(por Romero Bittencourt e Carvalho)
O diálogo inter-religioso, ou ainda em seu conceito ampliado como diálogo interconvicções, é uma realidade. Não é mais possível discutir se é viável ou não, pois ele já ocorre, e acontecia antes mesmo de vários livros serem publicados sobre o assunto, com métodos e categorias. No cotidiano das pessoas, nos dilemas éticos, nas possibilidades de vivência e conexões com as histórias sagradas, pessoas de tradições diferentes dialogam e convivem há mais tempo do que podemos delimitar. Em um cenário em que as redes sociais na Internet exaltam intolerâncias, o diálogo torna-se ainda mais urgente e necessário. E as religiões, pela sua capacidade de falar com o íntimo do ser humano e mobilizar massas em grandes causas, podem promover algo realmente significativo. E o nosso já saudoso Papa Francisco sabia bem disso.
Por mais que soe urgente, não é nada simples. O diálogo esbarra em posições radicais e na incapacidade de enxergar o outro e sua verdade com alteridade. Contudo, ele se estabelece com mais facilidade em um espaço “pluralista”, onde o diálogo ocorre não com a intenção de convencer o outro, mas de aprender com sua experiência. Este ambiente religioso pluralista, onde Deus é libertado das amarras culturais e religiosas a que foi submetido por muitas religiões, é extremamente desafiador, pois a verdade alheia se torna um elemento essencial para a construção de diálogos e enriquecimento da própria vivência de fé.
Um mundo onde todos professariam o mesmo credo seria certamente mais seguro para a fé de muitos, mas não é a realidade, que congrega diversas religiões, credos e convicções. E, nesta realidade diversificada, antagônica à ideia de uma Divindade limitada a um povo, revelação ou tempo histórico, o Papa Francisco deu passos importantes. Na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, o Papa Francisco disse que a diversidade cultural não é uma ameaça à unidade da Igreja (EG n. 117), mas, ao contrário, significa “harmonia pluriforme” (EG n. 220), sendo sim um processo lento e árduo. A convicção desta “harmonia pluriforme” de Francisco fica evidente em sua fala durante uma visita a Cingapura, em 2024, um país com população significativa de pelo menos cinco religiões diferentes. Lá, o Papa Francisco declarou que “todas as religiões são um caminho para Deus”, afirmando ainda: “Elas [as religiões] são como línguas diferentes para chegar a Deus, mas Deus é Deus para todos”. Na Laudato Si, Francisco insere essa “harmonia pluriforme” no contexto mais amplo da “ecologia integral” e propõe que dediquemos “algum tempo para recuperar a harmonia serena com a criação” (LS n. 225).
É importante lembrar que, no cristianismo, até a metade do século XX, a posição teológica hegemônica foi a do chamado “exclusivismo”, com sua famosa sentença Extra Ecclesiam nulla salus (“fora da Igreja não há salvação”). Esta frase, presente já no Concílio de Florença, em 1442, deixava evidente o sentimento católico de que, neste mundo, só a Igreja Católica foi instituída por Deus. Todos as outras religiões ou mesmo igrejas cristãs que se separaram da Católica estariam fora da verdade e da salvação. No protestantismo, o exclusivismo era pautado no “tríplice princípio”: sola fide, sola gratia, sola scriptura (“só a fé, só a graça, só a Escritura”). O teólogo protestante Karl Barth, por exemplo, entendia que as demais religiões, que não a cristã, eram esforços humanos de captar a benevolência divina, um desejo de manipular Deus; algo, portanto, pecaminoso. A Igreja Católica majoritariamente adota atualmente o chamado “inclusivismo”, sendo a própria Igreja a responsável por este salto no Concílio Vaticano II. O “inclusivismo”, ainda que não entenda as demais religiões como processos capazes de conceder a salvação final, foi um passo muito importante no cristianismo, pois passou a vê-las com olhar mais positivo, além de congregar no mesmo local ecumênico as tradições cristãs. Apesar do avanço, o “inclusivismo” mantinha o cristianismo como religião eleita, única a ser instituída na Terra pelo próprio Deus, fonte exclusiva do valor salvífico, plenitude e acabamento da revelação divina, o que seguia, por sua vez, facilitando uma visão colonialista eurocêntrica.
Buscando ampliar esse horizonte, o teólogo inglês presbiteriano John Hick, de forma pioneira dentro do cristianismo, lançou em 1973 a sua ideia de uma “revolução copernicana” no universo da fé. Assim como Copérnico propôs o sistema heliocêntrico em oposição ao sistema geocêntrico de sua época, Hick propôs uma visão com Deus no centro e o cristianismo girando em torno Dele como mais um planeta. No teocentrismo proposto por ele, Cristo e as demais religiões orbitam ao redor de Deus. Para ele, o velho mapa da fé, com o cristianismo como religião universal e absoluta, tinha sido proposto em uma época de desconhecimento das demais religiões e hoje apresentaria problemas e incoerências insolúveis. Este novo paradigma, o pluralismo e a teologia do pluralismo religioso seguem como uma parte fundamental da discussão teológica no cristianismo desde os anos 1980, com várias teorias propostas. Importante destacar que nenhuma delas entende que o pluralismo iguala as tradições religiosas propondo uma teologia única. Dessa forma, o pluralismo evita o perigo do relativismo, reconhecendo o que é de fato absoluto e relativizando apenas o que é relativizável. E neste campo, o diálogo inter-religioso é fundamental, com os ouvidos e o coração abertos. Neste diálogo enriquecedor, busca-se um equilíbrio entre unidade e diversidade com a valorização da identidade diferente do outro.
Na perspectiva do diálogo inter-religioso, a ideia central de que cada religião tem sua proposta de salvação e de fé que deve ser, nas palavras de Cláudio Ribeiro, “aceita, respeitada e aprimorada a partir de um diálogo e aproximação mútuos”. Este diálogo inter-religioso acolhe a diversidade, o que fortalece a identidade, e enfatiza o respeito. Pluralismo não é, na verdade, mais uma opção, mas a realidade do mundo.
A religião fornece muito mais que do que é possível mensurar. Fornece sentido, visão, autoestima, projeto, força, que faz com que inúmeros povos ao redor do mundo sobrevivam com menos que um dólar por dia ou em conflitos insistentes e horrendos. As religiões estão presentes de forma supracontinental na vida íntima do povo e precisam participar do resgate de seus valores nobres, como justiça, esperança e misericórdia. No diálogo inter-religioso, as pessoas de distintas tradições podem compreender, admirar e aprofundar sua própria experiência, rumando a uma compreensão mística e transcendental da criação, de Deus e da multiplicidade de caminhos e vivências do amor. Neste diálogo, como afirma Roberlei Panasiewicz, “o diferente deixa de ser sinônimo de ameaça e passa a ser companheiro em busca do Mistério transcendente”. Sendo assim, exercer plenamente o diálogo é simplesmente vivenciar a multiplicidade inerente ao Absoluto, contemplar a beleza inefável da Sua diversidade e saborear as várias facetas do Seu amor. E esta talvez seja uma das maiores lições do Papa Francisco, pois buscou viver isso para além das teorias.
Em 2022, durante o Pentecostes, Francisco disse que “a globalização e a aceleração das comunicações internacionais tornam o diálogo em geral, e o diálogo inter-religioso, em particular, uma questão crucial”, entendendo que a missão do diálogo não é outra, senão “promover com outros fiéis, de maneira fraterna e convivial, o caminho da busca de Deus; considerando as pessoas de outras religiões não de forma abstrata, mas concreta, com uma história, desejos, feridas e sonhos. Só assim poderemos construir juntos um mundo habitável para todos, em paz. Diante da sucessão de crises e conflitos”. E mais: “alguns tentam fugir da realidade refugiando-se em mundos privados; outros a enfrentam com violência destrutiva, mas entre indiferença egoísta e protesto violento há uma opção que é sempre possível: o diálogo”. Segundo o Papa, “cada homem e cada mulher é como um pedaço de azulejo de um imenso mosaico, que já é bonito em si mesmo, mas somente junto com outros pedaços compõe uma imagem, no convívio das diferenças”, e “ser convivial com alguém também significa imaginar e construir um futuro feliz com o outro. O convívio, na verdade, ecoa o desejo de comunhão que habita no coração de cada ser humano, graças ao qual todos podem conversar uns com os outros, podem trocar projetos e delinear um futuro juntos. O convívio une socialmente, mas sem colonizar o outro, preservando sua identidade. Nesse sentido, tem uma relevância política como alternativa à fragmentação social e ao conflito”. Despedimo-nos de um ser humano que viveu realmente neste ideal, conclamando a fé como um elemento de união para além dos limites de cada revelação divina. Um real transcendentalista.
Romero Bittencourt e Carvalho é Doutor e Mestre em Ciências da Religião pela PUC-MG, jornalista desde 2003, com Pós-graduação em Jornalismo Cultural.




