Ivan Ângelo


Ivan Angelo*

Eu pergunto, mas tem muita gente afirmando.

Li um livro agora, muito bom, cujo título é: Era uma vez o futebol, do Ugo Giorgetti, que durante dezesseis anos assinou a coluna “Boleiros”, no jornal O Estado de S. Paulo, aos domingos. Ele exalta os bons tempos do futebol brasileiro, tempos de heróis e lendas. E quando alguém fala “bons tempos” entende-se que não são os dias que correm.

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Li outros dois livros: um, o do jornalista José Trajano, 1960, quando as estrelas ficaram vermelhas, memórias minuciosas de quando o América Futebol Clube conquistou o campeonato carioca; e outro, um romance sofisticado, O escutador, de Carlos Marcelo Carvalho, em que comparece como personagem um ídolo da minha adolescência, Heleno de Freitas, craque absoluto que desapareceu da história internado num hospício.

O futebol entrou neste meu abril de 2025 com essas três narrativas mitológicas. A mitologia é o lugar dos heróis, deuses e mitos – e no futebol deuses e heróis se chamam craques. Quem, hoje, podemos chamar de craques, verdadeiros craques? O quebradiço Neymar? O irregular Estêvão? O bombado Huck? Os momentâneos Arrascaeta e Yuri? O seguro Murilo? A inconsistência está à vista de todos, nas Copas, nos torneios, nos campeonatos. Não adianta trocar o técnico, falta é material.

Talvez não seja o caso de lamentarmos apenas o futebol. Não há heróis possíveis nas guerras, ídolos no cinema, ases na aviação, gênios na música ou na pintura, boxeadores ícones como Muhammad Ali e Éder Jofre, líderes para greves ou revoluções – indivíduos já não mostram o poder de inflamar o coletivo com talento e carisma. Pode ser que a exposição excessiva dos possíveis ídolos nas imagens da televisão e das redes, destacando suas falhas, suas caretas, seus defeitos, ou devassando sua vida pessoal, faça o efeito contrário: em vez de criar mitos, traz todos mais para perto do comum barro humano.

Mas isso não explica a falta de craques no futebol. Talvez as escolinhas expliquem, talvez a falta da várzea explique, talvez a falta da liberdade e da espontaneidade na formação explique. Quem os meninos de hoje vão cultuar para, futuramente, contar histórias de jogadores fabulosos para seus netos, como fizeram os autores dos livros que acabo de ler e que tiveram sua infância povoada de mitos?

*Ivan Angelo é Escritor e Jornalista. Foi Editor-Executivo do Jornal da Tarde, e colunista em várias Revistas e Jornais. Autor, duas vezes Prêmio Jabuti.