*Moisés Rabinovic
O presidente Donald Trump afundou um pouco mais seu aliado, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, nas pesquisas para as eleições de 27 de outubro.
A imposição de um cessar-fogo de dez dias no Líbano, na quinta-feira, somou-se a outro gesto raro: por duas vezes, Trump pediu direta e publicamente que Israel conceda perdão a Netanyahu.
Os episódios reforçaram, entre eleitores e opositores, a percepção de que Israel passou a agir sob tutela americana — um “estado vassalo”, na expressão usada por críticos.
Netanyahu foi “proibido” por Trump de violar a trégua. “Aceitei o pedido do meu amigo”, justificou-se, embora tenha admitido que ainda não havia “terminado o trabalho” contra o Hezbollah.
A coalizão de Netanyahu — Likud e partidos religiosos e de direita como Shas, UTJ, Otzma Yehudit e Religious Zionists — aparece em desvantagem. Tem entre 49 e 52 cadeiras no Parlamento, abaixo das 61 necessárias para a maioria. A oposição soma de 57 a 61 e pode precisar do apoio de partidos árabes para formar governo.

As últimas pesquisas indicam:
• Maariv (10 de abril): coalizão 49, oposição 61.
• Canal 12 (10 de abril): Likud cai para 25 assentos e Naftali Bennett sobe para 22.
• Time of Israel/Zman Yisrael (15-16 de abril): coalizão 51, oposição 60.
A oposição está costurando alianças para “bloco da mudança”. Ele foi objeto de encontros recentes entre o ex-primeiro-ministro Naftali Bennett e ex-chefe do Estado Maior Gadi Eisenkot (partido Yashar!), Yair Lapid (Yesh Atid) e o ex-ministro da Defesa e das Relações Exteriores, Avigdor Lieberman (Yisrael Beytenu).
Além do desgaste político, Netanyahu responde desde 2020 a processos por suborno, fraude e quebra de confiança. As audiências têm sido adiadas por “razões de segurança e diplomacia”, ligadas às guerras contra o Irã e o Hezbollah. Ele pediu perdão ao presidente Isaac Herzog em novembro de 2025, sem resposta até agora.
Se condenado, não pode ser preso enquanto estiver no cargo. Mas, se perder a eleição, poderá seguir o caminho do ex-primeiro-ministro Ehud Olmert, que cumpriu pena por corrupção.
Netanyahu é o premiê mais longevo da história de Israel, com 17 anos no poder. No mandato atual, iniciado em 2022, tentou submeter a Suprema Corte ao Parlamento — iniciativa que desencadeou protestos semanais em Tel Aviv e Jerusalém. Desde o ataque de 7 de outubro, quando o Hamas invadiu cidades israelenses, ele se recusa a criar uma comissão de inquérito sobre as falhas de segurança.
Condenado pelo Tribunal Penal Internacional pelos excessos na guerra em Gaza, ampliada depois para o Líbano, Irã e Houthis, Netanyahu carrega também um peso simbólico: seu irmão Yonatan foi o único morto na operação de resgate em Entebbe.
Eu o conheci na Guerra do Golfo, em 1991, quando era porta-voz de Israel. Um colega brasileiro tentou entrevistá-lo. Voltou minutos depois:
“Bíbi me pediu um tempinho para resolver algo — e não voltou mais.”
Mestre em campanhas, Netanyahu vê agora sua popularidade em queda. É acusado de prolongar fases da guerra iniciada em outubro de 2023 para evitar a prisão. Familiares de reféns do Hamas o criticam por falta de empenho — e foi necessária a intervenção de Trump para concluir negociações.
Nos EUA, sua imagem também se deteriora: caiu 31 pontos entre democratas acima de 50 anos; 22 pontos entre jovens de ambos os partidos; e 14 pontos entre protestantes e católicos. No Congresso, 40 senadores votaram para bloquear a venda de armas a Israel.
“Netanyahu está destruindo o apoio bipartidário a Israel”, resumiu o senador democrata Ruben Gallego.
*Moisés Rabinovici é jornalista brasileiro com carreira marcada por atuação internacional e inovação digital. Como correspondente de imprensa, atuou em Israel, Europa e Estados Unidos.





