Gudryan Neufert


Gudryan Neufert*

Nos últimos dias, a paisagem espetacular da natureza dividiu espaço com o medo, a dor e a tragédia. Em Copacabana, quase cem praticantes de stand up paddle foram resgatados após ficarem à deriva. No sul do Brasil, um balão em chamas caiu com 22 pessoas a bordo. Do outro lado do mundo, no vulcão Rinjani, na Indonésia, uma jovem brasileira morreu sozinha após cair e esperar por socorro durante dias.

Foram fatalidades? Não. Foram alertas ignorados, negligências acumuladas, protocolos frágeis ou inexistentes. Foram exemplos de como a busca por experiências “inesquecíveis” pode cruzar a fronteira entre o extraordinário e o trágico — e como o turismo de aventura, mal regulado, acaba expondo corpos e vidas à sorte. Ou à falta dela.

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Vivemos numa era em que experiências valem mais do que posses. Queremos viver algo “fora do comum”, algo que renda uma história, uma foto com filtro sépia, um reels cheio de vento, sol e coragem. Mas coragem, sem preparo, é só pressa. E pressa é inimiga da prudência.

O mar não perdoa a ignorância

Sou de Santa Catarina. Aprendi desde pequeno que o mar é lindo, mas não é manso. A primeira regra para brincar nele é saber respeitá-lo. A segunda é saber nadar. Não tem glamour nisso — é sobrevivência.

Ver gente sem nenhuma experiência se lançando em pranchas de stand up paddle no mar aberto de Copacabana é como assistir a um número de mágica sem truque: se der errado, não tem volta. Não é sobre julgamento — é sobre responsabilidade. Quem organiza um passeio com dezenas de pessoas despreparadas precisa ser responsabilizado. Afinal, um passeio só é completo se todo mundo volta para casa.

Balonismo não é brinquedo

Em 1996, fiz minha primeira reportagem a bordo de um balão. Voamos ao entardecer, o tempo virou, o piloto perdeu o bom humor e fizemos um pouso de emergência num milharal. Parecia emocionante na época. Hoje, olhando para trás, vejo: foi uma irresponsabilidade.

Décadas depois, os cestos dos balões aumentaram. Mais gente, mais lucro, menos margem para erro. No acidente recente em Santa Catarina, 22 pessoas estavam no mesmo balão. O cesto pegou fogo. Treze pularam a tempo. Oito não conseguiram. O céu, que parecia cenário de sonho, virou palco de tragédia.

Voo de balão é bonito, sim. Mas é também extremamente sensível. Vento, temperatura, horário, topografia — tudo importa. E o que deveria ser delicadeza virou loteamento turístico. A pergunta que fica: se fossem treze pessoas no cesto, e não vinte e duas, será que todas teriam sobrevivido?

Montanha não tem wi-fi, nem misericórdia

Juliana, de Niterói, decidiu escalar o vulcão Rinjani, na Indonésia. Era jovem, linda, cheia de vida. Ficou para trás na trilha, caiu, esperou dias por resgate. Morreu sozinha, num lugar onde o céu e a terra parecem não se tocar.

As imagens de Juliana caída numa fenda circularam o mundo. O corpo dela virou símbolo da vulnerabilidade moderna. A montanha não ouviu seus gritos. O mundo, sim. Mas tarde demais.

A solidão dela não era só física. Era também existencial. Porque, no fundo, o que buscamos em aventuras extremas é exatamente isso: um sentido que nos escape no cotidiano. Uma forma de provar que estamos vivos.

Lembrei de uma passagem de Na Natureza Selvagem, de Jon Krakauer, quando Christopher McCandless, outro jovem em busca de sentido, escreve:

“A felicidade só é real quando compartilhada.”

Juliana não teve com quem compartilhar seus últimos momentos. Morreu de abandono, mas também de um sistema que transforma o “exótico” em produto, sem oferecer garantias mínimas de segurança a quem compra a fantasia.

Adrenalina vende. Cuidado, nem sempre.

Não é sobre culpar as vítimas. É sobre cobrar os responsáveis. O turismo de aventura virou indústria — e, como toda indústria, quer lucro. Mas vender risco sem preparo é vender roleta russa.

Na semana que vem, vai ter passeio de stand up de novo em Copacabana. Vai ter balão subindo no amanhecer de Santa Catarina. Vai ter trilha na Indonésia. Mas as famílias que enterraram seus filhos, irmãos, amigas — essas não voltarão jamais ao que eram antes.

Baudelaire escreveu sobre “o homem da multidão”, aquele que não quer estar só. A gente também não quer. Mas, no fundo, somos cada vez mais sozinhos. Em trilhas, no mar, no céu — ou na vida.

Talvez o maior risco não seja escalar um vulcão ou voar num balão. Talvez o maior risco seja achar que está tudo sob controle. Quando a aventura se torna tragédia, o que morre junto com a vítima é a nossa ilusão de invencibilidade.

*Gudryan Neufert é jornalista, com passagens por TV Globo, TV Record e SBT, além de graduações em Jornalismo (PUC-PR) e História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).