Ivan Angelo


Ivan Angelo*

“É ilusão, é ilusão. Tudo é ilusão.” Outra tradução, entre as muitas, diz; “vaidade de vaidades, tudo é vaidade”. O narrador do Eclesiastes, autointitulado O Sábio, do Antigo Testamento, faz ecoar há pelo menos 2600 anos seu longo diagnóstico sobre os homens e suas ações. Sua fala é de desalento e ecoa no nosso tempo.

Um grupo de vaidosos bilionários, na ilusão de que são mais eficientes e mais capazes, porque são bilionários e isso não é para qualquer um, metem-se a refundar um país, os Estados Unidos da América, que já está prontinho e funcionando, e cujo funcionamento possibilitou que eles se tornassem bilionários, mas querem moldá-lo mais ao seu jeito e gosto, deles. O histrião Trump e seus quatro bilionários do apocalipse começam a perceber que, excetuando os néscios, há decepções nas pesquisas, há alertas nos jornalões de lá sobre desumanidades em Gaza e na imigração, sobre irregularidades nas dispensas em massa de funcionários, sobre grandes negócios na guerra da Ucrânia em torno de minérios e armas, sobre inconstitucionalidades dentro de casa. O presidente pode muito mas não pode tudo. É ilusão, é ilusão, tudo é vaidade. 

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Na Argentina, a ilusão do bufão presidente, um economista periférico de programas cômicos da televisão, que convenceu a plebe de que poderia consertar o país com voluntarismo e passes de mágica. Errou na mágica de transformar criptomoedas em dólares, só conseguiu transformá-las em pó, e levou prejuízos a milhares e milhares de admiradores oportunistas. Perceberam tarde a ilusão; tudo é ilusão, vaidade de vaidades. 

O futebol é campo de ilusões e vaidades. O campeão das Américas de 2024, o Botafogo, sai vitorioso no final do ano e, três meses depois, em 14 jogos disputados até aqui, perdeu 9 e empatou um, só ganhou 4. Ilusão, vaidade de vaidades. 

O Oscar para “Ainda estou aqui” foi maravilhoso, mas era para ser mais, esperávamos mais. Ilusão nossa. É comum acreditar que o Oscar é um prêmio de arte. Ilusão: é, frequentemente, um prêmio de fofuras. Vejam, no ano em que Fernanda Montenegro concorria com uma interpretação densa e forte em “Central do Brasil”, ganhou Gwyneth Paltrow, de “Shakespeare apaixonado”. Fofura. “Cidadão Kane”, que muitos consideram o melhor filme de todos os tempos, perdeu para “Como era verde o meu vale”, fofura sentimental. O maravilhoso “Dr. Fantástico”, de Stanley Kubrick, perdeu para “My Fair Lady”, fofura musical, de nem sei quem. O inovador “Pulp Fiction”, de Tarantino, perdeu para o enjoado “Forrest Gump”. Agora, essa fofurazinha “Anora” ganhar de “Ainda estou aqui” e a fofolete Mikey Madison ganhar da densa Fernanda Torres… sei não. O Oscar nem sempre premia a arte. É ilusão, tudo é ilusão. 

*Ivan Angelo é Escritor e Jornalista. Foi Editor-Executivo do Jornal da Tarde, e colunista em várias Revistas e Jornais. Autor, duas vezes Prêmio Jabuti.