Gudryan Neufert*
Dias atrás, decupei a última coletiva de Carlo Ancelotti no comando do Real Madrid. O clima era de ressaca. O time havia perdido para o Barcelona — mais do que um rival, um espelho invertido — e o treinador já sabia que seu adeus estava marcado. Irritado, respondeu atravessado aos jornalistas. Confesso que me incomoda ver um profissional tão bem pago, falando a milhões de torcedores, tratar com desdém quem apenas faz perguntas. No mínimo, um pouco de elegância seria bem-vinda. Mas era um homem ferido. Não pelo jogo em si, mas pela política: o clube já havia acertado com Xabi Alonso, inclusive pensando na Copa do Mundo de Clubes — um torneio que Ancelotti jamais desprezaria.
Mas, se saiu pela porta dos fundos de Madrid, entra pela porta principal do futebol mundial. E vai assumir talvez o único cargo ainda maior do que o de técnico do Real: o comando da Seleção Brasileira.
Pode dar certo? Pode dar muito certo. Porque essa é uma união rara, quase poética: Brasil e Itália, as duas maiores escolas do futebol mundial, se reencontrando numa mesma camisa. A arte e a tática. O drible e a contenção. A ginga e o rigor. Mesmo que, nos últimos 30 anos, essas identidades tenham se embaralhado — italianos com volúpia ofensiva, brasileiros obcecados por linhas defensivas —, ainda é possível reconhecer os traços originais. Seria, no campo da arte, algo como um pós-modernismo tardio: Michelangelo esculpido em ritmo de Noel Rosa.
Ancelotti no Brasil é mais que uma transferência de cargo. É uma fusão simbólica. Pode ser o início de um tropicalismo boleiro, com cara de parangolé de Bispo do Rosário. A harmonia entre a precisão italiana e a leveza brasileira. Um maestro da prancheta regendo sambistas de chuteira.
Não é de hoje que Ancelotti flerta com o Brasil. Quando jogador, teve ao lado Paulo Roberto Falcão e Toninho Cerezo na Roma. Depois, como técnico do Milan, moldou o auge europeu de Kaká — e dirigiu Ronaldo Fenômeno. No Real Madrid, se afinou com Vinícius Júnior, acolheu Rodrygo e preparou a transição de Endrick para o futebol europeu. Em mais de quatro décadas de futebol, nunca esteve longe de um brasileiro.
Agora, deve morar no Rio. E, sem a rotina diária dos clubes, pode até se permitir uma boa praia. Os raios de sol e a água salgada da orla carioca talvez o encham ainda mais de brasilidade. Já se fala em seis nomes do Flamengo na pré-lista. Se confirmado, será um gesto simbólico e importante: abrir novamente a seleção aos jogadores que atuam no Brasil. É irônico, mas sintomático, que seja um europeu a enfrentar o vício eurocêntrico que contaminou a CBF nas últimas décadas. Diniz e Dorival pagaram o preço desse desequilíbrio.
Ancelotti, ao que tudo indica, virá sem o velho complexo de vira-latas que desde 1950 aflige o futebol brasileiro. Talvez por isso inspire esperança: porque não carrega traumas. Nem os de 50, nem os de 82, nem os de 2014.
Brasil e Itália, juntos, somam nove títulos e 14 finais de Copa. Estiveram em 11 das 22 decisões. Em 1970, fizeram a mais emblemática de todas: a final no México, vencida pelo Brasil de Pelé, Gerson e Tostão sobre uma Itália exausta, mas talentosa.
Agora, essas duas potências voltam a se encontrar. E, quem sabe, sob a batuta de um técnico estrangeiro, o Brasil possa fazer história de novo — com um título mundial liderado por um homem de fora, mas que parece, a cada dia, mais íntimo do nosso jeito de jogar.
Carlo Ancelotti pode ser o primeiro técnico não brasileiro a erguer a taça com a camisa amarela. Mas, se acontecer, talvez nem pareça tão estrangeiro assim.
*Gudryan Neufert é jornalista, com passagens por TV Globo, TV Record e SBT, além de graduações em Jornalismo (PUC-PR) e História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).




