Gudryan Neufert
O novo Papa celebrou sua primeira missa com um clamor que atravessa continentes e corações: paz. Paz entre vizinhos que se enfrentam com a fúria dos séculos. Rússia e Ucrânia. Paquistão e Índia. Israel e Palestina. As trincheiras seguem abertas, mas há uma fresta de esperança no Leste Europeu.
Rússia e Ucrânia, que já marcharam juntas sob as cruzes da Ortodoxia e as bandeiras da Revolução, podem enfim dar um passo em direção ao silêncio das armas. Os líderes, ambos exaustos — de orgulho e de recursos — preparam-se para um possível encontro nesta semana, na neutra Istambul, onde a diplomacia já soprou brisas de trégua em outros tempos. A guerra, que dura mais de três anos, parece ter chegado ao seu ponto mais frágil: aquele em que já não compensa nem como espetáculo.
Enquanto isso, Lula passou por Moscou e agora está na China, semeando discursos onde os grandes se entreolham. Mas é difícil saber disso lendo os jornais brasileiros. Como é possível que não tenhamos correspondentes fixos em Moscou? Em Pequim só O Globo mantém um repórter. O mundo mudou de eixo, mas nossas redações ainda estão estacionadas na Guerra Fria. A geopolítica tornou-se multipolar, mas as manchetes seguem binárias.
Talvez eu me incomode tanto com isso porque tenho raízes fincadas nesse solo longínquo. Fui criado em um bairro onde o ponto de encontro era a Praça da Ucrânia. Os ucranianos, ao lado dos poloneses, alemães, italianos e japoneses, compõem as colônias que moldaram Curitiba — e, de certo modo, minha própria ideia de mundo.
Desde pequeno, soube localizar a Ucrânia no mapa-múndi com uma naturalidade que o colégio não ensinava. Uma das primeiras reportagens que fiz na Globo do Paraná foi sobre a pêssanka, aquele ovo delicadamente pintado à mão, guardião de uma simbologia ancestral. A tradição, que remonta aos tempos pagãos, celebrava a primavera com ovos ofertados aos deuses: sinais de vida, saúde e renascimento. Pêssanka — do verbo pysaty, escrever. Escrever com cera, com tinta, com fé.
A Ucrânia sempre foi ponte e fronteira. De lá partiu a resistência contra o Império Mongol, como lembrou Paulo Leminski em seus versos ora crônicos, ora históricos. Foi de Kiev que brotou o embrião da Rus’, o coração de um império que viria a se chamar Rússia. Ironia ou destino: Trotsky, que ajudou a moldar a Revolução de 1917, também era ucraniano.
A literatura russa talvez seja a mais densa do mundo — não por acaso, foi lá que decifraram os contos de fadas como metáforas da alma. De Tchekhov a Dostoiévski, de Tolstói a Bulgákov, os russos escreveram como quem cava trincheiras dentro do próprio peito. E como esquecer Konstantin Korovin, pintor da luz, da cor e do instante? Sua obra me arrebatou quando estive em Moscou, entre os salões da Galeria Tretyakov e o espanto diante de Kandinsky, Malevich e da Theotokos de Vladimir.
No Museu do Cosmonauta, outra epifania: a Terra é azul. A frase de Gagarin, pequena e cósmica, ainda ecoa em mim como um haicai orbital.
Não há razão para que a briga siga. Já passou da hora de russos e ucranianos voltarem a conviver, como uma bela pêssanka repousando sobre a mesa de Páscoa ou como um quadro de Korovin capturando, com pinceladas largas, a promessa de um dia que amanhece em paz.
*Gudryan Neufert é jornalista, com passagens por TV Globo, TV Record e SBT, além de graduações em Jornalismo (PUC-PR) e História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).




