Camila Srougi


Camila Srougi*

Sempre que viajamos, buscamos lugares e pessoas que nos lembrem de casa. Isso traz conforto, segurança, aquela sensação de pertencimento. A psicologia explica: somos naturalmente atraídos por tudo aquilo que nos parece familiar. Personagens de filmes e séries com os quais nos identificamos, por exemplo, nos fazem sentir validados.

Mas “Adolescência”, a nova minissérie da Netflix, nos vira do avesso. Desde o primeiro episódio, torcemos para não nos reconhecer em nada nem em ninguém.

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Eu mesma assisti de olhos quase fechados, como quem tenta se proteger de um espelho. Mas falhei. Imensamente.

E foi assim que, depois do último episódio, me vi chorando por mais de uma hora na cama. Chorando de medo, de culpa, de impotência. Revisitando minha história como mãe. Reavaliando o que significa amar e educar.

Porque o mais assustador da série não é o crime cometido. Não é o bullying que, por mais que tenha ganhado destaque nas discussões atuais, segue fazendo (muitas) vítimas. Nem mesmo o sofrimento da família.

É a nossa identificação.

Ela se infiltra de mansinho: talvez na ausência que fica no dia a dia por trabalharmos demais. Talvez na crença de que, muitas vezes, a responsabilidade de educar seja dos professores. Talvez na esperança de que o amor, por si só, seja suficiente. Tudo isso dói demais!

O fato é: não conheço um único pai ou mãe que tenha assistido a essa série sem sentir essa dor. E isso diz muito.

Diz, principalmente, que todos nós estamos tentando. Que queremos ser bons. Que, no fundo, todos buscamos fazer da parentalidade nossa grande obra de arte.

Mas nem sempre temos os materiais ideais. Às vezes, o pincel falha. A tinta é rala. O cavalete está torto.

A verdade é que, mesmo quando entregamos tudo, damos o nosso melhor, a obra pode não seguir o caminho que imaginamos. Talvez porque confundimos o que é certo com aquilo que a gente acredita ser o melhor — como se o nosso olhar fosse absoluto.

Mas não é.

E talvez nem devesse ser.

Porque não se trata de fazer o certo.

Trata-se de fazer o humano.

E nós — sejamos pais ou filhos — somos todos falhos.

E, como pais, nos sentimos responsáveis por todos os erros cometidos pelos nossos filhos, pelas falhas, pelas fraquezas. Curiosamente, não nos damos os devidos méritos, na mesma medida, pelas conquistas e sucessos. Somos injustos com a nossa própria paternidade.

Agora imagine que essa obra tenha vida própria. Que se mova, pense, sinta e decida sozinha.

Imagine que, mesmo assim, a responsabilidade final continue recaindo sobre o artista. Na maternidade e na paternidade, é assim. Ou talvez… não. Então, quem carrega a responsabilidade?

Imagine que a obra de arte tivesse o dom de se moldar de acordo com o olho de cada observador. Se a pessoa gosta mais de laranja, a obra se adaptasse e mudasse as suas cores para agradar o olho do seu espectador. A partir daí, quem seria o responsável? Quem fez a obra? A própria obra que se adaptou a uma expectativa externa? A pessoa que desejou que ela fosse diferente?

Sabe aquela frase dos psicólogos: “aqui não existe resposta errada”? Pois bem. Aqui, não existe resposta certa.

Existe a consciência de ter usado os melhores recursos que tínhamos. De ter escolhido as cores com cuidado. De ter entregado o melhor que conseguimos, com o que sabíamos naquele momento.

E depois disso, só nos resta torcer.

Torcer para que a vida entenda a nossa intenção.

Torcer para que, se os traços não forem claros, alguém ainda consiga ver beleza na imperfeição.

Mas, no fim do dia — e da série —, o que resta é um vazio. Um silêncio que grita!

Uma avalanche de dúvidas, questionamentos, arrependimentos.

E a certeza de que não é sobre o que aconteceu.

É sobre tudo o que levou até lá.

E sobre o que ainda dá tempo de mudar.

A resposta?

Ah… essa é como o fim da série: não tem como saber.

*Camila Srougi é jornalista, apresentadora do BC TV e mãe de adolescente.