Um porta-voz militar iraniano afirmou neste sábado (2) que é “provável” a retomada da guerra com os Estados Unidos, após Donald Trump rejeitar uma nova oferta de Teerã para relançar as negociações de paz. Segundo a AXSMarine, especializada em monitoramento marítimo, 913 navios comerciais ainda estavam no Golfo Pérsico no fim de abril.
“Uma retomada do conflito entre o Irã e os Estados Unidos é provável, e os fatos demonstraram que os Estados Unidos não respeitam nenhuma promessa ou acordo”, disse Mohammad Jafar Asadi, inspetor-adjunto do comando das Forças Armadas Khatam Al Anbiya, citado pela agência de notícias Fars. Ele acrescentou: “As Forças Armadas estão perfeitamente preparadas para qualquer nova tentativa de aventureirismo ou qualquer ação imprudente por parte dos americanos”.
O Irã apresentou nesta semana uma nova proposta de acordo de paz aos Estados Unidos por meio do Paquistão, mediador das negociações. Nenhum detalhe foi divulgado, mas Trump declarou na sexta-feira não estar “satisfeito” com a versão. Para o presidente americano, os dirigentes iranianos estão “desunidos” e incapazes de chegar a um consenso sobre uma estratégia de saída do conflito.
Trump, que já havia ameaçado aniquilar a “civilização” iraniana, reiterou que prefere não ter de “pulverizar de uma vez por todas” o Irã. No entanto, afirmou que a retomada da guerra continua sendo “uma opção”.
Conflito “encerrado”
Em carta enviada ao Congresso americano na sexta-feira, Trump declarou que as hostilidades no Irã terminaram. Ele enviou a mensagem no último dia do prazo previsto para solicitar autorização para prosseguir com a guerra, após 60 dias do início do conflito. O republicano alegou que não houve troca de tiros desde a entrada em vigor da trégua em 7 de abril.
Parlamentares democratas, porém, destacaram que a presença contínua de forças americanas na região indica o contrário. O USS Gerald Ford, maior porta-aviões do mundo, deixou o Oriente Médio, mas 20 embarcações da Marinha americana, incluindo outros dois porta-aviões, permanecem mobilizadas.
Embora os bombardeios tenham cessado, o conflito prossegue sob outras formas. Washington mantém bloqueio aos portos iranianos em retaliação ao fechamento, por Teerã, do Estreito de Ormuz, por onde transita um quinto dos hidrocarbonetos consumidos no mundo.
Um cessar-fogo entrou em vigor em 7 de abril, após quase 40 dias de ataques israelenses e americanos contra o Irã e de represálias de Teerã na região. A primeira rodada de negociações diretas em Islamabad, em 11 de abril, foi infrutífera e não teve desdobramentos, diante das divergências persistentes entre os dois lados, do Estreito de Ormuz à questão nuclear.
A guerra deixou milhares de mortos, principalmente no Irã e no Líbano, e seus impactos continuam a abalar a economia mundial, com os preços do petróleo atingindo nesta semana níveis inéditos desde 2022.
Retirada de militares da Alemanha
Os Estados Unidos vão retirar cerca de 5 mil militares da Alemanha dentro de um ano. A decisão foi anunciada pelo Pentágono após Trump expressar irritação com o chanceler alemão a respeito da guerra no Irã. Friedrich Merz afirmou que os americanos não tinham “nenhuma estratégia” no país e que Teerã “humilhava” a principal potência mundial.
Atualmente, mais de 36 mil soldados americanos estão posicionados na Alemanha. O ministro alemão da Defesa disse neste sábado que a retirada parcial das tropas era esperada. Trump, que critica os aliados europeus pela falta de apoio à ofensiva lançada em fevereiro contra a República Islâmica, ameaça retirar forças militares também da Espanha e da Itália.
Ao mesmo tempo, o presidente americano promete relançar a guerra comercial contra a Europa. Ele anunciou na sexta-feira que pretende elevar para 25% “na próxima semana” as tarifas alfandegárias sobre veículos importados da União Europeia. Trump acusa o bloco europeu de não respeitar o acordo comercial firmado no verão passado.
Novas execuções
Enquanto isso, o Irã permanece inflexível. “Certamente não aceitaremos que nos imponham” uma política, declarou na sexta-feira o chefe do Poder Judiciário, Gholamhossein Mohseni Ejei. Negar Mortazavi, do Center for International Policy, destacou a “coesão” do poder iraniano, unido em uma “batalha existencial”.
Com a trégua, os iranianos retomaram certa normalidade, mas o cotidiano segue afetado pela inflação em alta e pelo aumento do desemprego, em um país enfraquecido por décadas de sanções internacionais. Em mensagem escrita, o guia supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, exortou empresas que sofreram danos a “evitar ao máximo as demissões”, em nome da “guerra econômica e cultural” travada pelo Irã.
Amir, de 40 anos, contou que começa o dia “olhando as notícias e as novas execuções” realizadas pelo poder iraniano. A Justiça anunciou neste sábado o enforcamento de dois homens acusados de espionagem em favor de Israel. “Sinto que estou preso no purgatório”, disse ele à AFP. “Os Estados Unidos e Israel acabarão nos atacando novamente”, enquanto “o mundo fecha os olhos”, denunciou.





