambiente digital”, afirmou.
Além dos debates sobre regulação e democracia, o Festival 3i 2026 terá o lançamento da edição em português do livro Captura: Pensamiento del Sur para recuperar la promesa tecnológica en la carrera de la IA, que reúne autores do Sul Global para discutir os impactos da inteligência artificial sobre a informação, as plataformas digitais e as desigualdades tecnológicas.
Entre os convidados internacionais confirmados estão Mattia Peretti, Alejandro Valdez Sanabria, Liz Kelly Nelson, Jakub Górnicki, Madison Karas e Daisy Okoti.
O festival também promoverá discussões sobre sustentabilidade financeira do jornalismo, em um contexto de queda no número de brasileiros que pagam por notícias e de crescimento da influência de criadores de conteúdo na circulação de informações.
A seguir, leia alguns dos principais trechos da entrevista:
Adriana Blak – Como você recebeu a publicação dos decretos assinados pelo presidente Lula, que determinam a retirada imediata de postagens consideradas criminosas nas redes sociais, mesmo sem autorização judicial prévia? Na sua avaliação, essas medidas representam um avanço na regulação das plataformas digitais e no combate a conteúdos que incentivam violência, ataques à democracia, crimes e desinformação? Ou há risco de afetarem a liberdade de expressão?
Vitória Régia da Silva – Com certeza. Acho que, no momento em que estamos vivendo, em que se fala tanto sobre inteligência artificial e desinformação — especialmente considerando as dimensões de gênero, raça e as eleições deste ano —, esse debate se torna ainda mais urgente. O próprio Festival 3i acontece às vésperas das eleições, então temos olhado para essa questão com muita preocupação.
Quando pensamos na produção de conteúdo sintético e na integridade da informação, entendemos que esse é um desafio central para a democracia. A Ajor, Associação de Jornalismo Digital que organiza o 3i, atua fortemente nessa frente, discutindo a regulação da inteligência artificial e das plataformas digitais, justamente porque elas impactam diretamente temas como liberdade de expressão, disseminação de crimes e violência online.
Estamos falando de conteúdos ligados a machismo, racismo e LGBTfobia que, muitas vezes, circulam sem qualquer tipo de responsabilização. E, com as recentes medidas adotadas pelas big techs, como Meta e Google, a mediação dessas plataformas diminuiu muito — em alguns casos, praticamente deixou de existir. Isso acaba ampliando ainda mais o espaço para desinformação e discursos criminosos na internet.
Por isso, acredito que precisamos avançar cada vez mais no debate sobre regulação e responsabilização das plataformas digitais. E o jornalismo tem um papel essencial nesse processo — não apenas denunciando e investigando o funcionamento das big techs, mas também defendendo a integridade da informação e o fortalecimento da democracia.
Pensando no cenário eleitoral que ainda teremos pela frente, especialmente nas questões relacionadas à violência política de gênero e raça, acredito que será necessário discutir medidas mais efetivas para conter o avanço da desinformação nas redes sociais. Infelizmente, a tendência é que esse cenário se torne ainda mais desafiador nos próximos meses.
Adriana Blak – Há quem diga que esses decretos podem representar tanto um avanço quanto um risco para a liberdade de expressão. Como jornalista, qual é a sua avaliação sobre isso?
Vitória Régia da Silva – Quando falamos em liberdade de expressão, estamos falando de um dos princípios mais importantes defendidos pelo jornalismo e de um direito fundamental para a democracia. Mas também é importante lembrar que nenhum direito é absoluto.
Nesse debate, não estamos falando sobre impedir opiniões divergentes — isso faz parte da democracia. Estamos falando sobre campanhas organizadas de desinformação, ataques coordenados e violência digital, muitas vezes direcionados a grupos sociais específicos ou até às próprias instituições democráticas.
Hoje, as plataformas digitais, os algoritmos e as ferramentas de inteligência artificial têm sido usados para manipular o debate público, disseminar ódio, promover assédio e enfraquecer a confiança na informação. E, em um cenário eleitoral, isso se torna ainda mais delicado, porque a desinformação não afeta apenas indivíduos, mas também os próprios processos democráticos.
Por isso, acredito que é fundamental diferenciar liberdade de expressão de operações profissionais de desinformação, que utilizam impulsionamento, automação, monetização e inteligência artificial para alcançar milhões de pessoas e ampliar discursos de ódio e ataques à democracia.
Então, a discussão não é sobre impedir alguém de se expressar, mas sobre compreender quem detém poder e como a tecnologia pode ser usada para ampliar narrativas que têm consequências sociais e políticas profundas.
Adriana Blak – E como você acredita que a aplicação dessas medidas pode ser fiscalizada de forma eficaz? Na sua avaliação, isso é realmente possível?
Vitória Régia da Silva – Eu acredito que isso depende muito de um trabalho colaborativo. O poder público, sozinho, não consegue dar conta desse desafio. Por isso, os debates dos quais a Ajor participa sobre regulamentação das plataformas e os impactos da inteligência artificial têm sido tão importantes, justamente porque envolvem diferentes setores da sociedade.
Quando falamos sobre fiscalização e regulação das plataformas digitais, precisamos pensar em uma atuação conjunta entre poder público, sociedade civil, pesquisadores, organizações e também o jornalismo. Afinal, quando discutimos democracia, não estamos falando apenas dos governos federal, estadual ou municipal, mas também do papel fundamental da sociedade civil nesse processo de acompanhamento e fiscalização.
Hoje já existem projetos de lei que tratam da regulamentação das plataformas, e a Ajor tem participado ativamente dessas discussões junto a outros atores. No campo do jornalismo, por exemplo, um dos debates centrais envolve os direitos autorais diante da expansão da inteligência artificial: como proteger o trabalho de quem produz informação nessa nova realidade digital?
Então, esse é um debate que a Ajor acompanha muito de perto, porque ele impacta diretamente o jornalismo brasileiro, especialmente o jornalismo digital e independente.
Adriana Blak – Qual deve ser a orientação para pessoas que são alvo ou podem ser atingidas por postagens criminosas nas redes sociais?
Vitória Régia da Silva – Recentemente, nós produzimos inclusive um guia com orientações sobre como agir diante de discursos de ódio e desinformação, voltado não apenas para vítimas, mas também para jornalistas.
Hoje, infelizmente, as vítimas têm recebido cada vez menos apoio das próprias plataformas digitais. Então, medidas que antes eram mais eficazes, como denunciar uma postagem diretamente na plataforma, continuam sendo importantes, mas já não têm o mesmo efeito, justamente porque os processos de moderação foram reduzidos. Isso também está relacionado às mudanças no direcionamento político e ideológico das grandes big techs. Muitas vezes, até denúncias claras de racismo, por exemplo, deixam de ser consideradas adequadamente.
Além disso, temos visto crescer o número de veículos jornalísticos que têm páginas derrubadas ou suspensas, especialmente em plataformas como o Instagram. Então, é um cenário que exige muita atenção.
Por isso, a principal orientação é fazer uma documentação completa do caso. Tirar prints, registrar links, salvar provas e identificar os perfis envolvidos é fundamental, porque muitos conteúdos acabam sendo apagados rapidamente e perfis podem ser excluídos com facilidade.
Também é importante acionar redes de apoio e organizações parceiras. No caso dos jornalistas, por exemplo, a Ajor conta com parcerias com organizações e advogados que podem oferecer suporte jurídico e orientação.
E, em muitos casos, é necessário recorrer à judicialização. As denúncias formais são importantes não apenas para buscar responsabilização, mas também para produzir dados que revelem a dimensão do problema. Muitas vítimas acabam apenas fechando seus perfis e se afastando das redes, sem procurar ajuda, mas é fundamental entender que isso não é uma questão individual — é um problema coletivo, que atinge grupos específicos, como jornalistas, mulheres, pessoas negras e pessoas LGBTQIA+.
Por isso, é importante acionar essas redes, buscar apoio, reunir documentação e também registrar denúncias nos canais oficiais e na polícia. A internet não é uma terra sem lei. Crimes como racismo e LGBTfobia continuam sendo crimes no ambiente digital, e a legislação já existente pode e deve ser aplicada também nesses casos.
Incentivar as denúncias é essencial para que possamos ter dados, fortalecer políticas públicas e ampliar a capacidade de enfrentamento a esse tipo de violência.
Conheça Vitória Régia da Silva

Vitória Régia da Silva é jornalista e diretora executiva da Gênero e Número, organização referência na produção e comunicação de dados sobre gênero, raça e sexualidade. À frente da instituição, lidera estratégias que unem inovação editorial, desenvolvimento de produtos e modelos de financiamento voltados para ampliar impacto social.
Além disso, atua no fortalecimento do jornalismo digital no Brasil como vice-presidente do conselho da Associação de Jornalismo Digital (Ajor). Sua trajetória é marcada pela busca de sustentabilidade no setor e pela criação de pontes entre informação qualificada e transformação social.
Formada em Jornalismo pela UFRJ e pós-graduanda em Diversidade e Impacto Social pela PUC-Rio, Vitória já recebeu prêmios importantes, como o Cláudio Weber Abramo de Jornalismo de Dados e o ANPOCS de Jornalismo Científico. Também foi reconhecida pelo Prêmio Livre.jor e pelo Prêmio Direitos Humanos do Jornalismo.
Com experiência consolidada e atuação estratégica, Vitória Régia da Silva se destaca como uma das vozes mais influentes na interseção entre dados, diversidade e inovação no jornalismo brasileiro.



