Laira Vieira


Laira Vieira*

Ignorado, humilhado, descartado. Mas todo homem tem um limite. E quando ele é ultrapassado, algo nasce no lugar. Será loucura ou apenas a verdade que ninguém quer enxergar?

Coringa (2019), dirigido por Todd Phillips (Cães de Guerra, Se Beber Não Case) e estrelado por Joaquin Phoenix (Gladiador, Napoleão), não é apenas um retrato da origem de um dos vilões mais icônicos dos quadrinhos – muito menos mais um filme de herói versus vilão – mas uma imersão perturbadora na espiral de degradação social e pessoal que levou um indivíduo à insanidade: ele se tornou mau por causa da sociedade que o oprimiu ou sempre foi mau?

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Arthur Fleck é um palhaço de festas que deseja ser comediante e vive em um mundo que o ignora e o marginaliza, pois ele possui problemas mentais. A narrativa se desdobra em uma série de eventos cada vez mais perturbadores e violentos, culminando em uma transformação explosiva: ele se torna o infame Coringa. Gotham serve de pano de fundo – é um microcosmo da nossa sociedade, uma cidade onde a desigualdade e a injustiça são palpáveis e corrompem a vida de seus habitantes.

Como o filósofo Nietzsche observou, “Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se um monstro também.” O protagonista se torna um monstro, mas não sem antes se tornar o reflexo da monstruosidade que o cercava. Fleck encarna o conflito entre a ordem e a desordem, refletindo um desmoronamento ético que, ao se manifestar no nível individual, reflete a desintegração da coesão social em escala macro.

Quando os monstros não são apenas os que cometem atos de violência, mas também aqueles que ignoram o sofrimento dos outros, Coringa ressoa como um grito de alerta e um desafio para olhar mais profundamente para as fissuras da nossa própria sociedade. A jornada de Arthur Fleck é um lembrete de que a desconexão e a injustiça não só destroem vidas individuais, mas também alimentam o colapso da ordem social.

A transformação do anti-herói é, em parte, alimentada pela maneira como a mídia e a sociedade consomem com voracidade figuras de extrema violência e caos. Podemos observar esse aspecto na glamourização de serial killers e canais dedicados exclusivamente a crimes. A cultura de mídia e entretenimento influencia a percepção pública e molda o comportamento social, e o longa-metragem oferece uma crítica incisiva ao papel que o sensacionalismo e a exploração da violência desempenham na sociedade.

A película não oferece respostas fáceis e é um reflexo das falhas e dos conflitos de nossa própria realidade – instigando o espectador a questionar o papel das instituições na criação e manutenção das desigualdades que perpetuam a desesperança e a violência – e a necessidade de uma abordagem mais empática e eficaz em relação à saúde mental, destacando a desconexão entre a teoria e a prática em serviços de apoio.

Laira Vieira é Tradutora, Crítica Cultural, e formada em Ciências Econômicas pela UFSM. Autora