O presidente da Febraban, Isaac Sidney, durante o Brasil Summit.


O presidente da Febraban (Federação dos Bancos do Brasil), Isaac Sidney, disse no “Brasil Summit”, realizado na manhã desta quarta-feira (12), em Brasília, que o governo do Brasil precisa deixar de lado as questões políticas, ter sabedoria e serenidade para discutir as questões econômicas entre o país e os Estados Unidos, cujo governo, chefiado por Donald Trump, decidiu fazer uma gestão hostil e de defesa dos interesses nacionais, aplicando taxações e restrições aos países que são fornecedores de produtos e serviços.

“A palavra-chave sobre o que está acontecendo é, de fato, uma deterioração das incertezas, um cenário de muita insegurança”, disse Sidney. Segundo o presidente da Febraban, “existe uma atuação voltada (pelo governo norte-americano) para a proteção do parque industrial americano. Essa guerra tarifária vai trazer consequências para os outros países e o Brasil precisa ser muito pragmático nesse momento”. Segundo ele, “este é o momento em que precisamos insistir pelo diálogo diplomático, primar pelas relações econômicas. Não é o momento de partirmos para embates de cunho político com os Estados Unidos, que sempre foram importantes parceiros do Brasil”. Segundo o banqueiro, “nós deveríamos nos dedicar, via Ministério das Relações Exteriores, pelo Ministério da Fazenda, pelo próprio presidente da República, e continuar com o diálogo, pois as consequências podem nos surpreender”.

“Nós precisamos de uma espécie de blindagem para as nossas vulnerabilidades”, enfatizou. De acordo com Isaac, existe pressão inflacionária, “o que seria muito ruim. Nós estamos com uma inflação em 12 meses bem acima do teto, acima inclusive da margem de tolerância da meta, o que nos coloca em situação de fragilidade”. Para o presidente da Febraban, “enquanto nós estivermos com esse descompasso entre a política monetária e a política fiscal, estaremos num ambiente doméstico com taxas de juros elevadas para segurar a inflação”.

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“Uma das maiores preocupações é o impacto inflacionário que essa política hostil do governo americano pode nos causar. Podemos estar diante de uma maior fragilidade fiscal americana. Trump encontrou uma economia frágil nos Estados Unidos, recebida do governo Biden. E ainda assim ele está com uma política que pode agravar a situação”.

“A gente pode estar diante também de um ambiente que pode levar a uma desaceleração da economia americana, com impactos na economia global. O FED (banco central americano) vai enfrentar o problema. O próprio FED vai enfrentar esse dilema para manter juros num patamar para enfrentar a inflação e evitar a desaceleração da economia. Tudo isso gera volatilidade de mercado, faz com que tenhamos cada vez mais de buscar uma blindagem”, explicou. Ao mesmo tempo, observou, na Europa está acontecendo um caminho expansionista da política monetária. Agora o que a Europa vai fazer é um afrouxamento monetário.

O ponto principal é este: o Brasil precisa ter sabedoria e serenidade, ser pragmático com os Estados Unidos. Precisamos desse relacionamento, precisamos deixar as questões políticas de lado. Temos de ficar atentos com os governos de plantão dos dois lados.

Isaac Sidney destacou que o Brasil não pode depender de mudanças externas para resolver seus problemas econômicos internos. Para ele, o país precisa corrigir sua rota fiscal, priorizando o equilíbrio das contas públicas e reduzindo vulnerabilidades.

“Não podemos abusar da sorte. Precisamos consolidar e avançar no ajuste fiscal para assegurar a sustentabilidade da dívida pública. O pior é ficar no meio do caminho”, afirmou.

Ele reconheceu avanços recentes, como a aprovação do arcabouço fiscal e medidas de contenção de despesas, mas enfatizou que ainda há um longo percurso a ser percorrido para garantir uma economia sólida.

O presidente da Febraban também abordou os impactos da inflação e da política monetária do Banco Central. Ele alertou que a economia brasileira ainda opera sob uma carga elevada de juros, o que restringe investimentos e limita o crescimento.

“Nossa economia está suportando uma carga muito pesada de juros para conter uma inflação que segue acima da meta. Precisamos atuar com responsabilidade para evitar desequilíbrios futuros”, pontuou.

Ele ainda projetou um crescimento menor para 2025, estimado em 2%, e destacou que essa desaceleração pode ser benéfica para controlar a inflação e estabilizar as contas públicas.

Sidney ressaltou que o país precisa se preparar para um cenário internacional mais volátil e protecionista, marcado por incertezas geopolíticas e uma possível redução do fluxo de investimentos para mercados emergentes.

“Estamos vendo uma mudança radical na ordem global. O Brasil precisa se posicionar estrategicamente, diversificando relações comerciais e fortalecendo sua política econômica”, analisou.

Outro ponto enfatizado foi a necessidade de o Brasil recuperar o grau de investimento, um selo concedido por agências de risco que aumenta a confiança dos investidores estrangeiros no país.

“Só poderemos dizer que o Brasil voltou quando recuperarmos esse selo. Isso trará credibilidade, atrairá mais investimentos e fortalecerá nossa economia”, argumentou.

Encerrando sua participação, Isaac Sidney reforçou que o sucesso do Brasil depende da colaboração entre lideranças políticas, empresariais e financeiras. Ele lembrou que o país já superou desafios no passado, como na época do Plano Real, e que tem capacidade de fazer isso novamente.

“O Brasil nunca dependeu tanto de si próprio para dar certo. Ou nos unimos para avançar, ou sucumbimos às nossas próprias vulnerabilidades”, concluiu.