Ruas viraram rios em Belém, ilhando população. (Reprodução: Instagram)


Belém enfrenta uma das piores crises climáticas da última década depois que chuvas torrenciais transformaram ruas em rios e deixaram bairros inteiros isolados. O prefeito Igor Normando (MDB) decretou estado de emergência na noite de domingo, após a capital paraense registrar 100 milímetros de precipitação em apenas seis horas — volume que expôs a fragilidade da infraestrutura urbana diante do chamado “inverno amazônico”.

Ao longo de 26 horas, o acumulado chegou a 150 mm, equivalente a um terço da média histórica de abril (465 mm). Comunidades como Terra Firme e Tapanã foram as mais atingidas, com moradores recorrendo a barcos improvisados ou arriscando-se a nado para atravessar canais transbordados, como o Mata Fome. A Defesa Civil ainda não divulgou números oficiais de desalojados.

Pressão jurídica e social

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O Ministério Público Federal (MPF) reagiu com urgência, enviando ofícios à Prefeitura, ao Governo do Estado e à Fundação Papa João XXIII (Funpapa). Os procuradores Rafael Martins da Silva e Sadi Flores Machado exigiram a abertura imediata de ginásios e escolas para acolher pessoas em situação de rua, alertando para riscos de hipotermia e doenças respiratórias. A falta crônica de vagas em abrigos já é alvo de ação civil pública em tramitação na Justiça Federal.

O decreto de emergência busca acelerar contratações e liberar recursos para bairros como Jurunas, Condor e Icoaraci. Mas a medida enfrenta o tempo e o clima: o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) mantém Belém sob “alerta laranja”, com previsão de novas tempestades nas próximas horas.

Estrutura precária

A crise revela a incapacidade do sistema de drenagem da região de lidar com chuvas intensas e marés altas. Em Ananindeua e Marituba, municípios vizinhos, moradores também relatam perdas materiais significativas. Em Maguari, a força da correnteza arrancou cercas de um parque cultural; em Coqueiro, garagens foram inundadas e carros precisaram ser retirados às pressas.

Na capital, cenas de improviso se multiplicaram. No bairro Pedreira, uma árvore caiu pela manhã. Em outra área, familiares ergueram a cama de uma idosa sobre cadeiras para evitar que o colchão fosse molhado. Moradores do Tapanã culpam o assoreamento do Canal Mata Fome e a paralisação das obras de macrodrenagem previstas para a COP30. “Não existe mais o canal, porque está aterrado. A prefeitura não limpa, não cava. É por isso que transbordou”, disse Fabiano Moraes da Silva.

Autoridades em campo

Em nota, o prefeito Normando afirmou que equipes da Defesa Civil atuam para reduzir impactos e que a cidade enfrenta uma “chuva intensa, fora do padrão”. A prefeitura de Ananindeua informou que monitora áreas afetadas e realiza levantamento de danos. O Corpo de Bombeiros Militar do Pará destacou que atua em conjunto com defesas civis municipais e estaduais para preservar vidas e desobstruir vias.

O Inmet alerta que abril deve superar a média histórica de chuvas, reforçando que o mês é tradicionalmente um dos mais chuvosos do chamado inverno amazônico. A população foi orientada a evitar áreas alagadas, não se abrigar sob árvores e não estacionar veículos próximos a torres de transmissão.