Pai socorre filha que foi baleada por soldados do exército de Israel. (Foto: Redes Sociais)


A Advocacia-Geral Militar de Israel abriu investigação para apurar uma denúncia do jornal Haaretz, de que comandantes do Exército israelense vêm dando ordens às tropas para disparar contra as multidões de civis palestinos que ficam em filas de distribuição de alimentos na Faixa de Gaza.

A entidade é uma espécie de corregedoria das Forças Armadas israelenses e age com mandato próprio, independente da cadeia de comando.

Questionado, o Exército israelense negou o teor da reportagem do Haaretz. Rejeitamos veementemente a acusação levantada no artigo — as Forças de Defesa de Israel não instruíram as tropas a atirar deliberadamente em civis, incluindo aqueles que se aproximavam dos centros de distribuição”, afirmou o Exército.

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Militares ouvidos pelo Haaretz se referem aos locais de entrega de ajuda humanitária no sul de Gaza como “campos de matança” e dizem que a ordem para dispersar a bala por parte dos comandantes militares ocorre mesmo quando não há risco efetivo.

Um dos militares ouvidos pelo jornal israelense disse que as matanças em filas de alimentos “são uma violação completa do código de conduta do Exército ”.

O papel da GHF

As mortes em filas de distribuição de alimentos começaram a ocorrer em 27 de maio, quando Israel passou a restringir o trabalho das organizações humanitárias como a Cruz Vermelha e os Médicos Sem Fronteiras (MSF) na Faixa de Gaza.

Elas foram substituídas por uma empresa chamada Fundação Humanitária de Gaza (GHF, na sigla em inglês), criada por americanos próximos ao governo Trump e contratadas pelo governo de Israel.

Desde que a GHF assumiu a distribuição de ajuda humanitária, 19 tiroteios ocorreram no local e 549 morreram nessas filas, segundo a ONU. A distribuição dos alimentos, diz o Haaretz, é caótica, e frequentemente a multidão corre para pegar as caixas de mantimentos.

Quando lançada, a empresa tinha como presidente um ex-militar americano. Ela recebeu na quinta-feira (26) uma autorização de aporte no valor de US$ 30 milhões (R$ 164 milhões) do Departamento de Estado.

Indícios de abusos

A informação do Haaretz, baseada em entrevistas dadas pelos próprios militares, sob condição de anonimato, foi confirmada ao Estadão pela brasileira Damaris Giuliana, que foi gerente de comunicação da ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) nos territórios palestinos

“Se as pessoas chegam muito cedo aos pontos de distribuição de alimentos, os soldados atiram. Se elas chegam em cima da hora e tem aglomeração por conta do desespero, eles atiram também. E se as pessoas permanecem na área depois do fim da distribuição, eles atiram da mesma forma”, disse ela.

A profissional de MSF afirmou ainda que há um alto fluxo de pacientes toda vez que tem uma distribuição alimentos em Gaza. “Nos dias em que eles (os israelenses) fecham os centros de distribuição, o número de feridos nos hospitais é bem mais baixo”, diz ela.

Como será a investigação

A Advocacia-Geral Militar disse ao Estadão que atua por meio de um “mecanismo de checagem de fatos”, por meio do qual uma equipe de especialistas jurídicos e militares investigam as denúncias, colhendo relatos e outras evidências no local.

Quando encontra culpados, a Advocacia-Geral Militar pode detê-los e instaurar procedimentos disciplinares, além de formular acusações em cortes marciais.

O caso de maior repercussão até agora foi a detenção de militares israelenses acusados de cometer abusos contra palestinos presos na base militar de Sde Teiman, no deserto de Negev, perto da fronteira com Gaza, em agosto de 2024.

Acusações de crimes de guerra

O Tribunal Penal Internacional, baseado em Haia, nos Países Baixos, emitiu, em 21 de novembro de 2024, uma ordem de prisão contra o premiê Binyamin Netanyahu e o então ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, pelo “crime de guerra de fome como método de guerra”.

O governo da África do Sul apresentou uma denúncia por genocídio contra Israel na Corte Internacional de Justiça, também em Haia. O caso ainda está sendo julgado.

Desde o início dos ataques israelenses contra a Faixa de Gaza, em 7 de outubro de 2023, mais de 50 mil palestinos foram mortos, de acordo com dados das autoridades locais de saúde, que são controladas pelo grupo terrorista Hamas.

A ONU considera que a restrição de entrada de alimentos no território palestino controlado por Israel corresponde a uma tentativa de “apagar a vida palestina em Gaza”.