Gudryan Neufert*
Tirei alguns dias de férias e viajei sem sair da cidade de São Paulo. Aproveitei esse tempo para fazer o que mais amo: explorar sabores e culturas diferentes.
Levei minha família para almoçar no Prato Grego, no Bom Retiro. Saboreamos kafta de cordeiro e falafel, acompanhados de um molho grego fresco à base de iogurte, azeite e pepino. O atendimento ficou por conta de um garçom venezuelano, simpático e acolhedor.
Em outro dia, seguimos para o Shuk, na Vila Madalena, especializado em comida de rua do mundo árabe. Provamos uma esfiha de pesto de espinafre com queijo de cabra.
Para encerrar a viagem gastronômica, experimentamos o Jajangmyeon, um tradicional prato coreano de macarrão com molho preto de feijão, no Butumak. Lá, fomos atendidos por um garçom paraguaio, igualmente gentil.
Grécia, mundo árabe, Coreia do Sul, Venezuela e Paraguai. Tudo junto e misturado. Tudo em uma só metrópole: São Paulo.
Cresci valorizando o multiculturalismo. Quando fiz intercâmbio em Toronto, no Canadá, no final do século passado, a cidade tinha como lema acolher povos de todas as partes. Toronto abriga mais de cem comunidades de imigrantes. São Paulo segue a mesma linha. Aqui, respira-se diversidade, trocas culturais e convivência entre os diferentes.
Mas esse cenário está sob ameaça.
Na mesma semana em que viajei pela São Paulo multicultural, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou uma série de tarifas sobre o comércio internacional — algumas chegando a 50%. A medida foi recebida como um duro golpe na globalização. O curioso é que Trump foi eleito com o apoio de grupos que, historicamente, defendem o livre mercado. Agora, aposta numa política protecionista para tentar fazer a “América grande de novo”.
Os reflexos vão além da economia. A medida afeta diretamente o cenário político, social e cultural. Canadá, México, Europa e China estão entre os mais prejudicados pelas novas tarifas.
Para o escritor moçambicano José Eduardo Agualusa, que abordou o tema em O Globo, o que vemos é o colapso dos Estados Unidos. Ele compara o país a um animal enorme, caindo de maneira desajeitada e ruidosa: “quando um elefante cai”.
Poucos estão otimistas.
Após a crise de 2008, muitos economistas já alertavam para os riscos de uma globalização desenfreada. Mas o problema das medidas de Trump é outro: não se trata de um esforço para diminuir desigualdades ou proteger os mais pobres. Trata-se de pura chantagem política. Trump deixou claro que os países dispostos a colaborar podem ter as tarifas revistas.
Esse tipo de atitude raramente tem um final feliz.
Como mostrou o economista turco Dani Rodrik em O paradoxo da globalização, é possível proteger as economias locais sem fechar as portas ao mundo, sem intolerância e sem levantar muros culturais.
Trump segue o caminho oposto.
Reações intempestivas e gestos hostis podem gerar recessão, ampliar desigualdades e ressuscitar preconceitos que pareciam superados.
Nos Estados Unidos de William Faulkner, em Absalão, Absalão!, a busca por poder e riqueza a qualquer custo sempre veio acompanhada de violência e fantasmas do passado. O personagem Thomas Sutpen ascende socialmente durante a escravidão, mas seu império desaba por causa da própria brutalidade.
Faulkner escreve sobre uma terra marcada por traumas:
“Um acampamento militar repleto de fantasmas teimosos, olhando para trás, quarenta e três anos depois, ainda se recuperando da febre que os curou da doença…”
Hoje, o comportamento belicista de Trump, hostil ao diferente, empurra os Estados Unidos de volta aos seus maiores traumas. Entre eles, a Guerra Civil — uma ferida histórica que nunca cicatrizou por completo.
A marcha que Trump conduz não é apenas econômica. É cultural, política e simbólica. É o retrocesso de quem se recusa a aceitar que o mundo mudou — e continuará mudando, com ou sem muros ou tarifas.
No fim, o que está em disputa não é apenas o comércio. É a própria ideia de convivência em um planeta plural. Fechar-se ao outro pode gerar ganhos momentâneos. Mas, como ensinou Faulkner, quem ergue sua grandeza sobre exclusão e violência alimenta seus próprios fantasmas.
E eles sempre voltam.
*Gudryan Neufert é jornalista, com passagens por TV Globo, TV Record e SBT, além de graduações em Jornalismo (PUC-PR) e História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).




