Ricardo Guedes


Ricardo Guedes*

Os erros de Trump são tantos que vou enumerar somente três:

  1. Barreiras alfandegárias

O que fez a América “Great Before” foi a sua eficiência, e não barreiras alfandegárias. Os Estados Unidos saíram da 2ª Guerra Mundial como a maior potência do mundo por sua eficiência, tecnologia e livre comércio. Mercado e Keynesianismo, compatibilizados. Em 1960, o PIB dos Estados Unidos equivalia a 40% do PIB mundial. Hoje, seu PIB representa 25% do PIB mundial, e 25% não impõem uma nova ordem mundial. A mão de obra americana ficou cara, e sua tecnologia não é mais a preponderante no mundo. O PIB da China cresce em taxas anuais maiores do que as do PIB americano, e o PIB da China irá ultrapassar o PIB dos Estados Unidos. A taxação americana em cerca de 25% a produtos de diversos países não irá gerar maior autonomia produtiva interna nos Estados Unidos e irá gerar inflação. Não fará a América “Great Again”. As ações da Tesla caem. Tudo que Trump tem feito, na economia, vai na direção contrária à que os “Pais da Nação” criaram, da economia de mercado, recentemente expressa no “Consenso de Washington” em 1989. A Economia da Universidade de Chicago deve estar estupefata. A política econômica de Trump não dará certo.

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  1. Perseguição política

A perseguição política a seus opositores, em boa parte gerenciada por Elon Musk na demissão de funcionários públicos, Estado-Maior das Forças Armadas e Departamento de Estado, e contra políticos do Partido Democrata, é um erro crasso, em oposição ao que os “Pais da Nação” criaram na Primeira Emenda da Constituição: a liberdade política e de expressão, o reconhecimento dos contrários e das diferenças, o que possibilita o consenso social nas grandes questões do país. Trump, no voto popular, foi eleito por 49,9% dos eleitores em 2024, contra 48,5%. A diferença não é tão grande assim. Há instituições que são perenes nos países, mesmo nas ditaduras, quanto mais em democracias, como a Justiça nos Estados Unidos. O que vai, volta. O preço do erro político será alto para Trump.

  1. Alienação do poder

A alienação do poder caracteriza os políticos que agem além do que para o quê foram eleitos, achando que mandam na nação em ações exacerbadas. O “pecado capital” da soberba. Este é o princípio da queda. Trump foi eleito como o Presidente dos Estados Unidos da América, e não somente e exclusivamente para a metade dos eleitores americanos. Sua aprovação, em somente um mês de governo, já caiu de 49% para 47%, tanto na pesquisa da Newsweek como na pesquisa do Emerson College, com o mesmo score. A alienação do poder é o caminho certo para o erro. Gera a firme anteposição daqueles que são atingidos, internamente e em outros países, como no caso do Canadá, mais exacerbadamente, estimulando uma nova ordem mundial autônoma aos Estados Unidos. Trump trata os países com desdém, como se fossem subalternos ou subjugados. No caso da Ucrânia, Israel e Gaza-Hamas, sem entrar na questão de juízos de valor de quem está certo ou errado, Trump “humilha” os seus “vencidos”. E, como diz Maquiavel em “O Príncipe”, pai do pensamento político ocidental desde o Renascimento, quando se vence uma batalha “não se deve humilhar o vencido, pois a humilhação leva ao ódio, e o ódio à vingança”. Uma paz mundial somente é duradoura quando percebida como adequada pelas partes. A nova “Pax Romana” pretendida por Trump não é assim possível somente porque ele a quer. Putin pode estar, conjunturalmente, interessado em seus resultados, mas faltou “combinar” com os chineses, a Europa e o resto do mundo.

E isto é somente o início de sua derrocada, interna e externamente. O que vai, volta.

Um país não pode ir contra os seus fundamentos, contra aquilo que o fez. E nem querer mandar no mundo sem ter poder para isso. Esses são os erros fundamentais de Trump.

*Ricardo Guedes é Ph.D. em Ciências Políticas pela Universidade de Chicago e autor.